quinta-feira, 7 de maio de 2020

COVID-19 UM CONVITE A OLHARMOS PARA DENTRO DE NÓS

Após a pandemia do covid-19 o mundo não será mais o mesmo. 

Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 06 de maio de 2020

Aquele que durante ou após a pandemia do covid-19 não se solidarizar diante de tantas perdas e sofrimentos do seu semelhante, continuando na sua vida de antes e não mudar de pensamento tornando-se insensível, este pode ser qualquer coisa, menos um ser humano. Creio que após todo esse mal, o mundo será outro, e muitas coisas serão renovadas e vistas com mais clareza do que antes. Portanto, não deixemos passar essa oportunidade. (Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B)

Diante dessa situação difícil que o mundo está passando nestes meses de pandemia do covid-19 (coronavírus), ouço muitos dizerem que esse mal é um castigo de Deus. Não é, e jamais seria! Porque o bom Deus não castiga os seus filhos desse modo matando-os em massa como um Deus vingador, irado contra o seu povo. Deus é puro amor e misericórdia! Assim nos mostra São João em seu Evangelho “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; quem não crê já está julgado, porque não creu no nome do Filho único de Deus” (Jo 3,16-18). No entanto, ele pode permitir certos acontecimentos na nossa vida e na natureza para nos ensinar certas coisas que não percebemos de imediato devido a nossa deficiência em entender a sua vontade, semelhante aos nossos pais em relação à nossa educação. É bem comum que na hora da correção, devido a nossa fraqueza e medo, que não percebamos o grande bem futuro que receberemos se agirmos conforme a vontade de quem nos corrige. Por isso, nestes dias de pandemia e de muitos sofrimentos, precisamos mais urgentemente pararmos e pensarmos com mais nitidez em nossa vida e na do próximo, tentando ajudá-lo conforme as nossas forças e possibilidades. Seja essa ajuda espiritual ou material. Nestes dias as pessoas estão precisando mais que nunca de conselhos, por ficarem recolhidas em suas residências, o que era muito difícil de acontecer em momentos aparentemente calmos, antes desse terrível mal nos atingir e por esta razão, estão se encontrando consigo mesmos, sendo que muitos não estão sabendo lhe dar com essa situação, ou seja, do encontrar-se consigo mesmo. Estão desenvolvendo vários e grandes problemas psicológicos, talvez por não terem dado tanta importância a esse viés tão necessário da vida humana e trabalhado esse lado do “só consigo mesmo”, como sempre nos ensinaram os antigos. Esse “só consigo mesmo” de imediato parece coisa não necessária à vida ou até egoísmo, mas isso é extremamente necessário para nos conhecermos e ajudarmos o próximo. Porque se eu não me conheço ou não me aceito, como posso conhecer e aceitar o outro! Daí a necessidade do entrar em si para descobrir novas formas de ajuda. Um dos males hodierno da humanidade é o não parar um pouco para descansar e se reabastecer. Quem muito corre, logo cansa.

Sim, tenho a plena nitidez dos grandes problemas sociais que todos nós enfrentamos no nosso país. O descaso com a saúde pública e bem pior, a crise política e democrática que está bem à nossa frente. O que é mais triste é sabermos que nem todos têm o direito de se proteger no isolamento domiciliar solicitado pelos líderes políticos e religiosos, devido à grande pobreza, não tendo estes um lugar digno para habitarem. Pensemos naqueles que vivem morando nas ruas praticamente abandonados ao seu próprio destino. Os que vivem amontoados em lugares minúsculos, sobrevivendo em cubículos insalubre, indignos dum ser humano nas periferias das cidades ou mesmo em seus centros, sem as mínimas condições de autoproteção e sem saneamento básico. Vivemos numa complexidade enorme diante dessa quarentena. Sabemos que estes problemas são uma cadeia de acontecimentos que estão em vertigem no nosso país, bem como em outros países, a saber: as crises social, sanitária e ambiental. Se não houver um engajamento emergencial mais perene nestes setores, viveremos eternamente nesse caos. A vida deve ser promovida porque ela é o grande dom de Deus para nós.

Porém, muitos enganam-se em querer ajudar nesses problemas citados, pensando que a crítica resolve coisas. A primeira coisa a qual devemos pensar é que não precisamos viver nos atacando, criticando instituições e setores, pois isso é tolice e pura arrogância; o que devemos fazer é procurar meios de ajudar no que pudermos fazer. Se cada um fizesse a sua parte o nosso mundo seria bem melhor. Devemos fazer um esforço coletivo de solidariedade para com todos. Com isso, sim, salvaremos muitas vidas e o mundo terá um novo rosto.

Para aqueles que tem fé em Deus, estes tem os olhos na esperança mesmo diante das perdas, da pobreza, diante desse mal que afeta o mundo todo, e dos muitos outros sofrimentos que suportamos. Saibamos todos que após o maior sofrimento vem também a maior alegria pela vitória. Quem experimenta a dor torna-se um forte guerreiro como nos ensina São Tiago na sua Epístola: “Bem-aventurado o homem que suporta com paciência a provação! Porque uma vez provado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1,12). E ainda o mesmo Apóstolo nos encoraja a suplicar a confiança dizendo: “Se alguém dentre vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a concede generosamente a todos, sem recriminações, e ela ser-lhe-á dada, contanto que peça com fé, sem duvidar, porque aquele que duvida é semelhante às ondas do mar, impelidas e agitadas pelo vento. Não pense tal pessoa que receberá alguma coisa do Senhor, dúbio e inconstante como é em tudo que faz” (Tg 1,5). A fé, a esperança, a confiança e a perseverança nos bons atos salvarão o mundo. Cito aqui também um pensamento da serva de Deus Elisabeth Leseur, que nos diz: “Por conseguinte “nada” é indiferente a nossa vida moral; o mais pequeno dever descuidado tem consequências que não suspeitamos” (LESEUR, 1958). Ou seja, devemos está sempre alerta em relação a nossa ação, seja ela moral ou espiritual. Ela prossegue no seu ensinamento: “Por isso é preciso dispor a nossa vida de tal forma, que nem um dever, grande ou pequeno, seja sacrificado; e, sem desprezar o fim almejado, pôr logo mãos à obra para atingi-lo. E continua: “O importante não é conseguir imediatamente, mas começar e continuar” (LESEUR, Elisabeth. A vida espiritual – Pequenos  tratados de vida interior, 1958, p. 176-177).

