sábado, 16 de dezembro de 2023

O ENCANTO DO PECADO

 

Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B

(Monge Beneditino)

Salvador, Bahia – 16 de dezembro de 2023.


- O pecado sussurra ao ímpio lá no fundo do seu coração; o temor do Senhor, nosso Deus, não existe perante seus olhos. Lisonjeia a si mesmo pensando: “Ninguém vê nem condena o meu crime!” Traz na boca maldade e engano; já não quer refletir e agir bem. Arquiteta a maldade em seu leito, nos caminhos errados insiste e não quer afastar-se do mal. (Sl 35 (36),2-5). Saltério Monástico.


Cada cultura, cada povo, cada religião, formaram o seu conceito sobre o pecado. Nisto está a sua grande complexidade. As perguntas que fazemos e que constantemente ouvimos são estas: O que é o pecado?” ou O que é pecado venial e pecado grave ou mortal? O que caracteriza um pecado mortal? São perguntas importantes e necessárias para a nossa vida cristã. Não só estas perguntas, mas tantas outras nos aparecem diariamente. Quando converso com as pessoas sobre a questão do pecado, sempre deixo um questionamento para as mesmas sobre a natureza desse conceito tão falado e propagado, porém pouco conhecido. Principalmente nos dias atuais em que a forma e a questão de pecado mudaram drasticamente, deixando as pessoas iludidas e perdidas em seus pensamentos sem um conhecimento claro sobre esse assunto. Portanto, um dos questionamentos que lanço é este: Pecar em certas ocasiões nos deixam alegres; porque esse ato se configura em uma coisa má?  Assim, nos perguntando creio que teremos um certo conhecimento da gravidade do ato que poderemos cometer em nossa vida. Cuidado! Há certas ações perigosas e pecaminosas que nos deixam quase em êxtase, no entanto, elas podem matar o nosso corpo e levar a nossa alma para a perdição eterna. Exemplificando: a vingança, a gula, a luxúria e tantos outros atos que aparentemente traz uma certa alegria quando são praticados, porém, a curto ou longo prazo, trará para o praticante tristezas, amarguras, mortes, etc. Ou seja, os efeitos da alegria do pecado não perduram como os da virtude.


Pois bem, tão sério é esse assunto, que diante de tais questionamentos, ficamos ainda um tanto quase que perdidos nos nossos conceitos em relação a essas transgressões leves, graves ou pesadas, como dizemos no nosso cotidiano.


Vamos agora dar uma olhada em alguns conceitos básicos do Compêndio da Moral Católica, o qual assim define esses atos cometidos pelos homens. Segundo ele, “O pecado é a transgressão voluntária da lei divina. Como toda lei deriva da lei divina, a transgressão de qualquer delas é pecado”. (Compêndio da Moral Católica, 1943, n.96, p. 66).


Escutemos com atenção mais uma vez o que nos ensina o mesmo Compêndio: “Para haver pecado, requer-se: A) a transgressão de uma lei (ou ao menos do que se supõe tal); B) o conhecimento ao menos vago, da transgressão; C) o livre consentimento”. (CMC, n.96, p. 66). É bastante importante conhecer esses conceitos porque se você conhece o básico do que seja um ato de pecado, certamente você não cometerá tantos atos prejudiciais à sua vida e a dos outros.


O Catecismo da Igreja Católica também nos define o que é pecado quando nos diz: “O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. Foi definido como "uma palavra, um ato ou um desejo contrários à lei eterna". (n. 1849).


E segue nos ensinando que: “O pecado é ofensa a Deus: "Pequei contra ti, contra ti somente; pratiquei o que é mau aos teus olhos" (Sl 51,6). O pecado ergue-se contra o amor de Deus por nós e desvia dele os nossos corações. Como o primeiro pecado, é uma desobediência, uma revolta contra Deus, por vontade de tornar-se "como deuses", conhecendo e determinando o bem e o mal (Gn 3,5). O pecado é, portanto, "amor de si mesmo até o desprezo de Deus". Por essa exaltação orgulhosa de si, o pecado é diametralmente contrário à obediência de Jesus, que realiza a salvação”. (n. 1850).


Segundo a Teologia, certos pensamentos do homem configura-se como pecado e causam um enorme impacto na nossa alma e na história da humanidade. Isso acontecem por que o homem ao praticar tais pecados, mexem também com toda uma engrenagem psicológica e social, não só da própria pessoa, mas também de todos que estão à sua volta. Daí o grande cuidado que devemos ter em relação aos nossos atos. O Compêndio ainda nos alerta: “Os atos humanos (actus humani) são os atos que procedem do conhecimento e da livre vontade do homem”. (CMC, 1943, n.3, p. 18).


São Paulo na sua carta aos Coríntios vai nos ensinar: “Eu não corro, não quem corre às cegas; eu luto, não como quem fere o ar, mas castigo o meu corpo e o reduzo à servidão”. (1Cor 9,26-27a). Ou seja, devemos ter o conhecimento dos nossos atos e ficarmos atentos a eles. Porém, isso requer sacrifícios e a maioria não querem ou não tem forças para sacrificar muitas das suas vontades e fogem das suas responsabilidades cristãs, caindo assim em muitas transgressões.


Se somos ou queremos ser bons cristãos, um meio bastante eficaz de fugir dos pecados é olharmos para a vida de Jesus Cristo, primeiramente, da Virgem Maria, Mãe Imaculada e da legião dos santos que seguiram a Cristo e conseguiram a coroa eterna de glória.


