sexta-feira, 23 de março de 2018

BULA “INTER GRAVISSIMAS CURAS” PARA A CRIAÇÃO DA CONGREGAÇÃO BENEDITINA BRASILEIRA DA ORDEM DE SÃO BENTO





Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 13 de março de 2018

INTRODUÇÃO 

A Bula “INTER GRAVISSIMAS CURAS” do Sumo Pontífice Leão XII (1760-1829), dada no dia 1º de julho do ano do Senhor de 1827 sob o Patrocínio de Nosso Pai São Bento é um documento importantíssimo para a nossa Ordem no Brasil, porque foi através dessa Bula que se dá o desligamento da Venerável Congregação Lusitana, fundada em 1569 pelo Papa Pio V, que possuía Sede no Mosteiro de São Martinho de Tibães, Portugal, criando assim a Congregação Beneditina Brasileira

Até esta data de 1º de julho de 1827, todos os Abades e Superiores da Ordem no Brasil eram eleitos e nomeados na Junta abacial que acontecia no Mosteiro de Tibães de três em três anos. Com isso, devido a distância entre estes países, havia diversas dificuldades em muitas questões de administração dos Mosteiros brasileiros e também na parte espiritual dos monges. Saibam que não foi fácil o desligamento da Congregação Lusitana; mais, devidos aos rogos do Imperador D. Pedro I e outros insignes Prelados, o Sumo Pontífice, Leão XII, atendeu aos rogos dos que aqui se encontravam: “Neste sentido apresentou-Nos os seus especiais empenhos o Nosso mui querido filho em Cristo, Pedro I, Imperador do Brasil, por intermédio do amado filho M. Francisco Corrêa Vidigal, seu Ministro plenipotenciário perante Nós e a Sé Apostólica. Nós, portanto, considerando a distância dos lugares, havendo o oceano atlântico de permeio, desejando prover ao bem a dita Ordem e Congregação, e condescender aos desejos do egrégio Imperador, em virtude de ciência certa, de madura deliberação e do pleno poder Apostólico, feita primeiro a absoluta desmembração e separação da Congregação Lusitana da Ordem de São Bento, erigimos e constituímos pela presente Carta a nova Congregação da mesma Ordem de São Bento, a chamar-se dora avante brasileira, havendo de formar-se de todos e quaisquer mosteiros do Império brasileiro, com as mesmas leis, direitos, privilégios e prerrogativas, contidos e expressos na mencionada Carta do Papa Clemente X, com a inteira faculdade de celebrar Capítulos Gerais a bem não somente do governo geral da Congregação, como também da disciplina interna e espiritual, e da administração financeira dos mosteiros” (Bula“Inter gravissimas curas”). (ENDRES, p. 225). Com esse Decreto criava-se a nossa querida Congregação Beneditina do Brasil.

Achei por bem grifar algumas partes do documento para uma melhor leitura bem como uma identificação das partes mais importantes do texto. Esse foi o meu intento.

Boa leitura!


BULA
“INTER GRAVISSIMAS CURAS”

LEÃO BISPO

Servo dos Servos de Deus

PARA ETERNA MEMÓRIA

Entre os mui graves cuidados, com que, devido à importância dos assuntos, nos traz em contínua ansiedade o cargo do dever pastoral, a braços com tantas e tamanhas dificuldades, costuma premer-Nos o ânimo o de contribuir, quanto possível, para a conservação da disciplina regular, nas famílias religiosas, a fim de que aqueles que nos arraiais da penitência com juramento se vinculam a Cristo, seu Chefe, prossigam, sob o amparo da Sé Apostólica, com mais presteza no caminho dos mandamentos.