Sabemos que na história da humanidade em tempos antigos e modernos epidemias ceifaram muitas vidas deixando um rastro de destruição na vida de muitos e no meio ambiente. Não desistamos da esperança! O desespero só nos leva à irracionalidade e à desordem. Pensemos bem que um pouco de silêncio e recolhimento fará muito bem a todos. “As agitações, amarguras, tudo o que vem de fora ou de nosso ser sensível, acalmam-se logo, quando fazemos um pouco de silêncio em nós mesmos e retomamos fôlego junto de Deus” (LESEUR, Elisabeth. Jornal e pensamentos de cada dia. RJ, 1954, p. 242).

Em relação à pandemia que estamos passando, sejamos muito cautelosos no que lemos, ouvimos e partilhamos em nossas redes sociais, bem como devemos nos portar diante de tão grande mal. E que a insensibilidade não encontre lugar algum em nosso coração. Sejamos solidários. Não poderia deixar de citar aqui esta bela exortação da Epístola de São Tiago que nos esclarece de forma iluminada pelo Espírito Santo, palavras acertadas para o presente momento de dor e muito medo que a humanidade atravessa. Cuidemos de ajudar as pessoas e não espalhar mais medo e pânico. Apoiemo-nos nas palavras inspiradas do Apóstolo São Tiago que nos ensina contra a intemperança da língua pela qual podemos fazer grandes coisas, boas e más. Escutemos o Apóstolo: “Irmãos, não queirais todos ser mestres, pois sabeis que estamos sujeitos a mais severo julgamento, porque todos tropeçamos frequentemente. Aquele que não peca no falar é realmente um homem perfeito, capaz de refrear todo o corpo. Quando pomos freio na boca dos cavalos, a fim de que nos obedeçam, conseguimos dirigir todo o seu corpo. Notai que também os navios, por maiores que sejam, e impelidos por ventos impetuosos, são, entretanto, conduzidos por um pequeno leme para onde quer que a vontade do timoneiro os dirija. Assim também a língua, embora seja pequeno membro do corpo, se jacta de grandes feitos! Notai como pequeno fogo incendeia a floresta imensa. Ora, também a língua é fogo. Como o mundo do mal, a língua é posta entre os nossos membros maculando o corpo inteiro e pondo em chamas o ciclo da criação, inflamada como é pela geena. Com efeito, toda espécie de feras, de aves, de répteis e de animais marinhos é domada e tem sido domada pela espécie humana. Mas a língua, ninguém consegue domá-la: é mal irrequieto e está cheia de veneno mortífero. Com ela bendizemos ao Senhor, nosso Pai, e com ela maldizemos os homens feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca provêm bênção e maldição. Ora, tal não deve acontecer, meus irmãos. Porventura uma fonte jorra, pelo mesmo olheiro, água doce e água salobra? Porventura, meus irmãos, pode a figueira produzir azeitonas ou a videira produzir figos? Assim, a fonte de água salgada não pode produzir água doce” (Tg 3, 1-12).

Pois bem, deixo a todos esta pequena reflexão diante dos grandes acontecimentos em nosso mundo tão sofrido por guerras e outros tantos meios de destruição. Aqueles que não podem ajudar materialmente, ajudem com suas orações. Todos movendo-se para a paz, ela virá sem dúvida! Para cada um peço a proteção de Deus, da Santíssima Virgem Maria dos Anjos e Santos. Tenhamos força e coragem e o mundo se renovará. 


INTERCESSÃO A NOSSA SENHORA DA GRAÇA CONTRA O CORONAVÍRUS

  Ó Santíssima Virgem da Graça, prostrado diante de ti imploro pelos vossos méritos e pelo grande poder que possuis diante de Deus – Todo Poderoso, por teres trazido no vosso sagrado seio o seu Filho Jesus Cristo, que é a Graça, a proteção para nós e a cura daqueles que foram atingidos pelo mal do coronavírus e outros males. Livrai o nosso Estado da Bahia de tão grande mal, o nosso país e toda a humanidade. Assim vos peço com fé. Por Cristo Senhor Nosso. Amém. 


Composição
Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B 
Salvador, 17 de março de 2020. 


CONSCIENTIZAÇÃO CONTRA O COVID-19 
(coronavírus) 
Arquiabadia de São Sebastião da Bahia 
Dom Arquiabade Emanuel d'Áble do Amaral, O.S.B  
Abade do Mosteiro de São Bento da Bahia - Salvador, Bahia - Brasil 
Dia 25 de março de 2020


Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9)


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

BIOGRAFIA DE SANTA WALBURGA, O.S.B, (710-779), ABADESSA




Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 25 de fevereiro de 2020

DADOS BIOGRÁFICOS:

- NASCIMENTO: Em Devon, Reino Unido, Inglaterra, no castelo de Dorsertshire. 

- PAIS: Rei São Ricardo de Pilgrim, Wiana ou Wuna de Wessex.

- IRMÃOS: São Willibaldo (701-781), bispo, morreu aos 80 anos.
São Winibaldo (704-761), Abade.

- FALECIMENTO: No ano de 779 em Heidenheim, Alemanha.


VIDA DE SANTA WALBURGA, O.S.B, (710-779), ABADESSA

No martirológio romano sua memória é celebrada no dia 25 de fevereiro
No martirológio Galicano sua memória é celebrada no dia 02 de maio

SANTA WALBURGA, O.S.B, (710-779) foi uma grande Abadessa beneditina que viveu no século VIII e não é uma santa popularmente conhecida pelo menos em nosso Brasil. Vemos o seu nome ainda invocado em nossos mosteiros da Ordem de São Bento no nosso país. No entanto, na Europa ela é muito conhecida e venerada por causa dos seus importantes trabalhos missionários e seus muitos milagres que realizou ainda quando vivia e bem mais após a sua santa morte, ocorrida no ano de 779. A sua vida está intimamente ligada à de outra grande Abadessa também beneditina a sua prima Santa Líoba, OSB, (700-779), outra mulher extraordinária na evangelização da Germânia. Santa Líoba também era prima de São Bonifácio, O.S.B (672-754), bispo e mártir. Santa Walburga e Santa Líoba possuíam o mesmo intuito missionário e por isso rumaram para a Germânia no desejo de levar a Deus a outros povos. Santa Walburga é mais popularmente conhecida em relação a Santa Líoba.