A beleza da vida do cristão é a vida de Jesus, se assim não for, e não vermos beleza nesse seguimento, seremos qualquer outra coisa, menos cristãos verdadeiros. Que nós a vivamos com fé essa vida exemplar do Senhor, pois tudo irradia dessa vida perfeita. Só Ele é verdade, caminho e luz. Portanto, devemos ter cuidado com a rotina da nossa vida para não perdermos o encanto e o gosto pelas ações diárias. Procuremos viver bem o tempo presente, dádiva de Deus. A Palavra não está longe de nós. (cf. Dt 30,11-20).


Se faz necessário diariamente, redescobrir Jesus: Como? Lendo as Escrituras com o coração e sempre procurar um tempo para a oração. Quando fizermos isso, viveremos uma vida evangélica e deixaremos as atitudes más, os pecados. Ruminemos bem a Palavra de Deus. Reconhecer Jesus é sairmos do centro e nele colocar o Cristo.


A oração é outro meio de fugir ao pecado. Assim Jesus nos alerta nas Escrituras: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Mt 26,41). O próprio Senhor estava ciente das nossas fraquezas humanas. Se caíres, levante-se e reze.


Entraremos no mundo da Oração, pois é ela quem vai sempre nos guiar na caminhada para o céu. O cristão que não tem uma vida de oração não cumpre o preceito de Cristo. Jesus mesmo nos pede para rezar e nos dá exemplo disso. Tantas vezes os Evangelistas nos mostra Jesus em oração.


“Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique, e que, pelo poder que lhe deste sobre toda carne, ele dê a vida eterna a todos os que lhe deste! Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo. Eu te glorifiquei na terra, conclui a obra que me encarregaste de realizar. E agora, glorifica-me, Pai, junto de ti com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste”. (Jo 17,1-6).


Confiram inteiramente a belíssima oração sacerdotal de Jesus, onde ele demonstra todo o seu amor por aqueles que lhe seguem. A oração deve sempre está presente em todos os nossos empreendimentos, porque ela nos prepara para enfrentar as dificuldades e evitar os pecados e os seus encantos. Sabemos que sempre Jesus rezava antes de fazer um milagre ou quando ia enfrentar seus opositores. Após essa oração sacerdotal de Jesus ele se dirigiu para o Jardim das Oliveiras com seus discípulos, para sofrer a sua Paixão. (cf. Jo 18,1-40; Jo 19,1-42).


O Catecismo da Igreja assim nos ensina: “Na tradição viva da oração, cada Igreja propõe aos seus fiéis, segundo o contexto histórico, social e cultural, a linguagem da sua oração: palavras, melodias, gestos e iconografia. Compete ao Magistério ajuizar sobre a fidelidade destes caminhos de oração à Tradição da fé apostólica. E aos pastores e catequistas incumbe a tarefa de explicar o seu sentido, sempre com referência a Jesus Cristo. (CIC 2663).


Rezemos também uns pelos outros como nos ensina São Timóteo na sua primeira carta o qual nos recomenda como devemos fazer a oração. “Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens ...” (cf.1Tm 2,1-8).


O nosso Patriarca São Bento de Núrsia (480-547), nos ensina: Levantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta dizendo: “Já é hora de nos levantarmos do sono”. E, como os olhos abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz divina que clama todos os dias: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações”, e de novo: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. E que diz? – vinde meus filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor do Senhor. Correi enquanto tiverdes a luz da vida, para que as trevas da morte não vos envolvam”. (RB Prólogo, 8-13).


Portanto, tenhamos cuidado com os encantos do pecado. Por isso, São Bento nos diz no capítulo quarto da Regra: “Não abraçar as delícias”. (RB 4,12). O pecado possui um poder inebriante deixando as pessoas presas em seus laços. Porém, saibamos que os seus efeitos prazerosos não perduram por muito tempo como os efeitos das virtudes e do bem.


São Bento nos mostra com veemência nessa passagem e em tantas outras da Regra para os mosteiros o perigo dos pecados e as suas consequências em nossa vida. Aqui ele nos ensina: “Assim, é-nos proibido fazer a própria vontade, visto que nos diz a Escritura: “Afasta-te das tuas próprias vontades.” [...] “Há cominhos considerados retos pelos homens cujo fim mergulha até no fundo o inferno” ... (RB 7,19-30). Pois é! Há pecados muito prazerosos que inebria os homens em forma de bem. CUIDADO!!


Permaneçamos em Jesus e caminhemos sempre ao seu lado, e jamais erraremos o caminho certo para Deus, pois ele nos diz: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”. (Jo 15,4-17). Quem permanece dá fruto de vida eterna”. (Jo 15,16). Isso é fugir do pecado e não cairmos nos seus encantos que levam a morte. Coloquemos sempre Jesus no centro de nossa vida.

TEXTOS BÍBLICOS:


Sobre o pecado:


- Gn 3,6-20 – O encanto do pecado e a punição de Deus ao homem.

- Sl 36,2-5 – O sussurro do pecado.

- 1Jo 1,7-9 – Andar na luz.

- 1Jo 3,4-6 – Transgressão. Quem conhece a Deus não peca.

- Rm 5,12-15 – Adão e Jesus. O pecado entrou no mundo por Adão e a remissão por Jesus Cristo.

- Rm 6,12-14 – Ir contra o pecado não se sujeitando as suas paixões.

- Cl 3,5-17 – Preceitos gerais da vida cristã. Ir contra o pecado.

- Gl 5,19-26 – As obras da carne e os frutos do Espírito.

- 2Cor 5,21 – Cristo homem. Deus o fez pecado por nossa causa.

