sábado, 6 de outubro de 2018

BIOGRAFIA DE SANTA FAUSTINA KOWALSKA (1905-1938) A SECRETÁRIA DA MISERICÓRDIA DIVNA.


Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 06 de outubro de 2018.

INTRODUÇÃO  

O nosso mundo está em convulsão quase que total, no campo da natureza e nos dos humanos. Uma grande crise de fé que adentra em todos os setores, civil e religioso. Verdadeiramente estamos em uma grande escuridão. Mas, que podemos fazer para ao menos amenizar tal situação? JESUS EU CONFIO EM VÓS! Esta jaculatória acalma qualquer alma que se encontra em situação de perigo ou desespero. Ensinada pelo próprio Jesus a Santa Maria Faustina do Santíssimo Sacramento, no ano de 1931, para nos refugiarmos em seu dulcíssimo e Sacratíssimo Coração, nas horas de sofrimentos.

Santa Faustina ingressou na vida religiosa no dia 1º de agosto de 1925, o dia mais feliz de sua vida, porque neste dia se cumpria a promessa de Cristo. Ela foi aceita na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia (Diário n. 13). Ela bateu em muitas outras portas de conventos mas não foi aceita. Tudo estava nos planos de Deus. Deus a queria justamente nessa Congregação.

Este texto foi extraído do FILME: Documentário sobre a vida de Santa Faustina e a Divina Misericórdia. Comentado por Helen Hayes. Documentário excelente! Bem como do seu diário onde também fiz alguns comentários de cunho pessoal, com os quais desejo mostrar aos meus leitores a grande importância da vida santa de Santa Faustina e a sua grande Missão em relação a insondável Misericórdia de Deus, que é o seu maior atributo.

Que a exemplo de Santa Faustina possamos ser fiéis a Deus na nossa caminhada neste terrestre, para que, assim, alcancemos, no final de nossa vida, a salvação de nossas almas e o convívio eterno no reino de Cristo.

Boa leitura!



VIDA DE SANTA FAUSTINA KOWALSKA

(Helena Kowalska)
* 25 de agosto de 1905
+ 05 de outubro de 1938

Irmã Maria Faustina do Santíssimo Sacramento

                              Vilna, 28 de julho de 1934

Ó grande Sacramento Divino 
Que ocultas o meu Deus, 
Jesus, ficai comigo em todos os momentos.
E o temor não dominará o meu coração. 
                                                   (Diário, n. 4)


SANTA MARIA FAUSTINA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, ou seja, Santa Faustina Kowalska, nasceu na Polônia no dia 25 de agosto do ano de 1905, e faleceu com grande fama de santidade ainda muito jovem no dia 05 de outubro de 1938. O seu nome civil era HELENA KOWALSKA.

Helena praticamente nada conhecia da Santa Teologia. Apenas algumas vidas de santos missionários e monges. Era o que seus pais a ensinara. Estes ensinamentos lhe valeu muito, posteriormente, na sua vida no convento. Deus quando deseja revelar ao mundo a sua Mensagem, Ele quase sempre escolhe pessoas bastante simples para assim confundir os sábios deste mundo. Assim nos fala Jesus nas Escrituras: “Eu te louvo, ó pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25). Por isso, escolheu esta freira comum dentre tantas outras, para que ela revelasse ao mundo inteiro a sua Mensagem de Misericórdia. Que é seu maior atributo! Vemos Santo Agostinho (354-430) dizer: “O Vosso Cristo ó Deus, é a Vossa misericórdia”. Tanto Santo Agostinho como São Tomás de Aquino (1225-1274) chamaram a Misericórdia “o maior atributo de Deus” Santa Faustina diz o mesmo. E assim, podemos também ver que do livro do Gênesis ao livro do Apocalipse, falar da Misericórdia de Deus; e, isso, teve bastante influência na literatura do mundo.

Santa Faustina não teve instrução teológica. Ela nem tinha tempo de ler estes autores como Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino. No entanto, os seus escritos mudaram muitas vidas para sempre.

O seu DIÁRIO, que é uma obra prima de grande espiritualidade mística, parece ser um relato simples de uma jornada espiritual de uma mulher, a semelhança de muitas outras que escreveram; bem como: Santa Teresa d’Ávila (1515-1582), Santa Catarina de Sena (1347-1380), ou Santa Teresinha (1873-1897).  Mas, o que influi para o conforto que ele trouxe para milhares de pessoas durante a Segunda Guerra mundial, e o que influi para rápida aceitação dessa Mensagem e da devoção que ele inspirou? E, no entanto, em 1958 tudo isso foi banido pelo Vaticano. Sabemos bem que todas as coisas que vale apena devem ser provadas. Essa provação durou vinte anos. A questão essencial era a credibilidade da autora. Essa credibilidade foi atestada após dez anos de intensa investigação. Iniciada pelo Cardeal Karol Jozef Wojtyla (1920-2005), nosso querido São João Paulo II.

Em 1978 seus esforços frutificaram, a proibição foi suspensa e a Mensagem da Misericórdia Divina começou a espalhar-se com vigor ainda maior que o de antes. Seis meses mais tarde esse Cardeal foi eleito Papa.

Qual é a mensagem que essa jovem mulher oferece para o mundo? E o que ela pode significar para você e para mim?

Faustina veio de uma família muito pobre e, apenas ela tivesse apenas 3 anos de educação formal, Faustina teve uma rica formação espiritual. Quando ela era muito pequena seu pai ensinou a ler a Bíblia e uma coleção de livros sobre missionários e monges. Aqui, podemos perceber a importância da educação religiosa na vida da criança. Desde pequena, Faustina gastava grande parte do seu tempo em devoções e rezas.

Bem no começo de seu Diário, Helena lembra vivamente que quando ela tinha 7 anos, ouviu a voz de Deus chamando-a para a vida sobre a qual havia lido nos livros sobre missionários e monges.

A primeira Guerra Mundial libertou a Polônia da opressão política e religiosa da Rússia Czarista. Helena já tinha trabalhado alguns anos como empregada doméstica quando veio a Lodz. Repetidas vezes, seus pais, descartaram seus insistentes pedidos para entrar num convento (Diário, n. 8). Por isso, ela continuou trabalhando como empregada doméstica do interior nas melhores casas da cidade.