Ao consultarmos o Martirológio Romano-Monástico, assim está escrito sobre Santa Walburga: Em Heidenheim, no século VIII, Santa Walburga, abadessa. Filha de São Ricardo, rei da Inglaterra, foi enviada para a Germânia a pedido de São Bonifácio, para dirigir um mosteiro fundado por seus próprios irmãos. É padroeira de várias cidades da Bélgica, notadamente Bruges e Ypres. (M). (Martirológio Romano-Monástico).

Santa Walburga nasceu em Devon, Reino Unido, Inglaterra, no castelo de Dorsertshire. Seu nome em grego “Eucheria” significa “graciosa”. Seu irmão São Winibaldo (704) pelo amor que possuía lhe ensinava o caminha da perfeição ajudando-a a entregar inteiramente o seu doce coração a Deus e a estimar e cumprir a santa vontade do Senhor.

A jovem princesa Walburga carregava no seu coração o desejo de se entregar a Deus. E, tendo ela comunicando esse desejo ao seu pai, o piedoso rei Ricardo, o qual ciente da alegria da filhinha, imediatamente conduz a menina para ser entregue aos cuidados da Abadessa Santa Cuthberga, no mosteiro de Wimbourne. Cuthberga era a esposa do rei Alfredo, que tinha se tornado monja no mosteiro em Barking e depois esta foi a primeira Abadessa da Abadia de Wimbourne fundada por seu irmão o rei Ina. Santa Cuthberga deixando tudo e com a licença do seu marido o rei Alfredo tinha ingressado no mosteiro de Barking onde “viveu alguns anos em completa sujeição, verdadeiro modelo para todos na regularidade e disciplina”. Certamente o rei ficou feliz por ver sua filha consagrar-se a Deus, mas também triste por não mais ter nenhum contato com ela. Nesse período do monasticismo era muito rigorosa as regras nos mosteiros. “A austeridade da disciplina primitiva existia em pleno vigor. Os padres eram obrigados a sair da igreja imediatamente depois da celebração da Santa Missa, os próprios bispos não podiam entrar no mosteiro e a Abadessa, para comunicar-se com o mundo exterior, e dar ordem aos seus súditos temporais ou espirituais, somente o fazia através de uma pequena grade de ferro” (A vida de Santa Walburga, p. 10).

Podemos ver na sua biografia que: “Foi a tão formidável lugar que o Rei Ricardo conduziu a sua filhinha e, depois de abraçar e contemplar com ternura, pela última vez, o meigo e puro semblante da pequenina, entregou-a ao cuidado da Abadessa e partiu para jamais voltar. Fecharam-se as portas da clausura sobre Walburga e por vinte e seis anos não devia ela transpô-la” (A vida de Santa Walburga, p. 10).

No claustro do mosteiro ela foi muito bem educada pela grande Abadessa Cuthberga. “A nova vida da princesa inglesa deve, indubitavelmente, ter-lhe parecido estranha depois da plena liberdade que gozava em casa com o pai e irmão. Era porém inteligente e entregou-se aos estudo, sendo seus talentos bem aproveitados pela cuidadosa Abadessa, que velava para que recebesse sólida instrução e se aperfeiçoasse nas prendas condignas à sua posição” (A vida de santa Walburga, p. 10). E, esse cuidado da Abadessa não era somente sobre Walburga, mas também em relação ao sua comunidade, pois sabemos que nesse período o mosteiro de Wimbourne era bastante conhecido pelos seus trabalhos intelectuais. São Bonifácio, Santo Aldelmo e outros se dirigiam a elas pedindo tarefas. Pois as monjas “escreviam fluentemente o latim e o grego e a facilidade com que citavam os clássicos, prova que lhes eram familiares. Era notáveis, também, as suas iluminuras elaboradas e as transcrições de Missas, Breviários e da Sagrada Escritura [...]. Primavam ainda numa espécie de bordado, chamado trabalho inglês, tecido com fio de ouro e prata e encrustado com pedras preciosas” (A vida de santa Walburga, p. 10-11). Portanto, as monjas, viviam no trabalho, na oração, bem como no estudo. Coisas prescritas pela Regra beneditina.

O mosteiro de Wimbourne era muito próspero nesse período, em vocações, e por causa disso, Santa Walburga deve ter sofrido bastante por ser ela no seu castelo filha única com seus próprios mimos e agora vendo-se entre oitocentas monjas de todas as classes sociais. Aí não teria mais as regalias e os mimos do pai, dos irmãos, amas etc. Mas, “a sua natural meiguice, porém, de muito lhe serviu e aprendeu a suportar com paciência s fraquezas do próximo e a não somente seguir o que julgava proveitoso para si” (A vida de Santa Walburga, p. 12).

A quase um ano que Santa Walburga estava no mosteiro, chega-lhe a notícia da morte do seu querido e piedoso pai, o rei Ricardo, o qual foi sepultado na igreja de Lucca, Itália, ao lado do corpo de São Frigidiano. “e seu corpo ficou sendo veneradíssimo naquela cidade, pelos favores miraculosos obtidos por sua intercessão” (A vida de Santa Walburga, p. 12).

Passados vinte e seis anos na Abadia de Wimbourne e trinta de idade, Santa Walburga é convidada juntamente com sua prima Santa Líoba pelo bispo São Bonifácio para fundar um mosteiro em sua diocese na Germânia para mostrar às mulheres daquela nação o exemplo das virgens cristãs.

Na viagem da Inglaterra a Germânia houve um milagre pela intercessão da santa: “A viagem corria bem, o vento e o tempo favoráveis, mas de repente se levanta tremenda tempestade e o navio acha-se em perigo iminente. Os marinheiros atiram precipitadamente a carga ao mar, e, tudo que amorosas mãos haviam preparado para as monjas, lá se vai servir de alimento aos peixes, o que porém, era preferível a serem sepultadas no mar. A marinhagem estavam deveras atemorizada e as monjas participaram do alarme geral. Somente Walburga permanecia tranquila, à vista disso as irmãs pedem-lhe que ore pelo seu salvamento, Walburga ajoelha-se no tombadilho e implora a Deus com os braços em cruz que lhe atenda a súplica; em seguida levantando-se implora ao vento e às ondas e sobrevêm repentina calma, a grande admiração de todo. As monjas desembarcaram sãs e salvas em Antuérpia, onde os marinheiros espalharam por toda parte o milagre operado no mar, de sorte que Walburga era considerada maravilhosa e tanto ela como suas companheiras foram mui hospitaleiramente recebidas pelo povo da cidade” (A vida de Santa Walburga, p. 15).