- Tg 1,13-15 – Sobre a tentação – Deus não tenta a ninguém. Cada qual é provado pela sua própria concupiscência que o arrasta e seduz.


REFERÊNCIAS


BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.


CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 3ª. ed. / Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993.


ENOUT, Evangelista João. A Regra de São Bento. Latim-Português. Tradução D. João Evangelista Enout, O.S.B; Rio de Janeiro: LUMEM CHRIST, 1992.


JONE-FOX, Heriberto. Roberto. Compêndio da Moral Católica. Pe. Heriberto Jone O.M Cap. / [traduzido da 10ª edição original e adaptado ao Código Civil Brasileiro bem como às prescrições do Concílio Plenário pelo Pe. Roberto Fox SJ]. – Porto Alegre: Edições A Nação, 1943.


RELATOS DE UM PEREGRINO RUSSO. Coleção: “A oração dos pobres” Edição Paulinas – São Paulo, 1985.

Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9)


sexta-feira, 7 de julho de 2023

DIA 07 DE JULHO, INÍCIO DO TRÍDUO EM HONRA DE NOSSO PAI SÃO BENTO, (480-547).

 

Segundo o Ritual Monástico – n. 265, no dia 07 de julho, damos início ao Tríduo em honra do nosso Santo Patriarca São Bento de Núrsia, abade.

Nem todos os mosteiros beneditinos fazem a celebração do tríduo a São Bento, pois, os monges fazem em particular, preparando-se assim, para a sua solenidade, a qual é celebrada no dia 11 de julho.

Não só os monges beneditinos celebram São Bento, mas várias outras congregações, localidades, paróquias, capelas, bem como várias instituições a ele dedicadas, que trazem a sua espiritualidade.

São Bento é muito amado e cultuado pelo mundo inteiro. No dia de sua solenidade vemos sempre as igrejas repleta de féis, os quais vem agradecer a Deus as bênçãos recebidas pela intercessão do grande Patriarca.

Portanto, também agradecendo a Deus pelos muitos benefícios recebidos ao longo de minha caminhada, pelos rogos de Nosso Pai São Bento, e também por pertencer a sua Santa Ordem, como monge, compus esse breve e simples roteiro de orações, para assim fortalecer a cada dia, minha fé em Deus, e poder venerar aquele que me ensina e protege, e também aos meus confrades espalhados pelo mundo. Pois, São Bento nos mostra e nos faz amar os caminhos do Senhor nos claustros do mosteiro.


Mosteiro de São Bento da Bahia

Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B

Salvador, Bahia – 07 de julho de 2023. 

Ut in omnibus glorificetur Deus (RB 57,9)

Para que em tudo seja Deus glorificado.

 

DEVOÇÃO PARTICULAR AO NOSSO PATRIARCA SÃO BENTO.

PARA PEDIR A INTERCESSÃO E PROTEÇÃO

DE NOSSO PAI SÃO BENTO.

Rezar nas terças-feiras que é consagrada à devoção do

Nosso Patriarca São Bento.

 

+ Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

- CREDO

- PAI-NOSSO

SAUDAÇÃO A NOSSA SENHORA

1- SALVE, MARIA, FILHA DE DEUS PAI.

- Ave, Maria, Cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

- Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.

(Fazer uma prece ou pedir uma graça)

2- SALVE, MARIA, MÃE DE DEUS FILHO.

Ave, Maria, Cheia de graça, …

(Fazer uma prece ou pedir uma graça)

3- SALVE, MARIA, ESPOSA DO ESPÍRITO SANTO.

Ave, Maria, Cheia de graça, …

(Fazer uma prece ou pedir uma graça)

V/. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

R/. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

SÚPLICA A VIRGEM MARIA

PELA INTERCESSÃO DE NOSSO PAI SÃO BENTO

Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, perante os rogos do grande Patriarca São Bento, em nosso favor; concedei-nos a vossa proteção e atendei os pedidos que agora vos dirigimos. Por Cristo nosso Senhor.

JACULATÓRIA 

Nosso Pai São Bento, socorrei-nos! (10 vezes). 

Interceda por nós ó nosso Pai São Bento,

para que sejamos livres de tudo que nos afasta de Cristo.

ORAÇÃO

Ó Nosso Pai São Bento, pelas suas virtudes e por sua intercessão junto a Deus e a Virgem Maria, sejamos sempre livres das ciladas dos inimigos da nossa salvação. Por Cristo nosso Senhor.

R/. Rogai por nós ó nosso Pai São Bento, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.

V/. Bendigamos ao Senhor.

R/. Demos graças a Deus.


Composição:

Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B

Para uso particular

 

 

PROMESSAS DIVINAS FEITAS AO PATRIARCA SÃO BENTO

 

1- Que a sua Ordem subsistirá até ao fim do mundo.

 

2- Que será fidelíssima a Igreja Romana e confirmará muitas almas na fé nos últimos tempos.

 

3- Que ninguém nela morrerá sem estar na graça de Deus; e se um monge começar a viver mal e não se corrigir, será confundido ou expulso dela, ou por si mesmo deixará.

 

4- Que aquele que tiver perseguido a sua Ordem, não se arrependendo, terá a sua vida abreviada, ou acabará por morte desgraçada.

 

5- Que todos aqueles que amarem sua Ordem terão um bom fim.