Porém, mais tarde, Jesus a repreende dizendo: “Por quanto tempo vou te aturar e por quanto vás te afastar de mim? (Diário n. 9). E Faustina pergunta ao Senhor: “Jesus, tende a bondade de dizer-me o que devo fazer a seguir! E, Ele lhe responde: “Vai logo a Varsóvia, aí vais entrar num convento” (Diário, n. 10).

Helena não conhecia ninguém em Varsóvia. Mas, a sua fé levava de convento em convento, até que finalmente no dia 1º de agosto de 1925 ela foi aceita na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia (Diário, n. 13).

Faustina se tornou uma bênção especial para seus superiores; devido a sua natureza disponível e afável, eles, podiam envia-la para onde quisessem todas as vezes que surgiam uma necessidade imprevista. Por muito tempo os superiores não tiveram conhecimento da sua tuberculose crônica que se agravou pelas suas pesadas tarefas. Com o passar dos anos sua condição se agravou ainda mais.

No convento de Plok foi quando verdadeiramente começou a sua missão – Pinta uma imagem de acordo com o desenho que estás vendo, com a legenda: JESUS, EU CONFIO EM VÓS. Desejo que essa imagem seja venerada principalmente na capela das irmãs e depois no mundo inteiro (Diário, n. 47-48).

No seu Santuário em Czestochowa, Maria, a Mãe de Jesus, que é a Misericórdia mostrou a Santa Faustina o que ela se preocupa com a nossa geração. Dizia: “Nada temas, minha filha fiel! Fala corajosamente às pessoas sobre misericórdia de Deus porque eu dei o Salvador ao mundo. Quanto a ti deves falar ao mundo a respeito da sua grande misericórdia. E preparar o mundo para a sua segunda vinda” (Diário).  

Ela não tinha a consciência de ter passado naquele dia mais de cinco horas em oração diante da imagem milagrosa de nossa Senhora de Czestochowa. Ela quase perdeu seu trem. Estava viajando para assumir uma nova função como jardineira no convento em Wilna. Lá, ela encontrou o Pe. Miguel Sopocko (1888-1975), o sacerdote que Cristo havia prometido enviar-lhe. Ele foi seu auxiliar, diretor espiritual e amigo. Amigo a quem ela entregou sua Missão e sua vida. Uma vida escolhida por Deus para divulgar a Mensagem da misericórdia divina através do mundo.

No começo o Pe. Sopocko tratou Faustina com cautela e grande reserva. Ele, exigiu uma avaliação da sua estabilidade psicológica. A Doutora Maria Maseliewska, psiquiatra, atestou que não encontrou prova de nenhuma anormalidade no sistema nervoso ou quaisquer desvios mentais em Faustina. Com a permissão de Madre Irene Krzyzanwska o Pe. Sopocko, pôs, Faustina em contato com o artista Eugênio Kazimierowski, (1873-1939) que pintou a imagem que Cristo havia exigido dela na visão. A santa se queixa da tela do pintor por não achar que estava parecida com a sua visão. E, em particular se queixa ao Senhor Jesus. “[...] quando eu estava na casa daquele pintor [...] e quando vi que não era tão bela como Jesus – fiquei muito triste com isso o que no entanto escondi no fundo do coração” (Diário, n. 313). Vemos que “o valor da imagem não está na beleza da tinta”, diz Jesus a Faustina.

Tudo isso, Faustina confiava ao seu diretor. Ele estava muito surpreso pela profunda compreensão que ela tinha das verdades divinas. A sua capacidade de discuti-las com a perícia de um teólogo, fê-lo perceber que ela era realmente uma pessoa extraordinária. No entanto, visto que ela tomava tanto do seu tempo Pe. Sopocko instruiu Faustina para começar um diário detalhado.

A perspectiva de traduzir as conversas íntimas com Jesus em palavras duras no papel a assustava. Afinal, ela não havia escrito nada no caderno, desde aqueles três invernos de escola que teve. Havia muitos anos. Jesus, assim a instrui: “Escreve sobre a Minha misericórdia. Escrever sobre o maior mistério é encorajar as almas a confiar em mim. É agora a tarefa da tua vida inteira” (Diário, n. 400. 570. 965. 1147. 1693).

O Diário mostra que Santa Faustina tinha uma compreensão tão profunda dos mistérios divinos que a sua exatidão teológica e a precisão da linguagem que ela usou merece a nossa atenção especial.

O que Deus realmente quer que saibamos, através de Faustina, é a verdade de que Ele é misericórdia. E, a maior coisa para nós é sermos misericordiosos. A mentalidade de hoje parece opor-se a um Deus de misericórdia.

Muito importante e bela é o que nos diz Helen Hayes, ao comentar a vida de Santa Faustina. “A misericórdia, na verdade, é o amor em ação para os que não merece e para os que merecem. É justiça”. E, depois: “Em todo ser humano, em toda a sua personalidade, está a presença de Deus. Esperando para ser redimida e desenvolvida”.

Do começo ao fim do seu Diário Santa Faustina escreveu, equivalente a 600 páginas impressas. Ela escreveu decidida e objetivamente com poucas correções ou erros. Este foi um trabalho de fé. Santa Faustina sabia que mesmo a fé mais intensa seria inútil se não fosse colocada em prática.

Como sempre acontece na vida dos santo, entre os pobres espalhou-se a notícia de que deveriam ir a Faustina se quisessem experimentar bondade e dignidade. Assim, diz ela em seu Diário: “Jesus veio hoje à portaria na figura de um jovem pobre. Esse miserável jovem, com as vestes terrivelmente rasgadas, descalço e com a cabeça descoberta, estava com muito frio, porque o dia era chuvoso e frio. Pediu algo de quente para comer... (Diário, n. 1312-1313). Pois assim nos diz a Escritura, “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes (Mt 25, 40).

Santa Faustina escreveu seis cadernos que damos o nome de Diário. Alguns trazendo um tema. Vejamos a sua estrutura:

1º- Caderno – Misericórdia Divina na minha alma. O nome Diário e a assinatura.

2º- Caderno - Cantarei a Misericórdia do Senhor pelos séculos. Misericórdia Divina na minha alma. O nome Diário e a assinatura.

3º- Caderno – Cantarei a Misericórdia do Senhor; Assinatura e o nome da Congregação.

4º- Caderno – Sem título e sem a assinatura.

5º- Caderno – Sem título, com a assinatura e o nome da Congregação.

6º- Caderno – Pelos séculos glorificarei a Misericórdia de Deus. Com a assinatura e o nome da Congregação.