Pois, há pouco, que o amado filho Frei Antônio do Carmo, professo declarado, na Ordem dos Monges de São Bento e atual Provincial da mesma Ordem no Império do Brasil, expôs à nossa consideração, que ali existem 11 mosteiros, entre os quais se contam 7 Abadias, a.s. uma, cabeça da Congregação, na cidade do Santíssimo Salvador, outra de São Bento de Olinda em Pernambuco, outra de Nossa Senhora de Monserrate no Rio de Janeiro, outra do mesmo título na Paraíba, outra da Assunção da B. V. Maria em São Paulo, outra de Nossa Senhora da Graça em Salvador e outra da Nossa Senhora chamada das Brotas, na vizinhança da vila de São Francisco na mesma Província; que existem, outrossim, 4 Presidências, i. é uma na vila de Santos, outra em Sorocaba, outra na Parnaíba, e a quarta em Jundiaí, na Província de São Paulo; que todos os acima mencionados mosteiros, canonicamente erigidos, possuem os seus respectivos patrimônios em fundos adquiridos a títulos legais, já de doações onerosas, já de outras espécies; que os respectivos frutos, rendimentos e lucros sempre costumavam empregar não somente na sustentação da Família Religiosa, em despesas pela celebração do culto divino, na conservação e restauração dos prédios, mas também na subvenção dos pobres pela distribuição quotidiana de esmolas, e ainda em largos subsídios prestados à Nação. Acrescenta, em seguida, o mesmo relatório, que a eleição tanto dos dois principais Abades dentro dos sete para as supra-citadas Abadias, como a dos Presidentes para as quatro Presidências, e a dos outros Oficiais para os Conventos existentes no Brasil, se fazia até agora nos Capítulos Gerais que de três em três anos se costumavam celebrar na Abadia de São Martinho de Tibães como sendo Abadia-mãe de toda a Congregação no reino de Portugal, de conformidade com a Carta Apostólica da Bula do Papa Clemente X; de recente memória, predecessor Nosso, a qual se principia com as palavras:”Causam inter dilectos”, com a data de 7 de setembro do ano do Senhor 1673, e como, por circunstâncias extraordinárias, essas eleições não se podiam realizar nos tais Capítulos, ultimamente havidos, não sem grande prejuízo para a observância regular e a administração dos mosteiros, fomos por isso humildemente rogados Nos dignássemos de ocorrer oportunamente estas necessidades dos mosteiros da dita Congregação da Ordem de São Bento ao Império do Brasil.

Neste sentido apresentou-Nos os seus especiais empenhos o Nosso mui querido filho em Cristo, Pedro I, Imperador do Brasil, por intermédio do amado filho M. Francisco Corrêa Vidigal, seu Ministro plenipotenciário perante Nós e a Sé Apostólica.

Nós, portanto, considerando a distância dos lugares, havendo o oceano atlântico de permeio, desejando prover ao bem a dita Ordem e Congregação, e condescender aos desejos do egrégio Imperador, em virtude de ciência certa, de madura deliberação e do pleno poder Apostólico, feita primeiro a absoluta desmembração e separação da Congregação Lusitana da Ordem de São Bento, erigimos e constituímos pela presente Carta a nova Congregação da mesma Ordem de São Bento, a chamar-se dora avante brasileira, havendo de formar-se de todos e quaisquer mosteiros do Império brasileiro, com as mesmas leis, direitos, privilégios e prerrogativas, contidos e expressos na mencionada Carta do Papa Clemente X, com a inteira faculdade de celebrar Capítulos Gerais a bem não somente do governo geral da Congregação, como também da disciplina interna e espiritual, e da administração financeira dos mosteiros.

Estes tais Capítulos Gerais, em que há de ser eleito o Superior Geral que deverá de presidir a toda a Congregação brasileira da Ordem de São Bento, serão realizados pela primeira vez no Mosteiro de São Sebastião na cidade do Santíssimo Salvador, onde além de outros assuntos, também há de determinar pelo sufrágio da maioria dos votantes, se o Capítulo Geral há de ser celebrado sempre nesse Mosteiro somente ou se convém designar vários conventos, em que alternadamente se celebrem os Capítulos trienais, e, que estabelecida uma vez tal norma, não possa ser futuramente mudada sem motivo razoável e grave, e só com o consentimento de duas terças partes do Capítulo Geral. Entretanto, o Superior Geral da dita Congregação brasileira da Ordem de São Bento deverá residir naquele Mosteiro e empunhar-lhe o governo, onde terá sido celebrado o Capítulo Geral.

Mandamos, pois, que aquele que atualmente desempenha o cargo de Abade Provincial da dita Congregação na Província do Brasil dirija inteiramente esta Congregação com todos os direitos e honras e privilégios, que competem ao Superior Geral da Congregação Lusitana, e convoque, o mais cedo possível, o Capítulo Geral no dito Mosteiro de São Sebastião, com o fim de cuidar da pronta e canônica eleição do novo Superior Geral, enquanto Nós confirmamos, até a dita celebração do Capítulo Geral, os respectivos Superiores e administradores de cada um dos Mosteiros, e os de qualquer denominação que durante este meio tempo possam ter nos respectivos cargos e ofícios.

