sábado, 7 de abril de 2018

SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA, DIA DEDICADO A MISERICÓRDIA DIVINA.









Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 08 de abril de 2018

“A humanidade não encontrará a paz enquanto não se voltar, com confiança, para a Minha misericórdia” (Diário, nº 300).

INTRODUÇÃO  

Neste dia, de modo especial, está aberto o Sacratíssimo Coração de Jesus para atender a todos aqueles que invocarem com confiança o seu Santíssimo nome e implorar a sua infinita Misericórdia. Foi o próprio Jesus que disse a sua serva Santa Faustina Kowalska (1905-1938):

Desejo que festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores. Neste dia, estão abertas as entranhas da minha Misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da Minha misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das culpas e das penas. Neste dia, estão abertas todas as comportas divinas, pelas quais fluem as graças. Que nenhuma alma tenha medo de se aproximar de Mim, ainda que seus pecado sejam como o escarlate. A Minha misericórdia é tão grande que, por toda a eternidade, nenhuma mente, nem humana, nem angélica a aprofundará. Tudo o que existe saiu das entranhas da Minha misericórdia. Toda a alma contemplará em relação a Mim, por toda a eternidade, todo o meu amor e a Minha misericórdia. A Festa da Misericórdia saiu das Minhas entranhas. Desejo que seja celebrada solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa. A humanidade não terá paz enquanto não se voltar à fonte da Minha misericórdia (Diário, nº 699).

Após esse mandato do Senhor poderia calar-me porque tudo já foi dito dessa importante festa. Bastaria apenas este parágrafo para mostrar-lhes a grandeza dessa festa do Coração misericordioso de Jesus. No entanto, desejo falar-lhes um pouco mais sobre esta Sagrada Festa.

Boa leitura!


A DEVOÇÃO A JESUS MISERICORDIOSO

Na hora em que mais necessita a humanidade de um socorro, o bom Deus nos envia a sua ajuda do céu. Desde o início do mundo, Ele sempre está atento às nossas necessidades, mesmo diante de nossa indignidade. Porque, Ele é, pura Misericórdia!

A primeira aparição de Jesus misericordioso realizou-se no ano de 1931. Três anos depois foi pintada a sagrada imagem de Jesus misericordioso pelo pintor Eugênio Kazimierowski. A imagem trazendo a inscrição “Jesus, eu confio em Vós. Inscrição pedida pelo próprio Cristo a Santa Faustina.

Para todos aqueles que tiverem devoção a sua insondável Misericórdia, Jesus faz a Santa Faustina um grande número de promessas. Em uma destas ocasiões, assim Ele fala a Santa:

Escreve que quanto maior a miséria da alma, tanto mais direito tem à Minha misericórdia, e estimula todas as almas à confiança no inconcebível abismo da Minha misericórdia, porque desejo salvá-las todas. A fonte da Minha misericórdia foi na cruz aberta com a lança para todas as almas, não exclui a ninguém (D. n. 1182).

Em outro lugar diz:

As almas que divulgam o culto da Minha misericórdia, Eu as defendo por toda a vida como uma terna mãe defende seu filhinho e, na hora da morte não serei juiz para elas, mas sim o Salvador Misericordioso (D. n. 1075).

Em relação a sua Sagrada Imagem, Ele assim pede a Santa Faustina:

Pinta uma Imagem de acordo com o modelo que estás vendo, com a inscrição: Jesus, eu confio em Vós. Desejo que esta Imagem seja venerada, primeiramente, na vossa capela e, depois, no mundo inteiro. Prometo que a alma que venerar esta Imagem não perecerá. Prometo também, já aqui na terra, a vitória sobre os inimigos e, especialmente, na hora da morte. Eu mesmo a defenderei como Minha própria glória (D. n. 47-48).

E, prossegue:

“Ofereço aos homens um vaso, com o qual devem vir buscar graças na fonte da misericórdia. O vaso é a Imagem com a inscrição: Jesus, eu confio em Vós” (D. n. 327).

Atendendo ao pedido do seu diretor espiritual, Faustina pergunta a Jesus qual é o significado da Imagem e Jesus lhe explica:

Os dois raios representam o sangue e a água: o raio pálido significa a Água que justifica as almas; o raio vermelho significa o Sangue que é a vida das almas. Ambos os raios jorraram das entranhas da Minha misericórdia, quando na cruz, o meu Coração agonizante foi aberto pela lança. Estes rios defendem as almas da ira de meu Pai. Feliz aquele que viver à sua sombra, porque não será atingido pelo braço da justiça de Deus. (D. n. 299).