Também de extrema importância na vida de Santa Faustina foi o Terço da Misericórdia, ensinado por Jesus. (Diário, n. 474. 476. 482. 483. 811. 1791).

Coisa muito curiosa que ocorreu na vida de alguns santos, Santa Faustina também possuía. Que era o dom da bilocação, ou seja, a pessoa pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isso, parece impossível a nós, porém, para Deus, não. Vejamos em seu Diário como narrou a Santa um desses fatos: “Imediatamente me encontrei num lugar nebuloso, cheio de fogo e reparei que dentro das chamas havia uma enorme multidão de almas sofredoras. Essas almas rezavam com muito fervor, mas sem nada conseguirem; apenas nós as podemos ajudar. (...) O maior tormento que padeciam era o do ardente desejo de Deus. Vi a Mãe de Deus, que visitava as almas no Purgatório. Almas estas que chamam a Maria “Estrela do Mar.” Ela leva-lhes refrigério” (Diário, n. 20. 777. 1797-1798).

Santa Faustina foi uma verdadeira mística. Isso significa que ela se entregou de boa vontade para se identificar completamente com Cristo. Quanto mais o Espírito Santo transformava Faustina pelo que ela sofria, tanto mais Deus podia agir através dela.

Ela predisse a sua morte e também a Segunda Guerra Mundial. Seis meses mais tarde os aviões ingressam a fronteira polonesa. Diversas vezes os nazistas vieram ao convento de Cracóvia para expulsar as irmãs. Todas as vezes as irmãs iam ao túmulo de Santa Faustina para pedir a sua intercessão. Como ela havia predito, as ameaças dos invasores nunca se realizaram. No decorre da Guerra a Mensagem de Santa Faustina espalhou-se e tornou-se uma crescente fonte de energia especialmente para aqueles que estavam nos campos de concentração nazista. 

Desejo encerrar este texto com aquela importante e bela frase de Santa Faustina em que ela nos mostra todo seu amor por Jesus e por nós. Sinto bem que a minha missão não termina com a morte, mas começará com ela. Ó almas vacilantes, eu vos descortinarei o véu do céu para vos convencer da bondade de Deus, para que não machuqueis mais com a dúvida o Dulcíssimo Coração de Jesus. Deus é amor e Misericórdia (Diário, n. 281).

Que Santa Faustina interceda por todos nós junto a Deus e a Virgem Santíssima. Amém.


Página do Diário de Santa Faustina

Cadernos que compõe o Diário de Santa Faustina 



REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

KOWALSKA, Faustina Santa. Diário: A misericórdia divina na minha alma. 40ª Edição. [tradução: Prof. Mariano Kawka]. – Curitiba, Editora Mãe da Misericórdia, 2012.

REFERÊNCIAS AUDIOVISUAIS:

FILME: Documentário sobre a vida de Santa Faustina e a Divina Misericórdia.

(idealizador…,) [Documentário-vídeo], editora…, ano…, minutos…, DVD… [Comentado por Helen Hayes].

FILME: Santa Faustina Apóstola da Divina Misericórdia. [Produção: Telewizja Polska S.A 2009]. [Dirigido por: Jerzy Lukaszewicz]. Direitos autorais: Instituto Alberione – SP: Paulinas, 2013. 

Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9) 


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

BIOGRAFIA DE SANTA LÍOBA, O.S.B, ABADESSA (700-779)



Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 28 de novembro de 2018


INTRODUÇÃO 

A santa vida de Líoba foi bastante intensa, pois, ao sair de sua terra natal, a Inglaterra, a pedido do grande Bispo São Bonifácio, ela foi responsável pela vida monástica feminina na Alemanha, juntamente com as suas caras Irmãs da Abadia de Wimborne.

Ela nasceu em Wessex, sua mãe chamava-se Ebba, e era parenta de São Bonifácio. Desde a infância, Santa Líoba, foi entregue no Mosteiro de Wimborne, Dorsetshire sobre os cuidados da santa Abadessa Tetta, que era uma mulher de grande erudição e de uma vida espiritual intensa. A entrega foi feita devido uma promessa feita por seus pais a Deus, porque, eles, já chegando a uma idade avançada não tinham tido nenhum filho.

Quando consultamos o Martirológio Romano-Monástico, assim está escrito sobre Santa Líoba: “Em Schornsheim, perto de Mongúncia, aproximadamente em 782, a volta para Deus de Santa Líoba, Virgem. Parenta de São Bonifácio, deixou a Inglaterra, seu país natal, para fundar mosteiros na Germânia”. Quanto a data de sua passagem para Deus, temos o ano de 782 segundo o Martirológio Romano Monástico. Mabillon nos deixou o ano de 772 como a data de sua morte. No entanto, outras biografias nos dá o ano de 779.

Que a Santa Líoba seja para nós um exemplo de entrega total a Deus, mesmo diante de tantos anos que ela habitou na terra, trabalhando incansavelmente para o crescimento do Reino de Deus; pois, já se passaram mais de mil anos de seu nascimento, contudo, os seus feitos sempre estarão atuais em nossa sociedade que está tão sedenta de Deus e de virtudes. Portanto, peçamos sempre a ela sua intercessão. Amém.

Boa leitura!


A SANTA VIDA DE LÍOBA, O.S.B, ABADESSA (700-779)

Sua memória é celebrada em 28 de setembro.

Santa Líoba não é uma santa que ouvimos falar com frequência, por aí, pois, pela antiguidade do seu nascimento e por ser monja beneditina, faz dela, pelo menos em nosso Brasil, um tanto desconhecida.

Líoba é mais uma daquelas mulheres importantes e fortes anglo-saxônicas do século VIII. Se nos voltarmos para a Inglaterra deste século, veremos claramente mulheres embebidas no verdadeiro espírito do cristianismo, se apresentando com alegria para cooperar na grande obra de evangelização. Isso acontecia em todas as classes da sociedade. “Senhoras de nobre linhagem faziam especialmente notar pelo número e pelo zelo, que as levava a afrontar os perigos inerentes a uma tal empresa”. Muitas delas deixavam sua Pátria para levar o esplendor da Santa Cruz de Cristo às regiões ainda envolta nas trevas do paganismo. Mulheres fortes e incansáveis nos trabalhos civis e eclesiásticos.