E a este Superior Geral da Congregação beneditina por Nós constituida dentro dos limites do Império brasileiro, plenamente lhe concedemos e confirmamos e ortogamos todos e quaisquer direitos, privilégios, honras e prerrogativas, acordados pelo já mencionado Clemente X, nosso predecessor, ao Superior Geral da Congregação Lusitana de São Bento.

E porque é do Nosso maior interesse, que dessa nova Congregação dos monges da Ordem de São Bento provenha muitos cômodos e proveitos, sobretudo, espirituais a toda a Nação brasileira, afoitámo-Nos a esperar confiadamente, que os filhos de Ordem sigam os preclaros exemplos de seus antepassados, e, dedicando-se com máximo carinho ao estudo das letras humanas e divinas, instruam a mocidade, de preferência, nas ciências sagradas; e, por isso, esperamos com ardente desejo – o que para Nós e esta Santa Sé será sumo gosto, e digno de recordação – que as escolas dos Mosteiros sejam franqueadas também aos jovens de fora, de modo que estes tenham fácil acesso aos conventos, existentes no Império brasileiro, para os estudos das doutrinas filosóficas e sobretudo, teológicas, serviço que os filhos da família beneditina sempre tinham costume de prestar em vários países da Europa com grande proveito do bem público.

Sendo com essa diretriz efetivamente constituída a nova Congregação dos monges da Ordem de São Bento no Império brasileiro, Nós lhe liberalizamos para sempre todos os privilégios, isenções, honras e prerrogativas, de que consta que dantes foram legitimamente concedidas à congênere Congregação existente no reino de Portugal. A presente Carta em todo seu conteúdo, inclusive os pontos em que dela porventura discordarem alguns pelo motivo de possuírem ou de pretenderem de qualquer modo que seja, possuir algum direito e interesse no assunto acima exposto ou numa parte dele, ou porque alguns destes não foram de modo nenhum consultados ou ouvidos acerca do assunto, decretamos que ela possa jamais por vício algum de subrepção ou obrepção ou nulidade, ou por falta da Nossa intenção, ou ainda por qualquer defeito, embora substancial, ser censurada, impugnada ou alguma vez infligida, cercada ou controvertida, mas que sempre e perpetuamente é e será válida e eficaz, sortindo plena e integralmente seus defeitos, e que deve ser observada inviolavelmente por todos aqueles a quem diz respeito ou para o futuro se refletir de qualquer modo; e caso acontecer que alguém, se não importa qual autoridade, consciente ou inconscientemente proceda doutro modo a respeito dela, Nós o declaramos sem valor e de todo em todo inexistente, sem embargo das Nossas leis, e das da cancelaria Apostólica concernentes ao direito adquirido inauferível, não obstante os Estatutos e Indultos da dita Ordem e Congregação, bem que corroborados por confirmação Apostólica ou por qualquer outra força legal, nem as Constituições e ordenações gerais ou particulares. Todas estas e semelhantes disposições, no seu conjunto e nas suas partes, derrogamo-las ampla e plenamente, em particular e expressamente para o efeito do assunto exposto, haja o que houver em contrário.

Queremos, além disto, que às cópias mesmo impressas desta Carta, assinadas, todavia, por algum tabelião público, e munidas do carimbo duma pessoa revestida de dignidade eclesiástica, se lhes dê em toda parte a mesma fé, que tributar-se-ia a esta presente Carta, se fora exibida ou mostrada.

A ninguém, pois, não seja absolutamente permitido infringir ou atrevidamente contrariar este Nosso documento da desmembração, separação, ereção, constituição, designação, confirmação, concessão, graça, indulto, decreto, derrogação e vontade Nossa. Se, porém, qualquer tentar tal coisa, saiba que incorreu na indignação de Deus onipotente e dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo.


Dada em Roma, junto a São Pedro, no ano da Encarnação do Senhor 1827, em 1º de julho, no quarto ano de Nosso pontificado.





 
Papa que criou a Congregação Beneditina do Brasileira

Brasão da Congregação Beneditina do Brasil 

Explicação das Armas da Congregação Beneditina Brasileira 





1- ABADIA DE SÃO SEBASTIÃO NA CIDADE DO SANTÍSSIMO SALVADOR - BA, Cabeça da Congregação.