E prossegue: “O meu olhar nessa Imagem, é o mesmo que eu tinha na cruz” (D. n. 326). E continua em sua bondade a nos conceder graças por meio dela. “Por meio desta Imagem concederei muitas graças às almas. Ela deve lembrar as exigências da Minha misericórdia, porque mesmo a fé mais forte de nada serve sem as obras” (D. n. 742). Diante da queixa de Santa Faustina em relação a pintura, que não ficou do seu gosto, pois, dizia ela, a Jesus: “Quem te pintará como sois?” Jesus lhe responde: “O valor da Imagem não está na beleza da tinta nem na habilidade do pintor, mas na Minha graça” (D. n. 313). Óh! Quanta bondade do Senhor para conosco!

Também foi ensinado um terço a Santa Faustina, por Jesus, para que possamos pedir misericórdia para nós e para o mundo inteiro (D. n. 475). Esse terço foi ensinado em 03 de setembro de 1935. Jesus assim fala a Santa:

Pela recitação deste Terço agrada-Me dar tudo o que Me peçam. Quando os pecadores empedernidos o recitarem, encherei de paz as suas almas, e a hora da morte deles será feliz. Escreve isto para as almas atribuladas: […]. Escreve que, quando recitarem esse Terço junto aos agonizantes, Eu Me colocarei entre o Pai e a alma agonizante não como justo Juiz, mas como Salvador misericordioso (D. n. 1541, 1731, 475, 687, 811).

Em outra parte Jesus assim promete a todos nós:

Defendo toda alma que recitar esse terço na hora da morte, como se fosse a Minha própria glória, ou quando outros o recitarem junto a um agonizante, eles conseguem a mesma indulgência. Quando recitam esse terço junto a um agonizante, aplaca-se a ira de Deus, a misericórdia insondável envolve a alma (D. n. 811).

No Diário de Santa Faustina Kowalska, Jesus pede insistentemente por várias vezes que seja instituída a Festa da sua insondável Misericórdia, dando até o dia a ser celebrada esta Festa quando diz: “Desejo que seja celebrada solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa (Diário, nº 699). E, assim, foi instituído o Domingo da Divina Misericórdia. A confirmação definitiva do Culto da Misericórdia Divina foi dada no dia 17 de agosto do ano de 2002, com a consagração do Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia, Polônia, pelo Sumo Pontífice, São João Paulo II. Na celebração da dedicação do Santuário, dizia o santo Papa a multidão de fiéis devotos da Misericórdia:

“Caríssimos irmãos e irmãs: Repito essas palavras simples e sinceras de Santa Faustina, para adorar juntamente com ela e com todos vós o mistério inconcebível e insondável da Misericórdia de Deus. Com ela, queremos que não existe para o homem outra fonte de esperança fora da Misericórdia de Deus. Desejamos repetir com fé: Jesus eu confio em Vós!” (L’Osservatore Romano, n. 34 – 24 de agosto de 2002, p. 3.7).

Jesus se revelou a Santa Faustina em relação a esta Festa 15 vezes. Daí podemos perceber a grandeza de tal comemoração. Certa vez ele lhe diz: “O Meu Coração se alegra com essa Festa” (Diário, nº 998). Pois esta celebração está ligada ao mistério da Redenção. Santa Faustina assim escreve em seu Diário: “Agora vejo que a obra da Redenção está ligada com a obra da misericórdia que o Senhor está exigindo” (Diário, nº 89).

Para esta, Festa Jesus pede que seja celebrada uma (cfr.) Novena e que seja iniciada na Sexta-feira Santa para que assim seja concluída na vigília do domingo após a Santa Páscoa. Com isso, esta Festa também traz um cunho de devoção particular.

Esta Novena é um pouco diferente das que conhecemos. Não é uma série de orações nas quais estão explícitas as nossas necessidades particulares. Nela, não rezamos exclusivamente por nós mesmos, mas segue uma ordem de pedidos que foram dados pelo próprio Jesus Cristo. Esta Novena traz na sua inspiração a maneira de rezar da Igreja. Uma maneira universal de rezar. Esta Novena foi pedida pelo Senhor que fosse recitada em preparação à Festa de sua misericórdia, “para a conversão do mundo inteiro de modo que toda a alma conheça a Misericórdia do Senhor e glorifique a sua infinita bondade”.

Santa Faustina assim escreve em seu diário: “Novena à Divina Misericórdia que Jesus me mandou escrever e rezar antes da Festa da Misericórdia. Começa na sexta-feira santa. (D. 1209).