 

(Extraído do livro “Lignum vitae”)

Com aprovação Eclesiástica

 

ORAÇÃO À SÃO BENTO

 

Ó Glorioso Patriarca dos monges, São Bento, amado do Senhor, poderoso em milagres, pai bondoso para com todos os que te invocam. Nós te pedimos que intercedas por nós diante do trono do Senhor. Estende tua proteção sobre nós em todo tempo. Livra-nos de todos os males do corpo e da alma. Defende-nos, e a todos os que nos são caros, do poder dos inimigos infernais. Roga por nós a fim de que vivendo segundo a lei do Senhor, mereçamos ser achados dignos de recebermos a eterna recompensa. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

 

 


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

O VALOR DE UMA AMIZADE VERDADEIRA

 

Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B

(Monge Beneditino)

Salvador, Bahia – 1º de agosto de 2022


Uma Amizade verdadeira não tem preço. Pois, um bom e verdadeiro Amigo é um tesouro incalculável. (Dom Gilvan Francisco, O.S.B).

 

Em oferecer uma pequena flor, num toque, num olhar, numa simples palavra, podemos muito bem perceber o grau de carinho ou de amizade do outro ser. (Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B).

N o nosso mundo atual com a Era Digital e a globalização, muitos conceitos importantíssimos à vida humana enfraqueceram ou se tornaram obsoletos ou até mesmo se perderam. Por isso, devemos de vez em quando voltarmos a analisar estes conceitos relativos a nossa sobrevivência na terra. A Amizade é um desses. Fala-se muito de amizade, mas nem todos sabem o que é verdadeiramente uma Amizade verdadeira.


O assunto sobre a Amizade é muito vasto. Aqui ponho algumas partes da minha tese do curso de Licenciatura em Filosofia – 2009-2011, que teve como tema: AMIZADE E FELICIDADE SEGUNDO ARISTÓTELES. Desejando contribuir um pouco no esclarecimento desse conceito tão importante para a nossa sociedade. Falarei também não só na parte filosófica, mas também pincelarei num cunho teológico, porém muito resumido devido a vastidão do assunto. Aos interessados, poderão se aprofundar na linha desejada. Aristóteles na sua obra Ética a Nicômaco, escreveu dois livros nos quais ele discorre sobre a natureza da Amizade. São eles: Os livros VIII e IX.


Entre milhares de textos que foram escritos pelos séculos, de uma multidão de frases e demonstrações de afetos de todos os tipos, os quais as pessoas constantemente dirigem uma para com as outras, deixo aqui uma pequena contribuição para os meus leitores, nesse pequeno e simples texto, alguns conceitos sobre este assunto, que muito aprecio. Isto é, a AMIZADE VERDADEIRA e o seu valor no convívio social. Pois, a Amizade verdadeira para mim é uma das coisas mais importantes e sérias e creio que também para a vida de todos aqueles que se encontram em sociedade. A Amizade verdadeira é reciprocidade; e nela não pode haver nenhum vício que possa prejudicar o outro a quem se dirige o seu respeito, amor, afeto e outros bens que sustentam esse vínculo amistoso entre duas pessoas. Pois, só assim, ela se sustentará e não se acabará.


Chamar a outro de amigo, isso não quer dizer que sejam verdadeiros amigos. O coleguismo ou o companheirismo pode estar na relação de Amizade, mas apenas essas relações não se configura numa Amizade verdadeira. Tem uma frase que diz: Tenho muitos conhecidos, mas poucos Amigos.” Isso é a pura verdade. Não confundamos a Amizade com formas de companheirismos ou coleguismos. Pois, ela está muito além dessas formas de relação.


A plataforma do Facebook, sabendo bem das vantagens e o valor do conceito de amizade, colocou nesta o termo amigo, para que com isso tivesse mais resultados de aceitação e procura entre as pessoas nas suas contas. Porém, o conceito de uma Amizade verdadeira ficou muito prejudicado, porque as pessoas não veem mais o sentido verdadeiro de uma amizade em sua origem, seja ela filosófica ou teológica, e por causa desse, e outros fatores sociais, ela tornou-se uma coisa comum e desgastada. Digo sempre que a Amizade nunca foi e jamais será uma coisa comum. Se estudarmos os antigos veremos bem como eles falaram e trataram o conceito de Amizade, seja entre os seres humanos ou os animais. Para mostrar um pouco sobre isso, darei pinceladas com algumas passagens filosóficas e teológicas, para assim tentar esclarecer um pouco o valor de uma Amizade verdadeira.


Pois bem! Certo dia discorrendo vários assuntos durante uma discussão, o grande filósofo Aristóteles (*385 a.C +322 a.C) se vê obrigado a falar sobre a Amizade. Seria esta uma virtude? Ou implicaria uma virtude? Para o homem grego, a virtude é um valor moral recebido na sua formação como cidadão da Polis. A Amizade está relacionada à existência em toda a sua dimensão racional e irracional, a saber: do ser humano e dos animais, visto que, sem amigos todos os outros bens humanos e, materiais, possuído pelos indivíduos não promoveriam ou proporcionariam satisfação.


Logo, Aristóteles aponta a Amizade como uma necessidade intrínseca ligada à vida, às realidades humanas. Porque, sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens.” (Ética a Nicômaco, VIII 1, 1155a; p. 379).


O que podemos observar é que os conceitos de Amizade e Felicidade estão por vezes correlacionados seja na linha direta aristotélica, a saber, seus escritos sobre o assunto, discursos e aforismos, seja na dos outros expoentes deste conceito, tais como Platão, Sócrates, Sêneca, etc.


Se dissermos que a Amizade passa através da relação entre pessoas que se amam e se respeitam mutuamente, a Felicidade é conseqüência, também gerada, a partir, mesmo dessa experiência do outro. Para Aristóteles tudo o que se busca é encontrado de certa maneira. Você busca para si uma Amizade que te fará feliz e que contribua de alguma maneira te acrescentando algo mais. Não se busca a si mesmo no outro, nem se procura tirar proveito do que o outro tem de bom, mas tudo acontece como que por relação e participação, por antonomásia. Nós nos completamos de certa maneira e enxergarmos o amigo como um espelho de nós mesmos.