Ao chegar Santa Walburga e suas companheiras a Germânia, depois de uma longa e perigosa viagem, encontraram à sua espera São Bonifácio, bispo e São Willibaldo, bispo, seu querido irmão. É de imaginar a grande alegria desse encontro entre eles. Também a expectativa da evangelização das almas que esperavam salvar nesse país.

 Em Heidenheim (morada dos pagãos) onde seria o construído o seu mosteiro, este ainda não estava pronto e, por isso, foram enviadas para outro convento em Turíngia à espera do termino da construção em Heidenheim. Ficando esse tempo sob o governo do seu irmão São Winibaldo, Abade que ali já havia se instalado com seus monges e dirigia as obras do futuro mosteiro. No ano de 752 estando o mosteiro bem adiantado em obra, São Winibaldo veio à Turíngia buscar a sua irmã Walburga e as outras monjas que lhe deviam ajudar nas primeiras dificuldades da nova fundação. “A providência de Deus, mais uma vez, unia o irmão e a irmã, e por dez anos Walburga devia fruir o auxílio de sua sábia e forte direção. [...] Vivera até aí na submissão e dependência, e sem Winibaldo, talvez não tivesse suportado o peso do governo. Deus todavia em Sua bondade, deixou-lhe o auxílio do irmão até que, pela experiência adquirida, pudesse ficar só; ...” (A vida de S. Walburga, p. 17).

Santa Walburga foi uma grande Abadessa e mulher de muitas virtudes. Uma verdadeira mãe para sua comunidade. Ouçamos as palavras do Breviário ao seu respeito: “Foi superiora do novo mosteiro de Heidenheim, onde praticou tão sublimes virtudes que todas viam nela o que podiam justamente admirar e com proveito imitar. Aliava a máxima doçura e prudência de maneiras, aos outros dotes que possuía por natureza e graça” (A vida de S. Walburga, p. 17). Possuía esta serva de Cristo o dom do conselho, da caridade, da mansidão para com todos sem nunca procurar suas próprias comodidades. Sempre estava a serviço da sua comunidade e de todos aqueles que iam ao mosteiro para se encher da sua sabedoria. Mortificava-se sempre com jejuns muito severos. Vivia em contínua oração e imersa na contemplação das coisas divinas e sem distrair-se nas coisas do seu governo abacial, cumpria suas tarefas com muito zelo e sincera devoção diante de Deus. Era um verdadeiro poço de virtudes. “Tornou-se verdadeiro exemplo das virtudes maternais e paternais, pois primava em todos os dotes de virgem prudente” (A vida de S. Walburga, p. 17).

Heidenheim tornou-se célebre e hospitaleira pelas suas virtudes e as de seu irmão Winibaldo. Em volta da Abadia os campos tornaram-se férteis pelos trabalhos dos monges e das monjas dando assim suporte a população necessitada. Eram eles verdadeiros administradores de Deus. “Enquanto os monges serviam aos homens, Walburga e sua monjas abriam as portas e os corações às pobres mulheres meio civilizadas, cujas almas eram ainda mais miseráveis do que os corpos” (A vida de S. Walburga, p. 18).

Os pobres e hóspedes eram servidos pessoalmente pela Abadessa que lhes lavava os pés e curava-lhes as feridas com suas próprias mãos; ensinando-lhes pelo exemplo mais do que por palavras as virtudes da caridade, da mansidão, da humildade que eles tanto necessitavam.

Em 761 devido uma viagem feita ao túmulo do seu amado mestre e tio São Bonifácio em Fulda, ficou bastante doente e voltando a Heidenheim caiu gravemente enfermo. Celebrava Missa na sua cela num altar preparado devido a sua doença, mas nem assim diminuíram as suas longas vigílias e jejuns. Quando se aproximava a morte avisou aos monges e obteve a consolação de ver os seus dois irmãos o bispo Willibaldo e Walburga. Finalmente o seu querido irmão Winibaldo morre no dia 18 de dezembro de 761. Um verdadeiro sacrifício para Walburga.

O corpo de Winibaldo foi sepultado na igreja que ele havia construído. O santo bispo Willibaldo celebrou os últimos ritos da igreja pelo irmão falecido, demorando-se ainda um pouco em Heidenheim, para assim organizar o novo governo do mosteiro. Os monges sabendo das grandes virtudes e prudência de Walburga e que era como seu Abade que falecera, eles se convenceram que ela devia reger o mosteiro do seu irmão, pois na Inglaterra podia uma Abadessa reger um mosteiro de monges. Apresentado esse assunto ao bispo este acolhe a petição dos monges. “Não foi, entretanto, sem extrema, repugnância e em obediência à ordem expressa que Walburga aceitou o governo dos monges ao mesmo tempo que o das monjas” (A vida de S. Walburga, p. 19). E, governou com muita prudência e satisfação dos monges e monjas os dois mosteiros.

Sabemos que na vida dos santos muitos milagres são narrados. Na existência de Santa Walburga grandes e maravilhosos milagres aconteceram em vida e após a sua morte.

Era costume na época o sacristão acender as luzes da igreja e do claustro logo que escurecesse. Certo dia, o sacristão por alguma razão não o fez. A Santa Abadessa vendo o mosteiro as escuras, foi pedir ao encarregado para fazer o que era de costume e, este, muito aborrecido, tratou-a grosseiramente, mas ela na sua humildade e mansidão para não exaltar os ânimos retirou-se às escuras para a sua cela sem nada lhes dizer. Quando de repente todo o mosteiro é iluminado por uma luz maravilhosa que vinha da cela da Santa. As irmãs que já repousavam, ao ver o clarão ficaram abismadas com aquela claridade e foram a cela da Abadessa para pedir-lhe uma explicação de tão grande mistério. Diante da pergunta Santa Walburga desata a chorar e exclama: “A Vós, meu Deus, que tenho servido desde a infância, dou infinita graças por este favor. Com essa luz celestial, Vós dignastes confortar vossa indigna serva, dissipando as trevas da noite com os raios da Vossa misericórdia, para animar estas minhas filhas a me serem fiéis, e esta graça me foi concedida, não por meus méritos, mas em atenção às orações de meu dedicado e santo irmão, que hoje reina convosco na glória” (A vida de S. Walburga, p. 21).

Um outro dia, pelo poder da oração, restabeleceu a vida de uma jovem que estava em agonia de morte. Tão forte era a fé de Santa Walburga em Deus. E tantos outros milagres que ela operou através da sua confiança e fé.