Fundado pela Páscoa de 1582, por resolução do Capítulo Geral de 07 de outubro de 1581, celebrado no Mosteiro de São Bento da Saúde de Lisboa. Elevado à categoria de Abadia a 13 de outubro de 1584 no Capítulo Geral, celebrado no Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, e constituído cabeça dos Mosteiros da Província do Brasil no dia 22 de agosto de 1596. Pela Bula “Inter gravíssimas curas” de 1º de julho de 1827 foi declarado cabeça da Congregação Beneditina Brasileira.
O Mosteiro Baiano é a Abadia mais antiga de toda a América (ENDRES, p. 55). 


2- ABADIA SÃO BENTO DE OLINDA EM PERNAMBUCO


Mosteiro fundado entre 1586 e erigido em Abadia a 22 de agosto de 1596 (na Arquidiocese de Olinda e Recife). (DIRETÓRIO LITÚRGICO O.S.B).


3- ABADIA NOSSA SENHORA DE MONSERRATE NO RIO DE JANEIRO


Mosteiro fundado em 1590, e elevado à categoria de Abadia a 22 de agosto de 1596, e erigido em Abadia “Nullius” com jurisdição sobre o território do Rio Branco (hoje Estado de Roraima), a 15 de agosto de 1907, por Decreto da Santa Congregação Consistorial, até 1934, quando o território foi da Abadia. A 19 de março de 1948, pela Constituição Apostólica “Decessor Noster” do Papa Pio XII, foi novamente erigido em Abadia Territorial e, em 06 de maio de 2003, por Decreto da Congregação para os Bispos, foi extinta a sua territorialidade (na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro). (DIRETÓRIO LITÚRGICO O.S.B).

                      
4- ABADIA ASSUNÇÃO DA B. V. MARIA EM SÃO PAULO - SP


Mosteiro fundado em 1598 e erigido em Abadia a 3 de maio de 1635 (na Arquidiocese de São Paulo). (DIRETÓRIO LITÚRGICO O.S.B).


5- ABADIA NOSSA SENHORA DE MONTSERRATE, JOÃO PESSOA - PARAÍBA

Mosteiro fundado no ano de 1599. Feito Presidência a 12 de janeiro de 1600 e ereto em Abadia a 28 de janeiro de 1607. Oi suprimido a 23 de fevereiro de 1921 (ENDRES, p. 70).



6- ABADIA NOSSA SENHORA DA GRAÇA, CIDADE DO SANTÍSSIMO SALVADOR - BA


Fundado no ano de 1647 e Presidência a 13 de janeiro de 1694, foi ereto em Abadia a 05 de fevereiro de 1697. Voltou a ser Presidência no ano de 1707 e foi 2ª vez elevado À Abadia a 27 de fevereiro de 1720. Por Decreto da Santa Sé de 20 de janeiro de 1906 foi supresso e incorporado à Abadia de São Sebastião do Salvador da Bahia, continuando até o presente como Priorado Claustral (ENDRES, p. 74).


7- ABADIA NOSSA SENHORA DAS BROTAS, NA VIZINHANÇA DA VILA DE SÃO FRANCISCO- BA


Fundado no ano de 1670 na qualidade de Presidência, foi esta supressa a 05 de dezembro de 1690. Novamente elevado à Presidência a 13 de janeiro de 1694, foi ereto em Abadia a 29 de março de 1703. Por Decreto da Santa Sé de 20 de janeiro de 1906 foi incorporado à Abadia de São Sebastião do Salvador da Bahia, sendo então administrado por Priores Claustrais. Com a venda dos edifícios e terrenos, a 26 de junho de 1911, deixou de existir este antigo Mosteiro (ENDRES, p. 76).





1- PRIORADO DE NOSSA SENHORA DO DESTÊRRO (1643)
MOSTEIRO DE SÃO BENTO, PARNAÍBA
SÃO PAULO - BRASIL


Fundado no ano de 1643, foi ereta em Presidência a 14 de julho de 1659. Por falta de monges foi administrado de 1830 a 1905 pelos Reverendíssimos Prelados da Abadia de São Paulo. Em 1905 a Presidência foi incorporada a Abadia de São Paulo (ENDRES, p. 82).


2- PRIORADO DE NOSSA SENHORA DO DESTÊRRO, (1650)
MOSTEIRO DE SÃO BENTO, SANTOS
SÃO PAULO


Fundado a 1º de janeiro de 1650, elevado à Presidência no Capítulo Geral de maio de 1656, foi ereto em Priorado Conventual a 08 de julho de 1925. No ano de 1964 uniu-se à Congregação Americano-Cassinense, sendo ocupado por monges da Abadia de São Bento de Atchison Kansas, USA (ENDRES, p. 79).