Santa Líoba nasceu no ano 700 em Wessex, Inglaterra. Sua mãe chamava-se Ebba, a qual era parenta do Abade Beneditino São Bonifácio, O.S.B, (672-754), bispo e mártir. Este santo bispo sofreu o martírio em 05 de junho do ano de 754/55 em pleno trabalho de evangelização na Frísia. Seu corpo foi enterrado na Abadia Beneditina de Fulda, Mosteiro fundado por ele em 744. São Bonifácio é o mais famoso missionário, o qual goza, com justiça, do título de Apóstolo da Alemanha, pois, com zelo infatigável, pregou o Evangelho e abriu caminho à civilização e à cultura. São Bonifácio era monge beneditino inglês e foi enviado em Missão pelo Papa São Gregório Magno (540-604) para evangelizar a Alemanha. Lá, ele organizou a Igreja criando novos bispados e fundando Mosteiros.

Líoba, impressionada com a vida do Santo Bispo Bonifácio, tem o desejo de seguir mais de perto o Cristo. Nesse seu desejo, ela envia uma carta para São Bonifácio, pedindo-lhe que se lembre dela diante da evangelização a que foi designado. Assim, ela escreve: Ao Reverendíssimo Senhor Bispo Bonifácio”. Líoba, a última das servas de Cristo, saúda Bonifácio, seu muito amado em Cristo, que se acha revestido da maior dignidade do Senhor, a quem está ligada pelos laços de parentesco. [...]. Sou sua única filha e desejaria que me fosse permitido, embora indigna, considerar-vos como um irmão, no qual confio mais do que em qualquer outro de meus parentes. Envio-vos este pequeno presente, não que seja digno de vosso agrado, mas afim de que vos lembreis de minha humilde pessoa e que a distância não me apague completamente de vossa memória. Desejo também muito que esse presente estreite entre nós o laço de sincero afeto, para que perdure sempre (VIDA DE SANTA LÍOBA, 1914, p. 11). Nesta bela carta, vemos claramente o grande desejo da santa em trabalhar para o crescimento do Reino de Deus. Das correspondências entre os dois santos, apenas esta carta foi conservada.

Para a alegria de Líoba, São Bonifácio solicita a sua Abadessa Tetta, no ano 748 desejando envio de monjas para fundar um Mosteiro na Germânia e Líoba não podia ficar de fora dessa fundação. Pois, ele conhecia muito bem suas virtudes e erudição para tal empresa. Não era o desejo de Tetta, tirar do seu Mosteiro uma alma de grandes virtudes. Porém, atendeu ao pedido do Bispo. A grande preocupação da Abadessa Tetta era as   dificuldades que passariam suas filhas num país que ainda estava sendo evangelizado, bem como as dificuldades da longa viagem de navio que elas enfrentariam. Nesta viagem, foram também duas importantes santas da Ordem Beneditina; Santa Walburga, O.S.B (710-779), filha de São Ricardo rei da Inglaterra e Santa Tecla, O.S.B (+790) eram parenta de Líoba. A primeira, depois de passar dois anos sob o governo de Líoba, no Mosteiro de Bischofsheim (casa de bispo), esta foi enviada a dirigir o Mosteiro de Heidenheim fundado por seus dois irmãos, São Willibald e São Winibald. A segunda, depois de algum tempo foi enviada por São Bonifácio para o governo da Abadia de Kitzingen, no Main. “Seu nome não se acha na lista das Abadessas desta casa, mas supõe-se que ela seja a Abadessa designada pelo nome de “Heilga” ou a Santa (VIDA DE SANTA LÍOBA, 1914, p. 14).

Que alegria para Líoba, aquela viagem, a muito tempo desejada. E, mais ainda por ser enviada com aquelas que tinha grande afeto. Percebemos claramente que na vida dos santos existe uma ligação divina, porque a santidade é cativante.

Bastante interessante foi um sonho que Líoba teve em relação a sua vida. Sabemos que Deus, sempre mostra aos seus, a sua santa vontade em visões, sonhos, etc. Se formos a Sagrada Escritura, veremos bem este modo de agir de Deus, tanto no Antigo Testamento, quanto no Novo. Muitos não dão nenhuma importância aos sonhos, mas, neles, muitas e muitas vezes, Deus se revela. Vejamos alguns exemplos de sonhos enviados por Deus, nas Escrituras Sagrada.

No Antigo Testamento, vemos José revelando sonhos no Egito; o sonho do Faraó (Gn 41, 1-7), o sonho do copeiro e do padeiro do Faraó (Gn 40, 5-22), o sonho do próprio José (Gn 37, 5-11), o sonho de Jacó (Gn 28, 10-16), o de sonho Daniel (Dn 7, 1-28), o sonho do Rei Baltazar (Dn 4, 16-34) e tantos outros como: Gn 20, 3; 28, 10-16; 31, 10-13; 31, 24; 37, 5-11; 37, 19-20; 40, 5-23; 41, 1-7; 42, 9; 46, 2. Estes são apenas alguns sonhos que o Livro do Gênesis nos mostra entre tantos outros em toda a Escritura.

No Novo Testamento, podemos dar como exemplo, a visão de São José que é avisado em sonho pelo Anjo do Senhor, que Jesus foi gerado no ventre de Maria Santíssima pela força do Espírito Santo (Mt 1, 20-22) e, também outra passagem do mesmo Evangelho em que São José é avisado para fugir para a terra do Egito, livrando assim o menino Jesus que se encontrava em perigo de morte (Mt 2, 13-15). Igualmente é avisado em sonho no retorno do Egito para se estabelecer em Nazaré (Mt 2, 19-23). Os magos que são avisados em sonho que não retornem à presença do rei iníquo, Herodes, que desejava matar o menino Jesus (Mt 2, 12). Vejamos também a visão de São Pedro nos Atos dos Apóstolos ao ter aquela maravilhosa visão dos alimentos (At 10, 11). Igualmente em (At 12, 3-11), em que São Pedro é libertado da prisão por um Anjo enviado por Deus, etc. 

Pois bem! Os pais de Líoba eram muito religiosos e levavam uma vida santa e temente a Deus. Passados muitos anos sem ter filhos, pediam a Deus que lhe enviasse um filho para perpetuar sua descendência e, assim, mesmo na velhice, o bom Deus lhes presenteia com uma linda criança a futura santa. Tinne e Ebba, seus caros pais, nunca se cansaram de rezar e pedir a Deus o cumprimento de um desejo que a muitos anos lhes eram tão caro.