Cada dia da Novena é iniciada com uma intenção particular dada pelo próprio Cristo diante da queixa feita por Santa Faustina que lhe diz que não sabia como iniciar uma novena. Com isso, Jesus a instrui na compilação da sagrada Novena:

Desejo que, durante estes nove dias, conduzas as almas à fonte da Minha misericórdia, a fim de que recebam força, alívio e todas as graças de que necessitam nas dificuldades da vida e, especialmente na hora da morte. Cada dia conduzirás ao Meu Coração um grupo diferente de almas e as mergulharás nesse oceano da Minha misericórdia. Eu conduzirei todas essas almas à Casa de Meu Pai. Procederás assim nesta vida e na futura. Por Minha parte, nada negarei àquelas almas que tu conduzirás à fonte da Minha misericórdia. Cada dia pedirás a Meu Pai, pela Minha amarga Paixão, graças para essas almas.

Eu respondi: Jesus, não sei como fazer essa novena e que almas conduzir em primeiro lugar ao Vosso Misericordiosíssimo Coração. E respondeu-me Jesus que me dirá, dia por dia, que almas devo conduzir ao Seu Coração (D. n. 1209).

Esta Novena aparentemente é bastante simples para quem não dar uma devida atenção às palavras nela, contidas. Porém, para quem conhece um pouco de Teologia, percebe de imediato, que esta traz um cunho teológico de grande peso e profundidade teológica.

Vejamos como foi estruturada essa Novena. Cada dia se inicia com a intenção dada por Jesus misericordioso. Em seguida Santa Faustina faz uma oração dirigida a Jesus misericordioso, depois uma pequena reflexão sobre a Misericórdia do Senhor e, por fim, outra oração dirigida ao Pai eterno, contendo nessa a necessidade dada pelo Cristo ao iniciá-la. Observemos abaixo a estrutura do primeiro dia. Os oito dias seguintes trazem a mesma estrutura.


ESTRUTURA DA NOVENA



PRIMEIRO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me a humanidade inteira, especialmente todos os pecadores e mergulha-os no oceano da Minha misericórdia. Com isso Me consolarás na amarga tristeza em que Me afunda a perda das almas.

(Orações de Santa Faustina)
Misericordiosíssimo Jesus, de quem é próprio ter compaixão de nós e nos perdoar, não olheis os nossos pecados, mas a confiança que depositamos em Vossa infinita bondade. Acolhei-nos na mansão do vosso compassivo Coração e nunca nos deixeis sair dele. Nós vo-lo pedimos pelo amor que Vos une ao Pai e ao Espírito Santo.

Ó poder da misericórdia Divina,
Socorro para o homem pecador,
Vós sois o oceano de misericórdia e de amor,
E ajudais a quem Vos pede humildemente.

Eterno Pai, olhai com misericórdia para toda humanidade, encerrada no Coração compassivo de Jesus, mas especialmente para os pobres pecadores. Pela Sua dolorosa Paixão, mostrai-nos a Vossa misericórdia, para que glorifiquemos a onipotência da Vossa misericórdia, por toda a eternidade. Amém.

SEGUNDO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me as almas dos sacerdotes e religiosos e mergulha-as na Minha insondável misericórdia. Elas Me deram força para suportar a amarga Paixão. Por elas, como por canais, corre para a humanidade a Minha misericórdia.

- Oração de Santa Faustina a Jesus misericordioso;

- Reflexão de Santa Faustina sobre a Misericórdia do Senhor;

- Oração de Santa Faustina dirigida ao Pai eterno.

TERCEIRO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me todas as almas piedosas e fiéis e mergulha-as no oceano da Minha misericórdia. Estas almas consolaram-Me na Via-sacra; foram aquela gota de consolações em meio ao mar de amarguras.

- Oração de Santa Faustina a Jesus misericordioso;

- Reflexão de Santa Faustina sobre a Misericórdia do Senhor;

- Oração de Santa Faustina dirigida ao Pai eterno.

QUARTO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me os pagãos e aqueles que ainda não Me conhecem e nos quais pensei na minha amarga Paixão. O seu futuro zelo consolou o meu Coração. Mergulha-os no mar da Minha misericórdia.

- Oração de Santa Faustina a Jesus misericordioso;

- Reflexão de Santa Faustina sobre a Misericórdia do Senhor;

- Oração de Santa Faustina dirigida ao Pai eterno.

QUINTO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me as almas dos Cristãos separados da Unidade da Igreja e mergulha-as no mar da Minha misericórdia. Na minha amarga Paixão dilaceravam o Meu corpo e o Meu Coração, isto é, a Minha Igreja. Quando voltam à unidade da Igreja, cicatrizam-se as minhas Chagas e dessa maneira eles aliviam a Minha paixão.