Já no final de sua existência na terra, “os poucos dias que ainda devia passar sobre a terra foram de uma vida mais angélica do que humana. Frequentemente era encontrada em êxtase ajoelhada e absorta em seu oratório” (A vida de S. Walburga, p. 23). E, para ainda mais a cumular de graças esta serva, Deus lhe concede mais milagres por sua fidelidade e grandes sacrifícios. Em relação a isso, vemos um outro fato bastante interessante que ocorreu em seu funeral. “Imediatamente, depois da morte da santa, quis Deus glorifica-la, rodeando o seu corpo com uma auréola de luz que o fazia já parecer está revestido de imortalidade e ao mesmo tempo dele exalava tão suave perfume que enchia a igreja e o mosteiro, testemunhando a virgindade sem mancha e a pureza do seu corpo imaculado, no qual o pecado não havia semeado o germe da decomposição” (A vida de S. Walburga, p. 24).

O seu irmão bispo São Willibaldo teve o privilégio de assistir os derradeiros momentos da sua querida irmã a qual recebeu de suas mãos os Sacramentos e este teve a alegria de sepultá-la ao lado de São Winibaldo. O santo bispo ainda viveu alguns anos até depois dos oitenta anos e quando sentiu que estava terminadas as suas tarefas no santo serviço de Deus, avisou aos irmãos que se aproximava o tempo de sua partida para Deus. No dia de sua morte celebrou a Missa e distribuiu a Santa Comunhão ao seu rebanho. “Morreu, e foi enterrado com as honras devidas aos seus grandes trabalhos de apóstolo e bispo, na sua igreja catedral de Eischstädt a 7 de julho de 781” (A vida de S. Walburga, p. 24).

Após a morte de Santa Walburga a sua devoção foi diminuindo gradualmente e seu túmulo ficou descuidado. Mais ou menos no ano de 870, o bispo de Eischstädt, Otkar, resolveu fazer o restauro da igreja e do mosteiro de Heidenheim que se encontravam bastante deteriorados. Os operários não sabiam quase nada da santa e para desempenho dos seus trabalhos, passavam sobre o seu túmulo sem lhe dar o devido respeito. Certa noite quando o bispo dormia, foi acordado pela santa que estava ao lado do seu leito, e o repreendeu pelo descuido que deixava as suas relíquias a qual estava sendo pisadas e desrespeitadas por todos; e lhe disse que teria um sinal para ele saber que não era apenas um sonho. E, no dia seguinte, realmente houve o sinal. Vieram lhe dizer que a noite o murro do lado norte da torre da igreja de Heidenheim desabara. O bispo ficou muito impressionado com o ocorrido. Por isso, “Partiu, para Heidenheim seguido por numerosos padres e pelo povo e exumou com todas as honras o corpo da Santa que não somente foi encontrado incorrupto, mas coberto por maravilhoso fluido qual puríssimo óleo”. (A vida de S. Walburga, p. 25). Por isso, o corpo de Santa Walburga foi transladado para a catedral de Eischstädt e posto em lugar temporário. No ano de 893, o bispo Erchanboldo o sucessor de Otkar colocou suas relíquias no altar-mor da igreja e a ela dedicou. “Ao levantar o corpo reproduziu-se o mesmo fenômeno extraordinário, e o biógrafo da Santa, testemunha ocular, conta-nos que não havia poeira ou impureza que pudesse macular o maná ou óleo que destilava o cadáver. O óleo tem continuado, em certos tempos, a correr do seu túmulo gota por gota [...]. Geralmente o fenômeno ocorre desde o dia 12 de outubro, data de sua transladação, até 15 de fevereiro, dia de sua festa; também quando a Santa Missa é dita sobre as suas relíquias” (A vida de S. Walburga, p. 25). Esse óleo é distribuído em todo mundo e faz ainda hoje, muitos milagres por intercessão da Santa. Interessante, nesse líquido milagroso “é que se for tratado com desrespeito quase sempre evapora, e uma vez que Eischstädt se achava sob intervenção, óleo cessou decorrer. Também sendo-lhe retirado o recipiente, cristaliza-se e permanece suspenso até que de novo seja colocado” (A vida de S. Walburga, p. 26). Portanto, “O óleo milagroso que continua a correr de suas relíquias, operando maravilhas em nossos próprios dias, prova quanto é preciosa a santa aos olhos de Deus e poderosa a sua intercessão” (A vida de santa Walburga, p. 5).

Que possamos sempre nos momentos de dificuldades invocar a intercessão de Santa Walburga, que tanto socorreu os desvalidos nas suas enfermidades espirituais e corporais. Ela foi para nós um exemplo admirável de entrega total ao serviço de Deus e do próximo.

Rogai por nós, Santa Walburga. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.
  

ORAÇÃO À SANTA WALBURGA, O.S.B, (710-779), ABADESSA

Ó Deus todo-poderoso, que destes a vossa serva Santa Walburga, a graça de curar as feridas do corpo e da alma de todos aqueles que sofrem e que com fé pura e ardente pediram a sua poderosa intercessão e foram atendidos. Concedei, a nós que com a mesma fé invocamos o seu socorro, a graça de.... (Pedir a graça). Se assim for conforme a sua santa vontade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Composição:
Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
Salvador, Bahia - 24 de fevereiro de 2020 





REFERÊNCIAS

A VIDA DE SANTA WALBURGA. [Traduzido do inglês e publicado pelas monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Maria em São Paulo]. – São Paulo: Editora Franciscana. –  

MARTIROLÓGIO ROMANO-MONÁSTICO. Abadia de São Pierre de Solesmes / traduzido e adaptado para o Brasil pelos monges do Mosteiro da Ressurreição / Ponta Grossa, PR - Mosteiro da Ressurreição, edições, 1997.
  
Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9)


domingo, 19 de janeiro de 2020

DIA 20 DE JANEIRO, SOLENIDADE DE SÃO SEBASTIÃO (256-287), MÁRTIR DE JESUS CRISTO



Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 20 de janeiro de 2020

O soldado e Mártir de Cristo, o grande São Sebastião, é um dos Santos mais conhecidos e cultuados no nosso país, e também no mundo todo. Há uma grande quantidade cidades e igrejas dedicadas ao seu nome. No Brasil, seu culto vem desde os primórdios desse continente, onde havia uma ermida a ele dedicada, no local onde hoje se encontra o antigo Mosteiro de São Bento, na cidade do Salvador. Por isso, São Sebastião é o Titular da Basílica Arquiabacial e Padroeiro do Mosteiro de São Bento da Bahia. E, se encontra no acervo do Mosteiro a antiga e valiosa imagem do santo que pertencia a pequena ermida. A ermida já existia antes da chegada dos monges que ocorreu no ano de 1582 quando foi fundado o Mosteiro. Por isso a ermida do santo foi entregue aos monges beneditinos que até os dias de hoje cuidam com muito zelo de sua igreja, de seu Padroeiro.