3- PRIORADO DE SANT’ANA, (1667) 
MOSTEIRO DE SÃO BENTO, SOROCABA
SÃO PAULO


Fundada como Presidência a 04 de julho de 1667. Até 1694 foi cometida a eleição de Presidente ao Padre Provincial com a Junta. No ano de 1905 foi incorporado a Abadia de São Paulo, continuando desde então como Priorado Claustral (ENDRES, p. 83).


4- PRIORADO DE SANT’ANA (1668)
MOSTEIRO DE SÃO BENTO, JUNDIAÍ
SÃO PAULO  


Fundado como Presidência a 26 de janeiro de 1668. Até o ano de 1694 foi cometido a eleição de Presidente ao Padre Provincial com a Junta. Um deles era Frei Sebastião de Jesus, nomeado pelo Provincial a 3 de março de 1689. De 1830 a 1905 a Presidência foi administrada pelos Prelados da Abadia de São Paulo, devido a grande falta de monges. No ano de 1905 foi incorporada à dita Abadia, continuando até hoje como Priorado Claustral (ENDRES, p. 86).





REFERÊNCIAS

ENDRES, Lohr José. Catálogo dos Bispos- Gerais-Provinciais-Abades e mais cargos da Ordem de São Bento do Brasil 1582-1975. – Salvador – BA: Editora Beneditina Ltda, 1976.

Ut In Omnibus Glorificetur Dei


quarta-feira, 7 de março de 2018

UMA ANÁLISE DA MÚSICA: "DAQUI SÓ SE LEVA O AMOR", DO COMPOSITOR ROGÉRIO FLAUSINO, CANTADA POR JOTA QUEST.




Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 07 de março de 2018

INTRODUÇÃO 

Ao deparar-me com essa composição musical, encantei-me com as frases tão bem colocadas pelo compositor Rogério Flausino. Pois, esta música trás uma beleza fascinante em sua letra e também muito bela a sua melodia. Esta bela composição nos mostra de modo bastante claro um tema importantíssimo que é o amor. Ponto central para a nossa vivência social e humana. A Sagrada Escritura vem nos mostrar em quase todos os seus livros a grande importância do amor.

Todos os santos da cristandade viveram de modo intenso o amor e, muitos deles deixaram para nós belos tratados sobre este tema. O primeiro pensamento que me veio a mente ao escutar esta linda música, foi aquele da carta do grande evangelista São João, o Apóstolo do amor (1ª e 2ª Carta de São João), que em suas cartas as quais são consideradas um verdadeiro tratado sobre o amor, nos dá um panorama deste tema. Nelas, vemos o evangelista tratar claramente, com uma inspiração do Espírito Santo o assunto do amor. Também lembrei-me de um outro importante místico o grande São João da Cruz (1542-1591), que trata do mesmo tema com uma beleza incomparável, em seus escritos espirituais, bem como outros santos e santas do cristianismo.

O que me chamou atenção de imediato nesta música foi o seu título: Daqui só se leva o amor. Esta é uma frase central do programa espiritual do grande místico São João da Cruz. Dizia ele: “No ocaso da vida, o que conta é o amor”. Ou seja, no final da nossa existência terrestre, ao prestarmos contas a Deus, das nossas ações, se não tivermos praticado a caridade/amor, o nosso julgamento será bastante severo. As cartas de São João nos mostram isso com grande clareza. Lembremo-nos bem que o amor ao qual os santos se referem deve ser em atos concretos. Santo Antônio de Pádua (1195-1231) dizia em seus sermões: “Calem as palavras e falem as obras”. Queria ele dizer, que, as palavras passam e as obras permanecem, por isso devemos praticar com amor, obras concretas para o nosso próximo.

Nos dias atuais o conceito de música boa ou ruim é bastante relativo. Muitas vezes ouço pessoas dizerem não gosto dessa música ou daquela, etc. cada um tem sua história. Eu, particularmente, gosto de quase todos os estilos de música. Porém, a composição clássica me fascina. Sempre digo aos meus irmãos quando converso com eles sobre música, que a composição musical para mim é divina. A música cura. Na Idade Média a música já possuía esta finalidade. Vemos a grande Abadessa Beneditina Santa Hildegard von Bingen (1098-1179) tratando certas doenças com música. Ela acreditava que certas doenças estavam relacionadas a alma. Por isso, o paciente ficava curado ao ouvirem belas notas musicais.