Portanto, numa noite, sua mãe teve um sonho em relação ao nascimento da filha Líoba. Assim foi o seu sonho revelador: “Sonhara que trazia em seu seio um sino de igreja e no momento em que estendia a mão para tomá-lo, o sino emitia doces e melodiosos sons. Ebba chamou sua fiel ama e narrou-lhe o sonho; a velha escrava, tomada de espírito profético, disse-lhe: “Dareis a luz a uma filha, que deveis consagrar ao serviço de Deus (VIDA DE SANTA LÍOBA, 1914, p. 5). Assim, Ebba prometeu que faria o sacrifício de entregar a filha e, algum tempo depois nasce-lhe uma filhinha a qual foi batizada e colocado o nome de Truthgeba, porém, sempre foi chamada de Leobgytha ou Líoba, que significa “bem-amada”, porque era a predileta de Deus. Uma dádiva. Por profetizar tão grande presente, após o cumprimento da promessa, a ama recebeu sua liberdade em recompensa.

Ainda muito pequena, Líoba é entregue por seus pais, na Abadia de Winborne sob os cuidados da Abadessa Tetta para que fosse instruída na vida espiritual e bem educada, por ser os Mosteiros lugares de grande cultura e vida espiritual intensa.

Interessante também foi o sonho que teve a própria Santa Líoba. Sonho, este, que resumia toda a sua santa vida. Assim, foi o seu sonho: “Parecia-lhe que um fio cor de fogo saia de sua boca; quanto mais se esforçava por tirá-lo, tanto mais e mais se prolongava, como se saísse do íntimo do seu coração. Tendo a mão cheia deste rico fio de seda, começou a enrola-lo em forma de um novelo, que se tornava cada vez maior, até que cansada de enrolar, adormeceu, vencida pela fadiga e a ansiedade (VIDA DE SANTA LÍOBA, 1914, p. 8).

Este sonho ficara tão vivo em sua memória, pois sabia que Deus queria dizer-lhe algo através dele. E, realmente, neste, resumia sua vida inteira. Que bondade, essa de Deus, para sua amada serva! Vemos o salmista cantar: “Eis que o olho de Iahweh está sobre os que o temem, sobre aqueles que esperam seu amor, para da morte libertar a sua vida e no tempo da fome fazê-los viver”. (Sl 33, 18-19).

Ao chegar a Alemanha, Líoba, logo é designada para ficar à frente da nova fundação em Bischofsheim. Pouco tempo após sua chegada, aparecem numerosas jovens a procura da vida monástica, devido a sua grande bondade, ficando sob os seus cuidados maternais e auxiliadas pelas suas companheiras que a seguiram da Abadia de Wimborne na Inglaterra. Com isso, conseguiram pôr em prática a observância da Regra de São Bento. Assim, no ardor e trabalhando incansavelmente, Santa Líoba faz a sua Páscoa (passagem / morte) com grande fama de santidade no dia 28 de setembro do ano de 779. Esta Santa fez muitos milagres em vida e bem mais após a sua morte.

Peçamos sempre a Santa Líoba a graça de amarmos verdadeiramente a Deus e nunca nos afastarmos de sua presença, trabalhando incansavelmente para o crescimento do seu Reino como ela mesmo viveu em toda a sua existência terrestre.

Rogai por nós Santa Líoba, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.


CARTA DE SANTA LÍOBA, O.S.B, 
A SÃO BONIFÁCIO, O.S.B, 
BISPO E MÁRTIR.

Esta carta da santa é a única que foi conservada

"Ao Reverendíssimo Senhor Bispo Bonifácio”.

Líoba, a última das servas de Cristo, saúda Bonifácio, seu muito amado em Cristo, que se acha revestido da maior dignidade do Senhor, a quem está ligada pelos laços de parentesco.

Rogo que vos digneis lembrar-vos de vossa amizade para com meu pai Tinne, habitante de Wessex, falecido a oito anos e para a alma de quem peço vossa intercessão junto a Deus. Recomendo-vos também minha Mãe Ebba que, como sabeis, vos está ligada pelos laços de parentesco. Sua vida passou-se no sofrimento; durante muito tempo prostrou-a o peso das enfermidades corporais. Sou sua única filha e desejaria que me fosse permitido, embora indigna, considerar-vos como um irmão, no qual confio mais do que em qualquer outro de meus parentes. Envio-vos este pequeno presente, não que seja digno de vosso agrado, mas afim de que vos lembreis de minha humilde pessoa e que a distância não me apague completamente de vossa memória. Desejo também muito que esse presente estreite entre nós o laço de sincero afeto, para que perdure sempre.

Suplico-vos, irmão bem-amado, ajudar-me com o escudo de vossas orações contra os assaltos de meu inimigo invisível. Peço-vos também que vos digneis corrigir esta carta tão mal redigida e não recuseis enviar-me algumas palavras, pelas quais ardentemente suspiro como prova de vosso fervor.

Procurei compor os seguintes versos, segundo as regras da metrificação poética, embora tenha pouca confiança em meu talento e somente deseje exercitar minha veia poética, ainda muito fraca, o que prova que nisto também preciso de vossa direção. Aprendi esta arte com Eadburga, que nunca cessa de meditar sobre a santa Lei de Deus.

Adeus! Vivei por muito tempo, sede feliz e rezai sempre por mim”.

(Seguem-se quatro linhas de versos em latim)

“Arbiter omnipotens, solus qui cuncta creavit,
In regno Patris semper qui lumine fulget,
Qua jugiter flagrans sic regnat gloria Christi,
Ilaesum servet semper te jure perenni.”







REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

MARTIROLÓGIO ROMANO-MONÁSTICO. Abadia de São Pierre de Solesmes / traduzido e adaptado para o Brasil pelos monges do Mosteiro da Ressurreição / Ponta Grossa, PR - Mosteiro da Ressurreição, edições, 1997.

VIDA DE SANTA LÍOBA. Traduzido do inglês e publicado pelas monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Maria em São Paulo. – São Paulo: Escolas Profissionais Salesianas, 1914.

Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9)

domingo, 16 de setembro de 2018

BIOGRAFIA DE SANTA HILDEGARD VON BINGEN, O.S.B, ABADESSA, VIRGEM E DOUTORA DA IGREJA (1098-1179).


A grande Abadessa Santa Hildegard von Bingen com sua mais importante Obra o SCIVIAS. 


Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador - BA - 17 de setembro de 2018


Ela podia ver coisas que eram invisíveis aos que a rodeavam; ela predizia o futuro, e seu campo visual era todo o tempo preenchido por uma estranha luminosidade que, mais tarde, ela chamou de “o reflexo da Luz vivente”. Nessa Luz, ela percebia uma variedade de figuras, desde formas humanas até modelos arquitetônicos sofisticados, que ela foi capaz de interpretar com a ajuda de uma “voz vinda do céu”. (HILDEGARDA, Scivias, 2015, p. 25).

Nosso Pai São Bento e sua irmã Santa Escolástica, com Santa Hildegard von Bingen

DADOS BIOGRÁFICOS

- Nascimento – No ano de 1098 em Bermersheim no condado de Spanheim, no vale do Reno, Alemanha.

- Falecimento – No dia 17 de setembro de 1179 no Mosteiro de Rupertsberg, Alemanha. Fundado por ela.

- Venerada – Pela Igreja Católica.

- Beatificação - Data ignorada.

Veneração pública autorizada em 1324 pelo papa João XXII.

- Canonização - No ano de 1584, em canonização administrativa autorizada pelo papa Gregório XIII, sem cerimônia solene.

- Principal templo - Igreja de Santa Hildegard, Eibingen, Alemanha.

- Festa litúrgica - Dia 17 de setembro.

- Doutora da Igreja – Dado em 07 de outubro de 2012, por Sua Santidade o Papa Bento XVI.


 
Abadia de Santa Hildegard von Bingen - Alemanha

Fachada e interior da Abadia de Santa Hildegard von Bingen - Alemanha 

Papa Eugênio III que pertencia a Ordem dos Cistercienses


VIDA DE SANTA HILDEGARD VON BINGEN, O.S.B, ABADESSA, VIRGEM E DOUTORA DA IGREJA.
(1098-1179)

Sua memória é celebrada em 17 de setembro

Falar de Santa Hildegard é um verdadeiro desafio, porque diante de sua monumental Obra e, tantos livros, artigos, revistas, livretos que sobre ela escreveram homens e mulheres de grandes conhecimentos é sempre pouco diante de sua grandeza de vida e erudição, pois, sempre quando nos debruçamos para ler e estudar as Obras da Santa, encontramos sempre coisas novas devido à grande iluminação que ela teve de Deus todo-poderoso.

Donde vem tanta sabedoria na vida de Hildegard? Já mencionei que veio do Deus todo-poderoso. Sim, sem dúvidas! É Deus quem nos dar tudo, no entanto, para recebermos essas suas graças, temos que buscá-las. Estendermos as nossas mãos, trazê-las a nós e guarda-las em nossos corações para assim podermos transmiti-las aos outros. Foi justamente isso que a Santa fez em toda a sua vida neste mundo. Ela não se esquivou diante de sua grande missão de cristã.

Outra questão de grande importância que devemos nos atinar em relação a sua grande erudição é, por ela se encontrar desde muito pequena num Mosteiro Beneditino, onde foi educada por uma grande figura, uma mulher extremamente inteligente e erudita. Sendo assim, ela transmite a pequena Hildegard seus conhecimentos, ensinando-a a ler a Bíblia latina, e especialmente os Salmos, a cantar o Ofício Monástico, ensina-lhe os segredos da medicina, música, etc. Esta figura, chamava-se Jutta, Abadessa do Mosteiro. Que, antes de sua morte, ocorrida no ano 1136, passa a Hildegard o seu governo empossando-a a frente do seu Mosteiro. Pois, para isso, a Abadessa Jutta a tinha preparado. Como já sabemos bem, os Mosteiros Beneditinos dão grande importância a leitura (Trabalho intelectual), ao trabalho manual e de modo especial a vida de Oração e a Lectio Divina (O estudo meditado da Palavra de Deus). Atentemos ao século da vida da Santa onde as pessoas não podiam ter contato com textos e outros tipos de trabalhos, principalmente a mulher. Lembremos bem que estamos na Idade Média.


Santa Hildegard nasceu no ano de 1098 em Bermersheim, no condado de Spanheim, no vale do Reno, Alemanha, filha do nobre casal Hildebert e Mechtilde, a décima criança, a qual foi destinada ao Mosteiro como dízimo a Deus, aos oito anos de idade, no eremitério da monja Jutta.

Do seu nascimento, até o ano de 1136, nada temos a seu respeito. O que conhecemos foi por causa da compilação de sua primeira e mais importante Obra, intitulada: SCIVIAS (Scito vias Domini) Conhece os Caminhos do Senhor, escrita entre os anos 1141 a 1151. Assim afirma Bárbara J. Newman na introdução do Scivias.

Tal como todos os profetas, ela estava profundamente preocupada com a história, e tanto em Scivias quanto no Liber divinorum operum, ela examina o curso da história da salvação do começo ao fim, desde a criação até o juízo final (HILDEGARDA, Scivias, 2015, p. 43).

Portanto, sem dúvidas alguma, essa Obra é um verdadeiro monumento da cristandade.

Por isso, a Abadessa Hildegard von Bingen, foi uma das mais brilhantes personalidades da Idade Média. Mais uma pérola de grande valor engastada na coroa da Ordem de São Bento. Era considerada a profetiza do Reno, pois com suas visões fazia as mais variadas profecias. Devido a sua grande sabedoria era constantemente consultada por muitos do clero e gente simples do povo. Bispos a chamava para pregar em suas catedrais para o seu clero, devido a sua iluminação; coisa que não podia uma mulher fazer em plena Idade Média. Por causa disso, foi muito odiada e perseguida por alguns membros do clero, por inveja e por ela mostrar-lhes os seus erros. Porém, também amada por muitos outros que a via como justa e santa. A Abadessa era bastante firme em suas colocações e repreensões porque não falava por si mesma, mas o que mandava o seu Senhor. Em uma das suas muitas cartas, podemos ver um tom duro, mesmo, sendo esta, dirigida ao Papa. Assim ela escreveu ao Papa Anastácio IV, que foi eleito em 1153: “Porque não cortais a raiz do mal que sufoca a erva boa? Por que negligenciais a justiça que vos foi confiada? Como permitais que esta filha de Rei seja jogada por terra e que seus diademas e ornamentos de sua túnica sejam destruídos pela grosseria dos homens? Vós que pareceis ter sido constituído pastor, levantai-vos e correi em direção à justiça de modo que, diante do Médico divino, não sejais acusado de não ter purificado os teus campos das imundícies. Vós, homem, mantende-vos no bom caminho e sereis salvo!”. Neste trecho está muito claro a preocupação da Santa em relação a caminhada da Igreja para o crescimento do Reino de Deus na terra. Ela repreendia qualquer pessoa que não estivesse andando nos caminhos de Deus. Principalmente o clero.