São Sebastião foi perseguido, preso e morto no início da grande perseguição aos cristãos imposta pelo imperador Diocleciano, que começava a excluir do seu exército todos os cristãos. O santo era capitão da Guarda Pretoriana a qual estava aquartelada na cidade de Milão. E, por ele ser cristão, foi denunciado ao imperador que seu soldado tinha outro Mestre e Imperador que era Jesus Cristo, e por causa de sua fé, este foi preso e condenado a ser trespassado por flechas no Campo de Marte na cidade de Roma.

Da vida de São Sebastião temos algumas versões devido a escarceis de documentações, pois este santo segundo outras fontes nasceu no ano de 256, sendo martirizado no ano de 287. Vemos autores situando sua vida no século III ou IV. 

Segundo Santo Ambrósio São Sebastião era soldado Imperial de Narbona na Gália ou de Milão e sofreu o martírio na cidade de Roma, e que o grande culto em sua honra o qual não teve uma interrupção, fez com que sempre os cristãos soubessem onde se encontrava a sua sepultura a qual está no cemitério da antiga Via Ápia, nas chamadas Catacumbas de São Sebastião.

Sabemos bem, que: “A liturgia de Roma sempre lhe reservou um lugar privilegiado” por causa de sua grandeza, coragem e fidelidade na fé em Jesus Cristo.

Na representação do seu martírio vemos o santo amarrado a uma árvore e trespassado por muitas flechas, mais, São Sebastião não morreu por causa desse suplício. Ele foi recolhido por uma outra cristã chamada Santa Irene, que tratou dos seus ferimentos e assim sobreviveu. No entanto, mais tarde, foi novamente preso e morto a pauladas. Outros dizem que sofreu a decapitação. Mesmo assim, a iconografia retrata-o crivado de flechas. Ele é invocado como protetor dos empesteados por causa das suas feridas.

Desde o século VI o seu culto conheceu uma grande popularidade se espalhando pelo mundo.

Quantas cidades, vilas, povoados fora livres de pestes e tantos outros males pela intercessão do Santo Mártir São Sebastião. Daí a grande devoção e carinho do povo brasileiro e do mundo a este insigne soldado de Cristo.
São Sebastião, rogai por nós. Amém.


ORAÇÃO AO MÁRTIR SÃO SEBASTIÃO

OREMOS
Dai-nos, ó Deus, o espírito de fortaleza para que, sustentados pelo exemplo de Sebastião, vosso glorioso mártir, possamos aprender com ele a obedecer mais a vós do que aos homens. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém. 

(Do Missal cotidiano)











REFERÊNCIAS

MARTIROLÓGIO ROMANO-MONÁSTICO. Abadia de São Pierre de Solesmes / traduzido e adaptado para o Brasil pelos monges do Mosteiro da Ressurreição / Ponta Grossa, PR - Mosteiro da Ressurreição, edições, 1997.

MISSAL COTIDIANO. 10ª edição / Paulus, 2011.

LITURGIA DAS HORAS – Segundo o rito romano. Segunda edição típica / Editora Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2000.


HORÁRIOS DAS CELEBRAÇÕES NO MOSTEIRO

Arquiabadia de São Sebastião da Bahia
Mosteiro de São Bento da Bahia (1582)
Salvador, Bahia – Brasil 

- VIGÍLIA
Às 5: 30h

- LAUDES
Às 6: 50h

- MISSA CONVENTUAL
Às 10: 00h

- HORA MERIDIANA
Às 12: 00h

- VÉSPERAS
Às 17:00h com Bênção do Santíssimo Sacramento.

“Ut In Omnibus Glorificetur Deus” (RB 57, 9)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A MAIS ANTIGA DEVOÇÃO À NOSSA SENHORA EM NOSSO BRASIL



Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 17 de dezembro de 2019

Poucos sabem, que aqui em nossas terras do Brasil, já no século XVI, precisamente na cidade do Salvador da Bahia, havia uma grande veneração a Santíssima Mãe de Deus. E os louvores em sua honra eram celebrados no dia 18 de dezembro, dia que ficou marcado como a sua memória litúrgica. Essa devoção foi iniciada com muito amor e dedicação por uma índia da tribo Tupinambá convertida ao catolicismo. Tão bela e muito eficaz foi essa devoção que ainda neste século XVI se espalhou para outras regiões do continente. Por isso podemos ver na história da cidade de Santos no estado de São Paulo, uma capela dedicada à mesma devoção, no ano de 1562. Pena que na urbanização da cidade de Santos, esta capela foi demolida no ano de 1903. Tão conhecida era a história da índia baiana, grande devota da Mãe de Deus, a qual lhe tinha construído para os louvores da Virgem Maria, uma ermida com o título de NOSSA SENHORA DA GRAÇA no atual bairro da Graça, Salvador, no ano de 1535. Outros autores colocam também como no ano de 1530.

A seu pedido, o marido construiu uma hermida de taipa que posteriormente passou a ser de pedra e cal, para onde foi trasladada e começou a ser venerada a imagem sob a invocação de Nossa Senhora da Graça em atenção à prodigiosa graça da aparição “em sonhos da Mãe de Deus a Catarina” (Mello Moraes).

Outro escritor assim nos fala reportando-se ao ano de 1535.

“Caramuru, constrói a pedido de Catharina, um oratório de taipa para abrigar a imagem da Virgem Maria. Essa capela, atual Igreja de Nossa Senhora da Graça, foi o primeiro templo religioso na Bahia e o primeiro mariano no Brasil”. (PORTO FILHO, 2012, p. 27)

E ainda: “Estava assim, em 1535, erguida a primeira igreja na Bahia, dedicada a Mãe de Jesus, que depois receberia o nome de Ermida de Nossa Senhora da Graça”. (PORTO FILHO, 2012, p. 18)

E depois trazendo a memória o ano de 1585 nos diz:

“Catharina Paraguassú, introdutora da devoção mariana no Brasil, comanda as festividades pelos 50 anos da construção da sua capela, erguida em louvação à Nossa Senhora da Graça”. (PORTO FILHO, 2012, p. 28)

Assim, para perpetuar o mesmo culto a soberana Senhora da Graça, essa ermida foi doada a recém-chegada Ordem do Patriarca São Bento em 16 de julho do ano de 1586 da qual até os dias de hoje os monges beneditinos cuidam com muito zelo desse importante patrimônio da Bahia. O interessante é que não foi doada apenas a ermida mas uma grande extensão de suas terras para a subsistência da nova Ordem recém-fundada no Brasil, no ano de 1582. Hoje, o imponente Mosteiro de São Bento da Bahia, o arquicenóbio do Brasil.