- Oração de Santa Faustina a Jesus misericordioso;

- Reflexão de Santa Faustina sobre a Misericórdia do Senhor;

- Oração de Santa Faustina dirigida ao Pai eterno.

SEXTO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me as almas mansas, assim como as almas das criancinhas, e mergulha-as na Minha misericórdia. Estas almas são as mais semelhantes ao meu Coração. Elas reconfortaram-Me na minha amarga Paixão da minha agonia. Eu as vi quais anjos terrestres que futuramente iriam velar junto aos meus altares. Sobre elas derramo torrentes de graças. Só a alma humilde é capaz de aceitar a minha graça; às almas humildes favoreço com a minha confiança.

- Oração de Santa Faustina a Jesus misericordioso;

- Reflexão de Santa Faustina sobre a Misericórdia do Senhor;

- Oração de Santa Faustina dirigida ao Pai eterno.

SÉTIMO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me as almas que veneram e glorificam de maneira especial a Minha misericórdia e mergulha-as na Minha misericórdia. Estas almas foram as que mais sofreram por causa da minha Paixão e penetraram mais profundamente no meu espírito. Elas são a imagem viva do meu Coração compassivo. Estas almas brilharão com especial fulgor na vida futura. Nenhuma delas irá ao fogo do Inferno; defenderei cada uma delas de maneira especial na hora da morte.

- Oração de Santa Faustina a Jesus misericordioso;

- Reflexão de Santa Faustina sobre a Misericórdia do Senhor;

- Oração de Santa Faustina dirigida ao Pai eterno.

OITAVO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me as almas que se encontram na prisão do Purgatório e mergulha-as no abismo da Minha misericórdia; que as torrentes do meu Sangue refresquem o seu ardor. Todas estas almas são muito amadas por Mim, pagam as dívidas à Minha justiça. Está em teu alcance trazer-lhes alívio. Retira do tesouro da Minha Igreja todas as indulgências e oferece-as por elas. Oh, se conhecesses o seu tormento, incessantemente oferecerias por elas a esmolas do espírito e pagarias as suas dívidas à Minha justiça.

- Oração de Santa Faustina a Jesus misericordioso;

- Reflexão de Santa Faustina sobre a Misericórdia do Senhor;

- Oração de Santa Faustina dirigida ao Pai eterno.

NONO DIA

(Palavras de Jesus)
Hoje, traze-Me as almas tíbias e mergulha-as no abismo da Minha misericórdia. Estas almas ferem mais dolorosamente o meu Coração. Foi da alma tíbia que a minha Alma sentiu repugnância no Horto. Elas levaram-Me a dizer: Pai afasta de Mim este cálice, se assim for a vossa vontade. Para elas, a última tábua de salvação é recorrer a Minha misericórdia.

- Oração de Santa Faustina a Jesus misericordioso;

- Reflexão de Santa Faustina sobre a Misericórdia do Senhor;

- Oração de Santa Faustina dirigida ao Pai eterno. 





Terço da Misericórdia Divina


Terço que foi ensinado por Jesus a Santa Faustina Kowalska para ser rezado nas contas do Rosário. 


“No começo dirás as seguintes orações:

Pai-nosso…

Ave, Maria…

Creio em Deus Pai…

Nas contas de Pai Nosso, dirás as seguintes palavras:
Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e dos do mundo inteiro.

Nas contas da Ave-Maria rezarás as seguintes palavras:
Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro.

No fim, rezarás três vezes estas palavras:
Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro” (Diário, 476). 





REFERÊNCIAS

KOWALSKA, Faustina Santa. Diário: A misericórdia divina na minha alma. 40ª Edição. [tradução: Prof. Mariano Kawka]. – Curitiba, Editora Mãe da Misericórdia, 2012.


Ut In Omnibus Glorificetur Deus
(RB 57, 9)


sexta-feira, 23 de março de 2018

BULA “INTER GRAVISSIMAS CURAS” PARA A CRIAÇÃO DA CONGREGAÇÃO BENEDITINA BRASILEIRA DA ORDEM DE SÃO BENTO





Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 13 de março de 2018

INTRODUÇÃO 

A Bula “INTER GRAVISSIMAS CURAS” do Sumo Pontífice Leão XII (1760-1829), dada no dia 1º de julho do ano do Senhor de 1827 sob o Patrocínio de Nosso Pai São Bento é um documento importantíssimo para a nossa Ordem no Brasil, porque foi através dessa Bula que se dá o desligamento da Venerável Congregação Lusitana, fundada em 1569 pelo Papa Pio V, que possuía Sede no Mosteiro de São Martinho de Tibães, Portugal, criando assim a Congregação Beneditina Brasileira