O conceito que sempre segui é o do filósofo Aristóteles. A meu ver este é o conceito mais belo de Amizade que também está ligado ao conceito da Felicidade. O filósofo nos diz que só existe Amizade entre iguais e suas espécies. Para ele existem várias formas de amizade, porém estas são pautadas em três tipos. Espécies desiguais são espécies diferentes, o que Aristóteles, quer dizer, é, para que a amizade seja igual é preciso haver semelhança com a espécie. Espécies iguais, a saber, os homens entre si e os animais com os da sua raça e espécie.


As espécies se atraem diz o filósofo. Ou seja, se esta é uma afinidade, logo as pessoas boas estão propensas a buscar amigos bons, ou melhor, buscar nos seus semelhantes algo que elas possuem em si mesmas. Aristóteles nos mostra nos seus aforismos que “igual com igual” ou os “semelhantes se atraem”. “Semelhante busca o semelhante”. O filósofo descreve três tipos de amizade. São elas: 1) A de utilidade, (ÚTIL). 2) A boa, (VERDADEIRA). 3) A AGRADÁVEL ou PRAZEROSA. No entanto, na Amizade verdadeira está também a utilidade, o agradável e o prazer.


Por fim, a Amizade é verdadeira quando é desinteressada. E o grupo dos pitagóricos ainda intensifica estes conceitos dando suas contribuições também já um pouco diferenciadas, ampliando o horizonte. Eles dizem que a Amizade é: “um sentimento forte, não comum, que não se dá a todos ou não se recebe de todos, mas que liga apenas homens que tenham uma comunhão de sentimentos”. (HYPNOS: Da Amizade, São Paulo: EDUC; PAULUS; TRIOM, 1996; n. 22/2009; p.3).


Tendo explanado um pouco esse conceito na linha filosófica, entremos na linha teológica e outros conceitos básicos atuais.


Visando um conceito teológico, vejamos algumas narrações bastante importante nas sagradas Escrituras, que muitas vezes nos passam despercebidas e que falam sobre o conceito de uma Amizade verdadeira.


Citando a primeira delas, leiamos com atenção o capítulo 11º do Evangelho segundo São João, que narra a Amizade de Jesus com Marta, Maria e Lázaro, bem como a tristeza e choro de Jesus pela perda do seu amigo Lázaro o qual ele o ressuscitou da morte. “Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta. [...]. As duas irmãs mandaram, então, dizer a Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. [...]. Ora, Jesus amava Marta e sua irmã e Lázaro. [...]. “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo”. [...]. “Jesus, porém, falava de sua morte e eles julgaram que falasse do repouso do sono. Então, Jesus lhes falou claramente: “Lázaro morreu. Por vossa causa alegro-me de não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos para junto dele!”. Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias. [...]. “Onde o colocastes?” responderam-lhe: “Senhor, vem e vê!” Jesus chorou. Diziam, então os judeus “vede como ele o amava!” (Cf. Jo 11,1-44). Essa é uma passagem muito importante diante do conceito de Amizade, pois vemos Jesus se comover por três vezes diante da morte do seu amigo.


Outra passagem muito bela é aquela ocorrida durante a prisão de Jesus quando o Senhor sabendo bem quem era Judas Iscariotes, e os planos que este possuía, ainda o chama de Amigo. Assim nos narra o Evangelista São Mateus: “E enquanto ainda falava, eis que veio judas, um dos Doze acompanhado de grande multidão com espadas e paus, da parte dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos do povo. Seu traidor dera-lhes um sinal, dizendo: “É aquele que eu beijar; prendei-o”. E logo, aproximando de Jesus, disse: “Salve Rabi!” e o beijou. Jesus respondeu-lhe: Amigo, para que estás aqui?” Então, avançando, deitaram a mão em Jesus e o prenderam.” (Cf. Mt 26,47-50; Mc 14,43-52; Lc 22,47-53; Jo 18,2-11). O interessante é que só São Mateus narra que Jesus chamou o seu traidor Judas, de amigo, ou seja, mostrando assim um conceito de Amor e verdadeira Amizade para com ele e os seus discípulos. Portanto, essa pergunta: Amigo, para que estás aqui? tem um grande significado teológico e  também filosófico. Jesus amava incondicionalmente os seus Amigos. Por isso, não pode haver dúvidas e desconfianças entre os amigos, pois, se tens dúvidas de uma pessoa, não és amigo dela. Esse é mais um conceito da Amizade que poucos se atentam. Na Amizade verdadeira não há lugar para dúvidas em relação a pessoa do outro. Ou és amigo ou não és.


Outra bela forma de Amizade verdadeira podemos ver entre o jovem Davi e Jônatas filho primogênito do rei Saul. “Aconteceu que terminado ele de falar com Saul, Jônatas apegou-se a Davi. E Jônatas começou a amá-lo como a si mesmo...” (1Sm 18,1-5). Em outra passagem Jônatas ajuda Davi a livrar-se de seu pai Saul que intentava matá-lo. “Então Davi fugiu das celas de Ramá e veio ter com Jônatas, dizendo: “Que fiz eu? Qual a minha falta? Que crime cometi contra teu pai, para que procure tirar-me a vida?” ...” (Cf. 1Sm 20,1-42). Termos verdadeiros amigos é um bálsamo para a vida. Porque uma Amizade verdadeira não tem preço. Pois, um bom Amigo é um tesouro incalculável. Outra coisa que eu sempre digo aos meus conhecidos é que: quem tem muitos amigos não tem nenhum, porque com tantos, não saberão distinguir o que seja uma Amizade verdadeira.