Tudo o que a santa falava e escrevia, não era fruto de seus estudos, mas provinha unicamente de Deus. Com suas mais variadas visões era constantemente iluminada. Vejamos o que nos diz a própria Santa Hildegard na sua primeira e mais importante Obra o SCIVIAS:

Eis aqui! No quadragésimo terceiro ano (43 anos) de meu percurso terrestre, quando eu estava observando com grande temor e trêmula atenção a visão celeste, vi um grande esplendor no qual ressoava uma voz do Céu, a dizer-me: Ó frágil humano, cinza das cinzas, imundície da imundície! Dize e escreve o que vês e ouves. Contudo, visto que és tímido no falar e simples na exposição, e iletrado no escrever, fala e escreve estas coisas não por uma boca humana e não pela compreensão da invenção humana, e por exigência de composição humana, mas como as vês e as ouves no alto dos lugares celestes, nas maravilhas de Deus. Explica estas coisas de tal modo que ouvinte, recebendo as palavras de seu instrutor, possa expô-las naquelas palavras, de acordo com aquela vontade, visão e instrução. Assim, portanto, ó humano, fala estas coisas que vês e ouves. E escreve-as não por ti mesmo ou por qualquer ser humano, mas pela vontade daquele que sabe, vê e dispõe de todas as coisas no segredo de seus mistérios. E mais uma vez ouvi a voz do céu dizendo-me: “Fala, portanto, destas maravilhas e, sendo assim instruído, escreve-as e fala” (HILDEGARDA, Scivias, 2015, p. 95).

Isso, ela escreve abrindo a sua grande Obra o Livro SCIVIAS. Portanto, diante desse belo texto percebemos com clareza a sua seriedade nas exposições seguintes que são as suas visões extraordinárias.

A santa Beneditina ainda é pouco conhecida. Suas magnificas Obras ainda são pouco estudadas. Ela falou e escreveu praticamente sobre todas as áreas do conhecimento. Teologia, filosofia, psicologia, botânica, medicina, música, artes, teatro, o cosmos, os minerais, etc. Nada ficou indiferente a sua visão. É, por esta razão, que o conjunto de sua Obras chamamos de: O Corpus Hildegardiano.

Santa Hildegard sabia muito bem lidar com a medicina, era uma ilustre musicista, grande compositora. “A música para ela era a suprema corporização da alegria [...] Hildegard provavelmente compunha enquanto cantava a liturgia durante os Ofícios. Como no caso do latim, suas composições são diferentes das da sua época e muitas vezes excepcionais”. Ela tinha em mente que a música era ao mesmo tempo terrena e celestial. Compôs também persas teatrais de grande beleza artística. Tinha o manejo da medicina. “Na Alemanha, ela ainda goza de vasto culto popular, e a Abadia de Eibingen tornou-se um centro de pesquisa e peregrinação. Herboristas redescobriram algumas de suas prescrições e começaram a usá-las em experiências na prática da homeopatia moderna”. Exerceu também muitas outras atividades que não eram bem aceitas em plena Idade Média. Verdadeiramente, ela era uma mulher além do seu tempo. Por isso, foi bastante perseguida por alguns membros do clero e até por algumas de suas filhas monjas, que não aceitavam o seu modo de vida. Para estes, ela estava transgredindo a Regra de São Bento bem como as normas eclesiásticas.

Quando começou a escrever suas visões, quase foi punida pela Igreja. Por isso, ela faz um apelo ao ilustre e grande São Bernardo de Claraval, a figura mais influente desse período. São Bernardo, ao analisar a Obra da Santa, logo reconhece em seus escritos, intitulado: SCIVIAS, a mão de Deus, agindo na alma de sua serva e, assim, defende-a de todos os perseguidores. Com apoio de São Bernardo e do monge Volmar de Disibodenberg, bem como de seu bispo Henrique de Mongúncia, a fama de Hildegard chegou até o Papa Eugênio III que se encontrava em Tréveris a presidir um sínodo de bispos. Quando o Pontífice Eugênio III teve contato com a Obra da Abadessa, logo, concede a sua aprovação. Corria o inverno do ano de 1147-48. A Obra Scivias, ainda estava inacabada quando o Papa recebeu a cópia. E, tendo esta, deixado em sua alma uma impressão divina, o próprio Papa desejou ler em público, diante dos bispos reunidos. Em seguida, envia a Hildegard uma carta de saudação e bênção apostólicas, para que desse continuidade à Obra.

Por ela não ter tempo devido ao seu cargo de Abadessa, duas personagens de grande importância na sua vida foi o monge Volmar de Disibodenberg, seu professor e, posteriormente, seu secretário e amigo íntimo, e sua assistente a monja Richardis de Stade, pela qual Hildegard tinha predileção. Estas duas figuras depois da morte da Abadessa Jutta, ocorrida no ano 1136, a apoiaram de modo pleno. Por isso, o grande amor de Hildegard por eles.

Quanto às visões de Santa Hildegard, estas têm um cunho singular. Pois, as visões dos outros santos deixam para nós margem para uma interpretação, enquanto as de Hildegard não. Ela, descreve o que ver e ouve, transmitindo com fidelidade o que Deus pede que seja transmitido. Escutemos o que nos diz sobre suas visões:

As visões que tive não as percebi em sonhos, ou no sono, ou em delírio, ou pelos olhos do corpo, ou pelos ouvidos do ser exterior, ou em lugares ocultos; recebi-as, pois, estando desperta e enxergando com mente pura e com os olhos e ouvidos do ser interior, em lugares abertos, conforme Deus o queria. Com isso poderia ser e é difícil para a carne mortal compreender (HILDEGARDA, Scivias, 2015, p. 96).

E prossegue em sua exposição:

Eu, porém, embora visse e ouvisse estas coisas, recusei-me escrever por muito tempo, em meio a dúvida e à má opinião e à diversidade das palavras humanas, não com obstinação, mas no exercício da humildade, até que, rebaixada pelo flagelo de Deus, cair num leito de enfermidade; então, impulsionada, enfim, por muitas doenças, e pelo testemunho de certa nobre serva de boa conduta (a irmã Richardis de Stade) e daquele homem a quem busquei secretamente e encontrei, (o monge Volmar de Disibodenberg), pus minha mão a escrever. Enquanto eu o fazia, senti, como aludi anteriormente, a imensa profundidade da explanação escriturística; e, reerguendo-me da enfermidade pela força que recebi, levei esta obra à conclusão – embora apenas precariamente – em dez anos (HILDEGARDA, Scivias, 2015, p. 97-98).