Até esta data de 1º de julho de 1827, todos os Abades e Superiores da Ordem no Brasil eram eleitos e nomeados na Junta abacial que acontecia no Mosteiro de Tibães de três em três anos. Com isso, devido a distância entre estes países, havia diversas dificuldades em muitas questões de administração dos Mosteiros brasileiros e também na parte espiritual dos monges. Saibam que não foi fácil o desligamento da Congregação Lusitana; mais, devidos aos rogos do Imperador D. Pedro I e outros insignes Prelados, o Sumo Pontífice, Leão XII, atendeu aos rogos dos que aqui se encontravam: “Neste sentido apresentou-Nos os seus especiais empenhos o Nosso mui querido filho em Cristo, Pedro I, Imperador do Brasil, por intermédio do amado filho M. Francisco Corrêa Vidigal, seu Ministro plenipotenciário perante Nós e a Sé Apostólica. Nós, portanto, considerando a distância dos lugares, havendo o oceano atlântico de permeio, desejando prover ao bem a dita Ordem e Congregação, e condescender aos desejos do egrégio Imperador, em virtude de ciência certa, de madura deliberação e do pleno poder Apostólico, feita primeiro a absoluta desmembração e separação da Congregação Lusitana da Ordem de São Bento, erigimos e constituímos pela presente Carta a nova Congregação da mesma Ordem de São Bento, a chamar-se dora avante brasileira, havendo de formar-se de todos e quaisquer mosteiros do Império brasileiro, com as mesmas leis, direitos, privilégios e prerrogativas, contidos e expressos na mencionada Carta do Papa Clemente X, com a inteira faculdade de celebrar Capítulos Gerais a bem não somente do governo geral da Congregação, como também da disciplina interna e espiritual, e da administração financeira dos mosteiros” (Bula“Inter gravissimas curas”). (ENDRES, p. 225). Com esse Decreto criava-se a nossa querida Congregação Beneditina do Brasil.

Achei por bem grifar algumas partes do documento para uma melhor leitura bem como uma identificação das partes mais importantes do texto. Esse foi o meu intento.

Boa leitura!


BULA
“INTER GRAVISSIMAS CURAS”

LEÃO BISPO

Servo dos Servos de Deus

PARA ETERNA MEMÓRIA

Entre os mui graves cuidados, com que, devido à importância dos assuntos, nos traz em contínua ansiedade o cargo do dever pastoral, a braços com tantas e tamanhas dificuldades, costuma premer-Nos o ânimo o de contribuir, quanto possível, para a conservação da disciplina regular, nas famílias religiosas, a fim de que aqueles que nos arraiais da penitência com juramento se vinculam a Cristo, seu Chefe, prossigam, sob o amparo da Sé Apostólica, com mais presteza no caminho dos mandamentos.

Pois, há pouco, que o amado filho Frei Antônio do Carmo, professo declarado, na Ordem dos Monges de São Bento e atual Provincial da mesma Ordem no Império do Brasil, expôs à nossa consideração, que ali existem 11 mosteiros, entre os quais se contam 7 Abadias, a.s. uma, cabeça da Congregação, na cidade do Santíssimo Salvador, outra de São Bento de Olinda em Pernambuco, outra de Nossa Senhora de Monserrate no Rio de Janeiro, outra do mesmo título na Paraíba, outra da Assunção da B. V. Maria em São Paulo, outra de Nossa Senhora da Graça em Salvador e outra da Nossa Senhora chamada das Brotas, na vizinhança da vila de São Francisco na mesma Província; que existem, outrossim, 4 Presidências, i. é uma na vila de Santos, outra em Sorocaba, outra na Parnaíba, e a quarta em Jundiaí, na Província de São Paulo; que todos os acima mencionados mosteiros, canonicamente erigidos, possuem os seus respectivos patrimônios em fundos adquiridos a títulos legais, já de doações onerosas, já de outras espécies; que os respectivos frutos, rendimentos e lucros sempre costumavam empregar não somente na sustentação da Família Religiosa, em despesas pela celebração do culto divino, na conservação e restauração dos prédios, mas também na subvenção dos pobres pela distribuição quotidiana de esmolas, e ainda em largos subsídios prestados à Nação. Acrescenta, em seguida, o mesmo relatório, que a eleição tanto dos dois principais Abades dentro dos sete para as supra-citadas Abadias, como a dos Presidentes para as quatro Presidências, e a dos outros Oficiais para os Conventos existentes no Brasil, se fazia até agora nos Capítulos Gerais que de três em três anos se costumavam celebrar na Abadia de São Martinho de Tibães como sendo Abadia-mãe de toda a Congregação no reino de Portugal, de conformidade com a Carta Apostólica da Bula do Papa Clemente X; de recente memória, predecessor Nosso, a qual se principia com as palavras:”Causam inter dilectos”, com a data de 7 de setembro do ano do Senhor 1673, e como, por circunstâncias extraordinárias, essas eleições não se podiam realizar nos tais Capítulos, ultimamente havidos, não sem grande prejuízo para a observância regular e a administração dos mosteiros, fomos por isso humildemente rogados Nos dignássemos de ocorrer oportunamente estas necessidades dos mosteiros da dita Congregação da Ordem de São Bento ao Império do Brasil.