O belo livro do Eclesiástico no seu capítulo sexto, versículos cinco a dezessete faz um belo elogio a Amizade. Amigo fiel é um poderoso refúgio, quem o descobriu, descobriu um tesouro.” (Eclo 6, 14).


Como foi dito anteriormente que numa Amizade não poderá haver dúvidas, desconfianças e enganações, portanto, ficará mais fácil saber quem são seus verdadeiros Amigos. Se você ama verdadeiramente uma pessoa, jamais minta para ela, pois a mentira é a pior forma de traição que você poderá cometer contra quem ama. Ser sincero e verdadeiro é uma forma de amor e nos torna dignos, fortes e credíveis a todos. Isso servirá para ambas as partes.


O Sábio filósofo Platão (*428/427 a.C +348/347 a.C) nos diz: Onde não há igualdade, a Amizade não perdura.” No conceito do filósofo, eu busco no Amigo a semelhança perdurando assim a Amizade. Ambos se completam.


O escritor Gerardo Castillo diz no seu livro: Educar para a amizade, que: “Estamos assistindo, em conseqüência, a um processo de desvalorização do conceito de amizade. As pessoas pensam que, para terem muitos amigos, têm que dar razão aos outros sistematicamente, usar de bajulação e incentivar a vaidade alheia.” (CASTILLO, 1999; p.7). Isso é o que mais vemos hoje nas redes sociais. Eu sou seu amigo enquanto falo tudo o que você quer ouvir, mas quando ouvem algo que deveriam ouvir, logo a amizade acaba. Não quero dizer aqui que devemos atirar aquilo que achamos ser a verdade, para todos os lados. Não. Devemos estar atentos às situações de cada indivíduo e outros aspectos sociais convenientes para o esclarecimento do assunto que será tratado entre ambos. Como escrevi em outro texto, devemos ter muito cuidado com a nossa língua, porque isso poderá acarretar muitos problemas sociais.


Entre os verdadeiros Amigos há uma forma de atenção diferenciada que supera qualquer barreira. Se não existir esse sentimento atencioso, creia que aí não existe a verdadeira Amizade, o que pode existir é um coleguismo, companheirismo ou são apenas conhecidos que se dão muito bem nas coisas comuns da vida; o que é diferente da Amizade verdadeira. Duas frases de marketing que me chamaram bastante a atenção a esse respeito, diz: Tem gente que gosta da sua utilidade, não de você. Quando você deixa de ser útil não serve mais.” Aqui podemos perceber claramente aquele conceito aristotélico da amizade de utilidade. A segunda frase nos diz:Alguns falam com você quando sobra um tempo e alguns arrumam tempo para falar com você. Aprenda a diferença!”  (@marketingdeninja). Pois bem, quem fala que não tem tempo e passa semanas, meses sem uma comunicação com aqueles que chamam de amigos, isso é apenas uma desculpa. Não se enganem! Quando são verdadeiros Amigos, sempre se arruma um tempinho para eles. Se isso não acontece com aquele que diz ser teu amigo, é porque você não é tão importante assim para ele. Saiba disso. Eu, mesmo, com os muitos trabalhos que possuo, arrumo sempre um tempinho para os meus amigos. Mas, ao perceber que alguns não dão valor a nossa amizade, ou não desejam criar vínculo, então eu permaneço na minha e me comunico apenas com aqueles que se comunicam comigo. Creio que cada um já traçou a sua forma de comunicação o que é bastante importante.


Muito importante para se evitar chateações ou até mesmo desavenças numa relação entre pessoas, sabermos o que é ser colegas, companheiros, o que é diferente de uma Amizade verdadeira.


Os colegas, mesmo estando sempre perto de você, eles se distanciam e não criam vínculos com você, pois eles te procuram quando não estão bem, você muitas vezes o ajuda mais depois ele esquece da sua ação; desaparece e aparece conforme os seus interesses e muitas vezes não quer saber de você. Claro que isso não é via de regra para todos. Lembremos que aqui estamos falando sobre a Amizade verdadeira.


Quanto aos amigos, é aquele que te dá a mão em todos os momentos da vida, principalmente nas horas mais difíceis. Pois são nestes momentos de dificuldades que você saberá com certeza quem são os seus verdadeiros Amigos. Como diz o provérbio, os homens não podem conhecer-se mutuamente enquanto não houverem “provado sal juntos. (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, VIII n. 3. 25). No livro de Jó há uma bela passagem que mostra muito bem o que é ser Amigo verdadeiro. No sofrimento de Jó os seus amigos fica com ele na sua grande aflição. Três amigos de Jó – Elifaz de Temã, Badad de Suás e Sofar de Naamat – ao inteirar-se da desgraça que havia sofrido, partiram de sua terra e reuniram-se para ir compartilhar sua dor e consolá-lo.... (Cf. 2,11-13).  Isso sim é ser verdadeiros Amigos. Quando tudo vem contra você, eles cuidam, amparam, lhe seguram para você não permanecer prostrado no sofrimento e cuidam do seu coração. O Amigo verdadeiro é aquele que entende e sabe o verdadeiro significado do amor. Por isso dizemos ter ele, um preço incalculável. “Quem o encontra, encontra um tesouro.” (Eclo 6, 14).