Sempre que mencionamos a devoção a NOSSA SENHORA DA GRAÇA, às pessoas pensam ser esta devoção aquela nascida na cidade de Paris no ano de 1830, na qual a Virgem Santíssima apareceu a Santa Catarina Labouré, pedindo-lhe que fosse cunhada uma medalha, a qual posteriormente ficou conhecida mundialmente como a Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças, por causa dos muitos milagres ocorridos pela intercessão de Nossa Senhora das Graças, imagem revelada a Santa Catarina. Não é desta linda e eficaz devoção que aqui me refiro. O meu desejo é fazê-los conhecer um pouco da história da importante, e da mais antiga devoção que vem desde os primórdios do nosso Brasil, a DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DA GRAÇA. Neste mesmo dia, essa memória também é conhecida com o nome de Expectação do parto de Maria Santíssima. Porque a Graça é o Cristo Salvador que Maria nos traz.

Essa devoção à Virgem da Graça já existia em Portugal desde o século XIV, quando uns pescadores resgataram uma bela imagem da Virgem Maria, e com o descobrimento da imagem da Santíssima Senhora, ocorreu também um milagre. Os pescadores vendo-se diante de uma pesca milagrosa onde veio em suas redes juntamente com a imagem de Nossa Senhora uma grande quantidade de peixes, com isso, eles deram a essa imagem o título de Nossa Senhora da Graça. Esse fato milagroso ocorreu na cidade de Cascais, em Portugal.

Porém, aqui no Brasil essa devoção apareceu no século XVI, através de uma importante figura que hoje é conhecida como a Matriarca do Brasil. Uma ilustre senhora dos primórdios do nosso continente brasileiro. Essa personalidade chamava-se Catarina Paraguaçu (1512-1589), uma índia Tupinambá, filha do cacique Taparica. Catarina, após a sua conversão para o catolicismo ao receber o sacramento do santo Batismo, ela recebeu o nome de Catherine du Brezil. Esta era a esposa do português náufrago, Diogo Álvares Correa, o Caramuru (1490-1554). Existem muitas lendas sobre a história dessa índia e da sua relação matrimonial com Diogo Álvares. Mais aqui, não desejo falar desses pormenores. O meu intento é mostrar sua devoção à Senhora da Graça, a qual ela tanto amou e honrou construindo-lhe uma ermida/capelinha para os louvores da Santíssima Senhora. Vejamos um pouco da história que é bastante contada nos antigos documentos.

Houve uma história em terras baianas que marcou o início dessa devoção, mesmo antes da colonização oficial do Brasil (entre 1500 e 1532). Numa manhã, Catarina revelou a Diogo Álvares que, durante a noite, tivera um sonho repetido várias vezes: contemplava em uma grande praia um barco destroçado, com homens brancos passando fome e frio, e junto deles uma bela senhora com uma criança nos braços. Devido à credulidade da época e à insistência da jovem Paraguaçu, Caramuru mandou explorar a costa, mas nada foi achado. Mais uma vez o sonho se repetiu, mais uma investigação, e desta vez realmente acharam o tal navio (que era espanhol) e sua tripulação, na ilha de Boipeba. Sem demora foi o socorro prestado, mas, quanto à presença de uma mulher entre os castelhanos, não foi confirmada. Estando a índia Paraguaçu triste pelo não encontro da senhora, visto que esses assuntos eram muito sérios naqueles dias, durante a noite a senhora apareceu nos sonhos da índia e disse que a fossem buscar e lhe fizessem uma casa. Acordando, insistiu com seu esposo, e ele, devido ao sucesso das primeiras informações, acreditou que poderia encontrar alguma coisa. Uma nova expedição foi feita, até que encontrou uma imagem da Virgem Maria em uma palhoça, recolhida por um nativo do lugar; era a imagem da Mãe de Jesus com seu filho nos braços, que foi transportada para sua aldeia. Erigiu-se uma pequena capela em 1530, dando-lhe o nome de Nossa Senhora da Graça pelo efeito extraordinário ali ocorrido. Essa mesma ermida foi doada aos monges da Ordem de São Bento em 1586 pela própria Catarina Paraguaçu e seu esposo - assim ficavam garantidos o culto e a continuação de sua obra tão pia. Mais tarde, foi substituída por uma igreja de maior porte. (Francisco Carballa*)

Essa história ficou muito conhecida popularmente a ponto de chegar até a Vila de Santos, como já mencionado acima, onde também foi construída uma capela para a mesma Senhora da Graça. Esta Capela da Graça, que possivelmente seria do ano de 1562, permaneceu até o ano de 1903, e era localizada na antiga Rua Santo Antônio, atualmente a Rua do Comércio, denominada Rua do Sal.

Incentivados pelo ocorrido, quando os portugueses começaram sua colonização, os padres que por aqui estavam evangelizando os ameríndios, sabedores dos fatos ocorridos na Bahia, encontraram nessa simples história um sinal do céu para seu sucesso na empreitada. Assim, os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta muito devem ter contado e recontado esse evento pelo litoral e interior, onde trabalhavam evangelizando e cuidando do rebanho de Cristo, daí inúmeras capelas com esse mesmo título ou humildes peanhas receberam uma imagem sob essa invocação da Virgem Maria. (Francisco Carballa*)

A igreja de Nossa Senhora da Graça é uma pérola da cidade do Salvador da Bahia e também do Brasil, pois é a mais antiga em honra a Nossa Senhora. Vejamos o que nos diz o escritor Ubaldo Marques ao se referir a uma celebração na cidade do Salvador ocorrida no ano de 1549, ano da fundação desta cidade:

No dia 31 de março, em solenidade presidida pelo jesuíta Manuel da Nobrega, foi celebrada a primeira festa mariana do Brasil, na Ermida de Nossa Senhora da Graça, com uma missa em honra à chegada de Tomé de Souza, que esteve presente, juntamente com membros da sua comitiva, de vários índios e do primeiro casal cristão do Brasil, Catharina e Caramuru. (PORTO FILHO, 2012, p. 27)