Neste sentido apresentou-Nos os seus especiais empenhos o Nosso mui querido filho em Cristo, Pedro I, Imperador do Brasil, por intermédio do amado filho M. Francisco Corrêa Vidigal, seu Ministro plenipotenciário perante Nós e a Sé Apostólica.

Nós, portanto, considerando a distância dos lugares, havendo o oceano atlântico de permeio, desejando prover ao bem a dita Ordem e Congregação, e condescender aos desejos do egrégio Imperador, em virtude de ciência certa, de madura deliberação e do pleno poder Apostólico, feita primeiro a absoluta desmembração e separação da Congregação Lusitana da Ordem de São Bento, erigimos e constituímos pela presente Carta a nova Congregação da mesma Ordem de São Bento, a chamar-se dora avante brasileira, havendo de formar-se de todos e quaisquer mosteiros do Império brasileiro, com as mesmas leis, direitos, privilégios e prerrogativas, contidos e expressos na mencionada Carta do Papa Clemente X, com a inteira faculdade de celebrar Capítulos Gerais a bem não somente do governo geral da Congregação, como também da disciplina interna e espiritual, e da administração financeira dos mosteiros.

Estes tais Capítulos Gerais, em que há de ser eleito o Superior Geral que deverá de presidir a toda a Congregação brasileira da Ordem de São Bento, serão realizados pela primeira vez no Mosteiro de São Sebastião na cidade do Santíssimo Salvador, onde além de outros assuntos, também há de determinar pelo sufrágio da maioria dos votantes, se o Capítulo Geral há de ser celebrado sempre nesse Mosteiro somente ou se convém designar vários conventos, em que alternadamente se celebrem os Capítulos trienais, e, que estabelecida uma vez tal norma, não possa ser futuramente mudada sem motivo razoável e grave, e só com o consentimento de duas terças partes do Capítulo Geral. Entretanto, o Superior Geral da dita Congregação brasileira da Ordem de São Bento deverá residir naquele Mosteiro e empunhar-lhe o governo, onde terá sido celebrado o Capítulo Geral.

Mandamos, pois, que aquele que atualmente desempenha o cargo de Abade Provincial da dita Congregação na Província do Brasil dirija inteiramente esta Congregação com todos os direitos e honras e privilégios, que competem ao Superior Geral da Congregação Lusitana, e convoque, o mais cedo possível, o Capítulo Geral no dito Mosteiro de São Sebastião, com o fim de cuidar da pronta e canônica eleição do novo Superior Geral, enquanto Nós confirmamos, até a dita celebração do Capítulo Geral, os respectivos Superiores e administradores de cada um dos Mosteiros, e os de qualquer denominação que durante este meio tempo possam ter nos respectivos cargos e ofícios.

E a este Superior Geral da Congregação beneditina por Nós constituida dentro dos limites do Império brasileiro, plenamente lhe concedemos e confirmamos e ortogamos todos e quaisquer direitos, privilégios, honras e prerrogativas, acordados pelo já mencionado Clemente X, nosso predecessor, ao Superior Geral da Congregação Lusitana de São Bento.

E porque é do Nosso maior interesse, que dessa nova Congregação dos monges da Ordem de São Bento provenha muitos cômodos e proveitos, sobretudo, espirituais a toda a Nação brasileira, afoitámo-Nos a esperar confiadamente, que os filhos de Ordem sigam os preclaros exemplos de seus antepassados, e, dedicando-se com máximo carinho ao estudo das letras humanas e divinas, instruam a mocidade, de preferência, nas ciências sagradas; e, por isso, esperamos com ardente desejo – o que para Nós e esta Santa Sé será sumo gosto, e digno de recordação – que as escolas dos Mosteiros sejam franqueadas também aos jovens de fora, de modo que estes tenham fácil acesso aos conventos, existentes no Império brasileiro, para os estudos das doutrinas filosóficas e sobretudo, teológicas, serviço que os filhos da família beneditina sempre tinham costume de prestar em vários países da Europa com grande proveito do bem público.