Finalizo este pequeno texto com uma bela frase do grande filósofo Aristóteles sobre a Amizade verdadeira. Assim ele nos diz: “Acresce que uma amizade dessa espécie (verdadeira) exige tempo e familiaridade. Como diz o provérbio, os homens não podem conhecer-se mutuamente enquanto não houverem “provado sal juntos” e tampouco podem aceitar um ao outro como amigos enquanto cada um não parecer estimável ao outro e este não depositar confiança nele. (...); porque o desejo da amizade pode surgir depressa, mas a amizade não.” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco).


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REFERÊNCIAS


ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Tradução de L. Vallandro e G. Bornheim, São Paulo: Abril Cultural, 1973.


BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.


CASTILLO, Gerardo. Educar para a amizade: um manual para pais e professores; tradução de Roberto Vidal da Silva Martins. - São Paulo: Quadrante, 1999.


DOM GILVAN FRANCISCO DOS SANTOS, OSB. Amizade e Felicidade segundo Aristóteles. Trabalho monográfico apresentado ao Curso de Licenciatura em Filosofia, da Faculdade São Bento da Bahia, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciatura em Filosofia. Orientador: Prof. Pe. Jose de Maria Vazquez – Salvador – Bahia, 2011.


HYPNOS: Da Amizade, revista do centro de estudos da Antiguidade Greco-Romano (CEAG). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ano I, n. 1(1996) São Paulo: EDUC; PAULUS; TRIOM, 1996; n.22/2009; p.3.


Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9)


sábado, 16 de julho de 2022

O PODER DA LÍNGUA E SUAS IMPLICAÇÕES EM NOSSA VIDA, NA SOCIEDADE E NO MUNDO.

 

Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B

(Monge Beneditino)

Salvador, Bahia – 16 de julho de 2022


Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas.” (Mt 15,10

A língua é um membro pequeno do nosso corpo, porém, ela tem o poder de trazer grandes bens, mas também uma multidão de males para nós, a nossa sociedade e para o mundo. Portanto, fiquemos atentos em relação a esse órgão importante, no entanto, perigoso. Porque com o mal uso dele, podemos acarretar uma série de problemas graves como: mau relacionamentos entre familiares, amigos, males sociais, guerras, mortes, intrigas etc. E pasmem! A nossa língua mata tanto quanto uma bala.


Quantos males em nossa humanidade poderíamos ter evitado se tivéssemos guardado a nossa língua em nossa boca, não pronunciando palavras alguma em certas situações da nossa vida. É por isso que as Escrituras tanto nos adverte sobre este membro tão importante para o corpo, e para as nossas relações humanas. Um órgão salvador de vidas, mas, também mortífero. Daí o grande cuidado que devemos ter em relação a nossa língua.


O Patriarca São Bento de Núrsia, abade (480-547), no capítulo quarto de sua Regra, adverte os seus monges sobre o perigo desse membro, dizendo: “Não levantar falso testemunho.” (RB 4,7), e mais adiante ele praticamente explica como se deve proceder quanto à tentação da língua quando diz: “Guardar sua boca da palavra má ou perversa. Não gostar de falar muito. Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso.” (RB 4,51-53). São Bento sabia muito bem quais eram os riscos que os seus monges estavam sujeitos a caírem.


As Sagradas Escrituras nos mostra muito bem, em inúmeras das suas passagens, este cuidado que devemos possuir em relação a este pequeno órgão do nosso corpo.


A Carta de São Tiago vem nos alertar contra o pecado da cólera. O Apóstolo assim nos adverte: “Isso podeis saber com certeza, meus amados irmãos. Que cada um esteja pronto para ouvir, mas lento para falar e lento para encolerizar-se; pois a cólera do homem não é capaz de cumprir a justiça de Deus. [...]. Se alguém pensar ser religioso, mas não refreia a língua, antes se engana a si mesmo, saiba que sua religião é vã.” (Tg 1, 19b-20.26).


Com isso, São Tiago não nos manda ficarmos sempre calados ou que sejamos omissos às coisas que acontecerem ao nosso redor. O pronto para ouvir e o lento para falar, que ele nos alerta, creio que seja em relação ao bom uso da razão para o uso adequado da palavra certa, no momento certo. Nem sempre o falar pouco é sinônimo de virtude. O pecado da omissão pode se esconder sob a forma do silêncio. Pode ser também medo, fraqueza de caráter e omissão o que pode acarretar em curto ou longo prazo, sérios problemas para uma comunidade.


Fiquemos atentos e nos apoiemos nas palavras inspiradas do Apóstolo São Tiago, que em outro versículo da sua Carta nos ensina contra a intemperança da língua. Pois, através dela podemos fazer grandes coisas, boas e más. Escutemos mais uma vez o Apóstolo: “Irmãos, não queirais todos ser mestres, pois sabeis que estamos sujeitos a mais severo julgamento, porque todos tropeçamos frequentemente. Aquele que não peca no falar é realmente um homem perfeito, capaz de refrear todo o corpo. Quando pomos freio na boca dos cavalos, a fim de que nos obedeçam, conseguimos dirigir todo o seu corpo. Notai que também os navios, por maiores que sejam, e impelidos por ventos impetuosos, são, entretanto, conduzidos por um pequeno leme para onde quer que a vontade do timoneiro os dirija. Assim também a língua, embora seja pequeno membro do corpo, se jacta de grandes feitos! Notai como pequeno fogo incendeia a floresta imensa. Ora, também a língua é fogo. Como o mundo do mal, a língua é posta entre os nossos membros maculando o corpo inteiro e pondo em chamas o ciclo da criação, inflamada como é pela geena. Com efeito, toda espécie de feras, de aves, de répteis e de animais marinhos é domada e tem sido domada pela espécie humana. Mas a língua, ninguém consegue domá-la: é mal irrequieto e está cheia de veneno mortífero. Com ela bendizemos ao Senhor, nosso Pai, e com ela maldizemos os homens feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca provêm bênção e maldição. Ora, tal não deve acontecer, meus irmãos. Porventura uma fonte jorra, pelo mesmo olheiro, água doce e água salobra? Porventura, meus irmãos, pode a figueira produzir azeitonas ou a videira produzir figos? Assim, a fonte de água salgada não pode produzir água doce.” (Tg 3, 1-12).