Nos registros da capela podemos ver com o tempo os melhoramentos dos seus espaços para as celebrações litúrgicas bem como outros trabalhos aí realizados. No ano de 1770 o nosso muito Reverendíssimo Dom Abade Frei Ignacio da Piedade Peixoto reedifica a capela, data que podemos ver atualmente no frontispício da igreja. Inscrição: “Frei Ignacio da Piedade Peixoto mandou principiar a reedificar esta Igreja de Nossa Senhora da Graça aos 11 de outubro de 1770”. Tanto a igreja como o mosteirinho anexo a ela, passaram por várias reformas nos anos de 1881, 1924, 1935 etc. E atualmente foi feita a restauração de toda a igreja e alguns reparos na parte do mosteiro para uma utilização mais adequado dos seus espaços em 2017-2018. Também aí foi criado o COMPLEXO CULTURAL NOSSA SENHORA DA GRAÇA o qual está ligado ao Mosteiro de São Bento da Bahia o proprietário deste Santuário de Nossa Senhora. Esses espaços serão usados para eventos culturais e outras atrações (cf. endereço abaixo).

Um registro bastante importante que não poderíamos deixar de citá-lo aqui é as datas referentes a criação do Mosteiro de Nossa Senhora da Graça chegando a ser uma Abadia. A qual anos mais tarde foi supressa pela Sé Apostólica e anexada ao Arquicenóbio da Bahia o Mosteiro de São Bento que se encontra no centro da cidade do Salvador. Assim nos deixou escrito o monge Dom José Lohr Enres, O.S.B, monge da Arquiabadia de São Sebastião da Bahia o registro muito importante sobre o Mosteiro da Graça.

Fundado no ano de 1647 e Presidência a 13 de janeiro de 1694, foi ereto em Abadia a 05 de fevereiro de 1697. Voltou a ser Presidência no ano de 1707 e foi 2ª vez elevado à Abadia a 27 de fevereiro de 1720. Por Decreto da Santa Sé de 20 de janeiro de 1906 foi supresso e incorporado à Abadia de São Sebastião do Salvador da Bahia, continuando até o presente como Priorado Claustral (ENDRES, p. 74).


A VALIOSA E SAGRADA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA

A sagrada imagem de Nossa Senhora da Graça é bem distinta e de uma beleza ímpar. Possivelmente a sua policromia atual não é a mesma, aquela do século XVI do tempo de Dona Catarina Paraguaçu. Atualmente imagem está bem preservada. Podemos ver a Santíssima Senhora de pé, com seu amado Filho Jesus Cristo em seus sagrados braços, o rosto lindamente sereno, com os cabelos soltos, coberto com um véu, tendo a mão direita numa posição de segurar um cetro ou algum outro objeto. Não se sabe que objeto estaria segurando. Certamente perdeu-se ao longo dos anos. A linda Senhora está com uma bela coroa de prata em sua cabeça, pois Ela é a nossa Mãe e Rainha. A seus santos pés vemos lindos Anjos, por ser, Ela, a Rainha dos Anjos. O sagrado menino Jesus também sereno e de grande beleza, vemo-lo como num gesto de movimentar-se em seus braços materno, trazendo na sua cabeça um lindo esplendor de prata.

Um outro autor assim nos deixou o relato em relação a Sagrada Imagem da Mãe da Graça:

A imagem da Mãe de Deus que a piedade venera no altar-mor da Igreja, bela escultura de madeira, perfeitamente trabalhada, tendo no braço esquerdo a Jesus Menino, é a mesma do sonho de (Catarina) Paraguassú, aquela milagrosa Imagem que, destinando-se às terras do Prata, quis ficar conosco.

Que bela devoção! Quantos milagre deu a esta cidade do Salvador, e a outras regiões do nosso querido continente americano, a Santíssima Mãe do bom Deus na invocação de Nossa Senhora da Graça! Devoção tão antiga quanto o nosso Brasil.

Tudo podemos alcançar se pedirmos com fé a Mãe de Deus, pois Ele tudo lhes concede. Nenhum rogo de Maria diante de Deus, dos Anjos, ou dos Santos, ficam sem resposta. Através dela, alcançaremos de Cristo nosso Senhor e Salvador, tudo o que lhe pedimos. Por isso, sempre a invoquemos com fé a sua materna intercessão e proteção. Ó Augusta Rainha dos céus, Ó Soberana Senhora dos Anjos e dos Santos! Vós que recebestes do Senhor o poder de ser a nossa intercessora e protetora, concedei-nos o que Vos pedimos com fé. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Santíssima Virgem da Graça, intercedei a Deu por nós agora e na hora da nossa morte. Amém.

 

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DA GRAÇA 


Ó Deus, eterno e todo-poderoso, bondade infinita, que cumulastes de graças a Santíssima Virgem Maria, com a encarnação do vosso Verbo Divino em seu seio, pelo poder do Espírito Santo. Ele, que é a verdadeira Graça. Pelo amor que tendes por nós, e para nos enriquecer mais com vossos dons e auxílio, fizestes que a tua serva Catarina Paraguaçú, já nos primórdios do nosso continente, recebesse de vossa Santíssima Mãe, uma admirável visita em sonho, para o louvor do vosso nome e honra da mesma Virgem, nesta terra de Santa Cruz. Sendo Ela, venerada em nossa terra com o título de Virgem da Graça. Pela intercessão da augustíssima Senhora da Graça, concedei-nos, vos pedimos com fé e perseverança, se assim for da vossa vontade, a graça de .............. que tudo seja para o crescimento do Vosso Reino e, no final da nossa vida alcançarmos a vossa Salvação. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

                                                                           Composição: 
Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
                                                                                  Salvador, 28 de julho de 2019  


















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HORÁRIOS DAS CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS:

Segunda a sábado 
- Missa às 7h 
- Domingos às 8h


EXPEDIENTES: 
Segunda a sábado 
- Das 6h às 17h

Domingos 
- Das 6h às 9h


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REFERÊMCIA

ENDRES, Lohr José. Catálogo dos Bispos- Gerais-Provinciais-Abades e mais cargos da Ordem de São Bento do Brasil 1582-1975. – Salvador – BA: Editora Beneditina Ltda, 1976.

PORTO FILHO, Ubaldo Marques. Catharina Paraguassú, matriarca do Brasil / Ubaldo Marques Porto Filho. Salvador: Acirv, 2012.

* http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0188x.htm  - Acessado em 02/12/2019.


Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9)