Sendo com essa diretriz efetivamente constituída a nova Congregação dos monges da Ordem de São Bento no Império brasileiro, Nós lhe liberalizamos para sempre todos os privilégios, isenções, honras e prerrogativas, de que consta que dantes foram legitimamente concedidas à congênere Congregação existente no reino de Portugal. A presente Carta em todo seu conteúdo, inclusive os pontos em que dela porventura discordarem alguns pelo motivo de possuírem ou de pretenderem de qualquer modo que seja, possuir algum direito e interesse no assunto acima exposto ou numa parte dele, ou porque alguns destes não foram de modo nenhum consultados ou ouvidos acerca do assunto, decretamos que ela possa jamais por vício algum de subrepção ou obrepção ou nulidade, ou por falta da Nossa intenção, ou ainda por qualquer defeito, embora substancial, ser censurada, impugnada ou alguma vez infligida, cercada ou controvertida, mas que sempre e perpetuamente é e será válida e eficaz, sortindo plena e integralmente seus defeitos, e que deve ser observada inviolavelmente por todos aqueles a quem diz respeito ou para o futuro se refletir de qualquer modo; e caso acontecer que alguém, se não importa qual autoridade, consciente ou inconscientemente proceda doutro modo a respeito dela, Nós o declaramos sem valor e de todo em todo inexistente, sem embargo das Nossas leis, e das da cancelaria Apostólica concernentes ao direito adquirido inauferível, não obstante os Estatutos e Indultos da dita Ordem e Congregação, bem que corroborados por confirmação Apostólica ou por qualquer outra força legal, nem as Constituições e ordenações gerais ou particulares. Todas estas e semelhantes disposições, no seu conjunto e nas suas partes, derrogamo-las ampla e plenamente, em particular e expressamente para o efeito do assunto exposto, haja o que houver em contrário.

Queremos, além disto, que às cópias mesmo impressas desta Carta, assinadas, todavia, por algum tabelião público, e munidas do carimbo duma pessoa revestida de dignidade eclesiástica, se lhes dê em toda parte a mesma fé, que tributar-se-ia a esta presente Carta, se fora exibida ou mostrada.

A ninguém, pois, não seja absolutamente permitido infringir ou atrevidamente contrariar este Nosso documento da desmembração, separação, ereção, constituição, designação, confirmação, concessão, graça, indulto, decreto, derrogação e vontade Nossa. Se, porém, qualquer tentar tal coisa, saiba que incorreu na indignação de Deus onipotente e dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo.


Dada em Roma, junto a São Pedro, no ano da Encarnação do Senhor 1827, em 1º de julho, no quarto ano de Nosso pontificado.





 
Papa que criou a Congregação Beneditina do Brasileira

Brasão da Congregação Beneditina do Brasil 

Explicação das Armas da Congregação Beneditina Brasileira 





1- ABADIA DE SÃO SEBASTIÃO NA CIDADE DO SANTÍSSIMO SALVADOR - BA, Cabeça da Congregação.


Fundado pela Páscoa de 1582, por resolução do Capítulo Geral de 07 de outubro de 1581, celebrado no Mosteiro de São Bento da Saúde de Lisboa. Elevado à categoria de Abadia a 13 de outubro de 1584 no Capítulo Geral, celebrado no Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, e constituído cabeça dos Mosteiros da Província do Brasil no dia 22 de agosto de 1596. Pela Bula “Inter gravíssimas curas” de 1º de julho de 1827 foi declarado cabeça da Congregação Beneditina Brasileira.
O Mosteiro Baiano é a Abadia mais antiga de toda a América (ENDRES, p. 55). 


2- ABADIA SÃO BENTO DE OLINDA EM PERNAMBUCO


Mosteiro fundado entre 1586 e erigido em Abadia a 22 de agosto de 1596 (na Arquidiocese de Olinda e Recife). (DIRETÓRIO LITÚRGICO O.S.B).


3- ABADIA NOSSA SENHORA DE MONSERRATE NO RIO DE JANEIRO


Mosteiro fundado em 1590, e elevado à categoria de Abadia a 22 de agosto de 1596, e erigido em Abadia “Nullius” com jurisdição sobre o território do Rio Branco (hoje Estado de Roraima), a 15 de agosto de 1907, por Decreto da Santa Congregação Consistorial, até 1934, quando o território foi da Abadia. A 19 de março de 1948, pela Constituição Apostólica “Decessor Noster” do Papa Pio XII, foi novamente erigido em Abadia Territorial e, em 06 de maio de 2003, por Decreto da Congregação para os Bispos, foi extinta a sua territorialidade (na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro). (DIRETÓRIO LITÚRGICO O.S.B).