Muitas vezes não percebemos a gravidade de certos atos nossos que vem pela nossa língua. É muito forte essa exortação do Apóstolo, quando nos diz que: Mas a língua, ninguém consegue domá-la: é mal irrequieto e está cheia de veneno mortífero. Com ela bendizemos ao Senhor, nosso Pai, e com ela maldizemos os homens feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca provêm bênção e maldição.” (Tg 3,8-10). E, mais adiante no capítulo quarto, ele nos adverte novamente. Não faleis mal uns dos outros, irmãos. Aquele que fala mal de um irmão ou julga o seu irmão, fala mal da Lei e julga a Lei. Ora, se julgas a Lei, já não praticas a Lei, mas te fazes juiz da Lei.” (Tg 4,11). Um bom estudo da Carta de São Tiago nos esclareceria muitas coisas em relação a nossa vivência em sociedade. E refrearíamos mais a nossa língua em ocasiões desnecessárias da vida.


Vejamos agora uma passagem livro do Eclesiástico que nos mostra muitas passagens em relação ao falar e ao calar. “Aquele que refreia sua língua viverá sem disputas, aquele que odeia o palavreado escapa do mal. Não repitas jamais um boato e não serás em nada diminuído. Não contes nada de um amigo nem de um inimigo, e, se não incorres em culpa, nada reveles. Pois o que ouviu não confiará mais em ti e chegado o momento, te odiará. Ouviste alguma coisa? Sê como túmulo.” (Eclo 19,6-10).


E ainda diz: “Faze para as tuas palavras balança e peso; para a tua boca, porta e ferrolho. Vela para não dares passo em falso com a língua, cairias diante daquele que te espreita.” (Eclo 28, 29).


Muitas outras passagens das Sagradas Escrituras, tanto no Antigo Testamento como no Novo, nos lembrarão sobre este órgão do nosso corpo, e a sua importância seja em relação ao falar ou no calar. Vejamos algumas delas nos dois Testamentos.


Antigo Testamento: Cf. Eclo 20,30-31; Ecl 3,7; Pr 4,24; Jn 2,3-10 clamor; Sl 5; Sl 9; Sl 11; Sl 16; Sl 35,28 – a língua que medita a justiça de Deus; Sl 36,4 – quanto a maldade do ímpio; Sl 38; Sl 49; Sl 56; Sl 63 – sobre a língua afiada; Sl 72; Sl 77; Sl 91 – anúncio das maravilhas de Deus; Sl 119; Sl 139; Sl 146 – canta a bondade de Deus. Aqui são apenas umas poucas citações no que diz respeito a nossa língua e como devemos usá-la. O Antigo Testamento tem muitos outros livros que abordam este assunto.


No Novo Testamento podemos mostrar certas passagens muito necessárias para a nossa caminhada em sociedade. Já tendo visto acima algumas passagens da Carta de São Tiago, confiramos mais uma vez outras passagens do Testamento. Cf. Mt 5,9 – a promoção da paz; Mt 7,1 – não julgar a ninguém; Mt 12,33-37; Mt 15,10; Mc 5,19 – anúncio das misericórdias de Deus; Mc 7,35-37; Mc 9, 34 – sobre o silêncio; Ef 4,25, etc.


Muitos santos da Igreja, guiados por estas e muitas outras passagens das Escrituras, tiveram revelações e iluminações do Espírito Santo a respeito das vantagens e desvantagens do falar e do calar. Como exemplo cito aqui algumas passagens do belo e importante Diário de Santa Maria Faustina Kowalska (1905-1938) que muito foi agraciada por Jesus Cristo em relação a língua e suas implicações na vida em sociedade. Cf. Diário n. 92 – uma prece após a sagrada comunhão para a cura da língua; Diário n. 163 – devemos calar diante dos sofrimentos; Diário n. 375 – quanto a abnegação da nossa língua; Diário n. 896 – sempre fugir da murmuração; Diário n. 1760 – fugir das murmurações como de uma peste.


Fiquemos muito atentos a nossa língua, pois ela mata tanto quanto uma bala no revolver a ser disparada contra uma pessoa. Mas, também é um bálsamo para os que estão sofrendo e precisando de uma palavra amiga, encorajadora, estimuladora, podendo assim salvar vidas. Apenas sejamos atentos as ocasiões quando formos usar este órgão tão importante do nosso corpo. Se seguirmos os sábios conselhos das Sagradas Escrituras e dos santos, que já venceram suas batalhas, muitos feitos bons poderemos fazer para nós, nosso próximo e para o mundo, através da nossa língua.


REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.


ENOUT, Evangelista João. A Regra de São Bento. Latim-Português. Tradução D. João Evangelista Enout, O.S.B; Rio de Janeiro: LUMEM CHRIST, 1992.


KOWALSKA, Faustina Santa. Diário: da serva de Deus Irmã Faustina Kowalska Professa perpétua da Congregação de N. S. da Misericórdia. 1ª Edição. [Tradução: Prof. Mariano Kawka]. – Curitiba, Paraná – Congregação dos Padres Marianos, 1982. 

Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9)