Nesta parte onde ela nos diz: “(...) até que, rebaixada pelo flagelo de Deus, cair num leito de enfermidade; então, impulsionada, enfim, por muitas doenças”, acontece um fato muito interessante. Certa vez, ficando muito adoentada, a santa entra num estado de morte a ponto de toda a comunidade ter a certeza da sua páscoa. E, assim, as monjas preparam o funeral da sua querida Abadessa. Porém, o Deus todo-poderoso tinha planos ainda maiores para a sua amada serva. No final das exéquias, Hildegard retorna do seu grande êxtase, deixando toda a comunidade ali presente muito alegre, mas, também perplexa diante de tão grande mistério.

Interessante é, que, Hildegard, cita as personagens da sua época na declaração de abertura do seu livro SCIVIAS:

Estas visões aconteceram e estas palavras foram escritas nos dias de Henrique, arcebispo de Mongúncia, e de Conrado, rei dos romanos, e de Cuno, abade de Disibodenberg, sob o Papa Eugênio (HILDEGARDA, Scivias, 2015, p. 98).

E, fechando a sua declaração diz:

E promulguei e escrevi estas coisas não pela invenção de meu coração ou da de qualquer outra pessoa, mas como pelos mistérios secretos de Deus, eu ouvi-as e recebi-as nos lugares celestiais. E, mais uma vez, ouvia a voz do céu dizendo-me: “Grita, portanto, e escreve assim!” (HILDEGARDA, Scivias, 2015, p. 98).

Quando nos deparamos com a vida de Hildegard, vemos uma apaixonada por Deus, pela sua Ordem Beneditina, por todas as criaturas. Se assim não fosse, jamais ela teria conseguido fazer tanto bem a humanidade. Sabemos bem, que, qualquer alma que está em sintonia com Deus, também está em sintonia com toda a sua criação. Foi assim a vida desta beneditina apaixonada. Mesmo sendo ela uma Santa que viveu no século XII, os seus ensinamentos são sempre atuais.

Informados os fiéis da fama de santidade da Abadessa de Bingen, milhares de pessoas desejam algo da santa, viajando em direção ao seu Mosteiro. A fama de Hildegard foi tão longe que acorriam pessoas de toda a França para ouvir seus sábios conselhos, bem como os do seu país de origem a Alemanha.

Esta grande alma já cansada desta vida de dores que nos separa de Deus, devido aos nossos pecados, parte para Ele no dia 17 de setembro no ano 1179, acontecendo neste dia e nos dias posteriores à sua páscoa, muitos fenômenos milagrosos e prodigiosos. Devido as invasões e saques dos Bárbaros aos Mosteiros que foram fundados por ela, em número de três, muitas coisas da sua vida se perderam. Apenas o Mosteiro de Eibingen o terceiro que fundou foi o único que se salvou dos saques e das guerras. Quanto a sua morte, temos um relato muito importante de uma das monjas narrando como se deu o seu trânsito: “Nossa boa Mãe, depois de combater piedosamente pelo Senhor, tomada de desgosto da vida presente, desejava cada dia mais evadir-se desta terra para unir-se com Cristo. Sofrendo de sua enfermidade, ela passa alegremente deste século para o Esposo celeste, no octogésimo ano da sua existência, no dia 17 de setembro de 1179”.

Durante a missa de abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, o Papa Bento XVI proclamou a grande Abadessa Beneditina Santa Hildegard von Bingen; Doutora da Igreja. Será a quarta mulher Doutora da Igreja Universal depois de Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Sena e Santa Teresa de Lisieux. Assim, proclama o Papa em seu discurso:

“Nós, acolhendo o desejo de muitos Irmãos no Episcopado e de inúmeros fiéis do mundo inteiro, depois de ter recebido o parecer da Congregação para as Causas dos Santos, depois de ter refletido longamente e ter alcançado uma plena e segura convicção, com a plenitude da autoridade apostólica declaramos São João de Ávila, sacerdote diocesano, e Santa Hildegarda de Bingen, monja professa da Ordem de São Bento, Doutores da Igreja Universal, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. (Da Carta Apostólica de proclamação de Santa Hildedard como Doutora da Igreja, por Sua Santidade o Papa Bento XVI em 7 de outubro de 2012).

Diante de tantos milagres concedidos pelo bom Deus a humanidade por meio da intercessão de Santa Hildegard, peçamos sempre nas horas de dificuldades que, ela vele sempre por cada um de nós, que ainda vivemos neste mundo, a lutar por nossa salvação eterna.

Santa Hildegard, rogai por nós. Amém.


ALGUNS  MOMENTOS IMPORTANTES DA VIDA DA SANTA

Santa Hildegard ainda criança sendo entregue pelos seus pais no Mosteiro aos cuidados da Abadessa Santa Jutta, mulher de grande erudição.


Santa Hildegard saindo com suas monjas para fundar um Mosteiro

Santa Hildegard atendendo aqueles que vem ao seu encontro buscando alívio do corpo de da alma.

Santa Hildegard diante do Imperador o Barba Roxa que a escutava e a respeitava.


Morte de Santa Hildegard em 07 de setembro de 1179. 
E as monjas contemplando o milagre da cruz que apareceu no céu e iluminou a noite no dia de sua morte. 

REFERÊNCIAS

BINGEN, Hildegarda, Santa. Scivias: (Scito vias Domini): conhece os caminhos do senhor / Santa Hildegarda; tradução: Paulo Ferreira Valério. – São Paulo: Paulus, 2015. (Coleção amantes do mistério). 

http://www.hildegard-society.org/2015/05/o-cohors-milicie-antiphon.html site das músicas- Hildegard Von Bingen. Acesso em: 26/06/2015.




Maria Carmen Gomes Martiniano de Oliveira. A peregrinação da alma no Scivias de Hildegard de Bingen: criação, queda, redenção e salvação.

Norma Abreu Telles. Hildegard von Bingen: estudos feministas, 2010 - PUC-SP.

PERNOUD, Régine. Hildegard de Bingen. A consciência inspirada do século XII. [Tradução: Eloá Jacobina]. – Rio de Janeiro: Rocco, 1996.


Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57, 9)