                      
4- ABADIA ASSUNÇÃO DA B. V. MARIA EM SÃO PAULO - SP


Mosteiro fundado em 1598 e erigido em Abadia a 3 de maio de 1635 (na Arquidiocese de São Paulo). (DIRETÓRIO LITÚRGICO O.S.B).


5- ABADIA NOSSA SENHORA DE MONTSERRATE, JOÃO PESSOA - PARAÍBA

Mosteiro fundado no ano de 1599. Feito Presidência a 12 de janeiro de 1600 e ereto em Abadia a 28 de janeiro de 1607. Oi suprimido a 23 de fevereiro de 1921 (ENDRES, p. 70).



6- ABADIA NOSSA SENHORA DA GRAÇA, CIDADE DO SANTÍSSIMO SALVADOR - BA


Fundado no ano de 1647 e Presidência a 13 de janeiro de 1694, foi ereto em Abadia a 05 de fevereiro de 1697. Voltou a ser Presidência no ano de 1707 e foi 2ª vez elevado À Abadia a 27 de fevereiro de 1720. Por Decreto da Santa Sé de 20 de janeiro de 1906 foi supresso e incorporado à Abadia de São Sebastião do Salvador da Bahia, continuando até o presente como Priorado Claustral (ENDRES, p. 74).


7- ABADIA NOSSA SENHORA DAS BROTAS, NA VIZINHANÇA DA VILA DE SÃO FRANCISCO- BA


Fundado no ano de 1670 na qualidade de Presidência, foi esta supressa a 05 de dezembro de 1690. Novamente elevado à Presidência a 13 de janeiro de 1694, foi ereto em Abadia a 29 de março de 1703. Por Decreto da Santa Sé de 20 de janeiro de 1906 foi incorporado à Abadia de São Sebastião do Salvador da Bahia, sendo então administrado por Priores Claustrais. Com a venda dos edifícios e terrenos, a 26 de junho de 1911, deixou de existir este antigo Mosteiro (ENDRES, p. 76).





1- PRIORADO DE NOSSA SENHORA DO DESTÊRRO (1643)
MOSTEIRO DE SÃO BENTO, PARNAÍBA
SÃO PAULO - BRASIL


Fundado no ano de 1643, foi ereta em Presidência a 14 de julho de 1659. Por falta de monges foi administrado de 1830 a 1905 pelos Reverendíssimos Prelados da Abadia de São Paulo. Em 1905 a Presidência foi incorporada a Abadia de São Paulo (ENDRES, p. 82).


2- PRIORADO DE NOSSA SENHORA DO DESTÊRRO, (1650)
MOSTEIRO DE SÃO BENTO, SANTOS
SÃO PAULO


Fundado a 1º de janeiro de 1650, elevado à Presidência no Capítulo Geral de maio de 1656, foi ereto em Priorado Conventual a 08 de julho de 1925. No ano de 1964 uniu-se à Congregação Americano-Cassinense, sendo ocupado por monges da Abadia de São Bento de Atchison Kansas, USA (ENDRES, p. 79).


3- PRIORADO DE SANT’ANA, (1667) 
MOSTEIRO DE SÃO BENTO, SOROCABA
SÃO PAULO


Fundada como Presidência a 04 de julho de 1667. Até 1694 foi cometida a eleição de Presidente ao Padre Provincial com a Junta. No ano de 1905 foi incorporado a Abadia de São Paulo, continuando desde então como Priorado Claustral (ENDRES, p. 83).


4- PRIORADO DE SANT’ANA (1668)
MOSTEIRO DE SÃO BENTO, JUNDIAÍ
SÃO PAULO  


Fundado como Presidência a 26 de janeiro de 1668. Até o ano de 1694 foi cometido a eleição de Presidente ao Padre Provincial com a Junta. Um deles era Frei Sebastião de Jesus, nomeado pelo Provincial a 3 de março de 1689. De 1830 a 1905 a Presidência foi administrada pelos Prelados da Abadia de São Paulo, devido a grande falta de monges. No ano de 1905 foi incorporada à dita Abadia, continuando até hoje como Priorado Claustral (ENDRES, p. 86).





REFERÊNCIAS

ENDRES, Lohr José. Catálogo dos Bispos- Gerais-Provinciais-Abades e mais cargos da Ordem de São Bento do Brasil 1582-1975. – Salvador – BA: Editora Beneditina Ltda, 1976.

Ut In Omnibus Glorificetur Dei