Lembro aos leitores que esta reflexão não esgota esta composição musical, pois, cada um tem sua maneira de refletir. Portanto, esta é a minha parcela de reflexão aos amantes da música.

Por isso, desejei fazer uma pequena análise dessa letra tão bem escolhida pelo compositor. Meus Parabéns ao compositor Flausino e ao artista Jota Quest!

 Boa leitura!

Análise Musical

Título da música
Daqui só se leva o Amor
O que importa na nossa vida é o amor. No nosso julgamento, quando estivermos diante do todo-poderoso, o que contará neste grande momento é o amor praticado ao próximo e nada mais. Dizia São João da Cruz: “No ocaso da vida, o que conta é o amor”.

Viver
“Tudo o que a vida tem pra te dar
Muitos perdem tempo em coisas que não tem muito valor e assim não vive os momentos que a vida nos oferece deixando com isso escapar os momentos únicos a ser vividos com intensidade. Não percam tempo com coisas que não constrói uma existência feliz! Sejamos muito atentos às chances que a vida nos apresenta. Assim, poderemos viver com retidão e alegria tudo o que a vida tem para nos oferecer.

Saber, saber
Em qualquer segundo tudo pode mudar
Isso é bem certo, que, em qualquer segundo tudo pode mudar para melhor ou para o pior. Portanto, cada um de nós devemos está muito atentos a esses segundos, pois são eles muito preciosos na nossa vida. Tenhamos cuidado! Uma fração de tempo, mal vivida, pode desestrutura uma vida e mudar uma história.

Fazer
Sem esperar nada em troca
Aqui está um grande problema social. Há pessoas que fazem algo de bom para outra no intuito de receber algo em troca. Isso é terrível! Por esta razão, às vezes, elas arrependem-se dos atos bons que praticaram a outras pessoas. Como fala o nosso superior: “Nunca devemos nos arrepender do bem que praticamos. Devemos, sim, nos arrepender do mal praticado e, nunca do bem”. Aqueles bens que não são reconhecidos, são justamente desses, que, ouvimos muitos dizerem: “Eu me arrependi de ter feito isso a fulano…”. Certamente essa pessoa esperava algo da outra parte. Nunca devemos dizer tal coisa, porque o bem que é praticado faz o nosso mundo mais humano e fraterno e o bom Deus estará sempre atento a nos socorrer quando o invocarmos. Portanto, quando fizeres algo de bom para alguém, não espere nada em troca. Faça por amor e você se sentirá feliz.

Correr
Sem se desviar da rota
Muitos correm, porém, às vezes, eles não sabem para onde estão indo ou que direção devem tomar. Desviam-se da rota que foi tomada no início da prova. Com isso, não possuem uma rota, um foco, um lugar certo de chegada. Ficam perdidos titubeando no caminho. Daí a atenção que devemos ter ao tomar uma rota e nunca nos desviarmos dela. Ter uma rota segura é de suma importância para a vida de todo ser humano. Portanto, tome uma rota certa e siga em frente sem dela desviar-se. Assim, viverás bem e com determinação. O homem determinado vive bem e consegue quase tudo o que deseja.

Acreditar no sorriso
E não se dar por vencido
Devemos acreditar nos nossos ideais. A felicidade se baseia nisto. A felicidade é composta desses momentos de certezas e convicções que temos de algo e daquilo que fazemos de bom. Quando acreditamos nesses sorrisos, então, vem o momento magno de alegria pondo em nossos lábios e nos lábios dos que nos arrodeiam a alegria da vida e, assim, não nos damos por vencidos mesmo nas horas de dificuldades, porque sabemos que as dificuldades está presente na vida dos seres humanos, mesmo que não as queiramos. Acreditemos! Assim, não seremos vencidos pelos males do mundo e suas dificuldades. Avante!

Querer, querer
Mudar o mundo ao seu redor
Aqui está um ponto central da mudança do mundo, que é mudar ao nosso redor e não desejar que esta mudança venha de longe ou mesmo de outra pessoa. Mude você primeiro, que aqueles que estiverem a sua volta também mudarão. Se todos pensassem dessa maneira viveríamos em paz uns com os outros. E assim, não haveria tanta corrupção, mortes, escravidão, descaso com a pessoa humana, etc. Percebo que não devemos esperar a mudança dos outros. A mudança deve começar por nós mesmo. Mudança interior.  

Saber, saber
Que mudar por dentro pode ser o melhor
Um certo dia Jesus disse aos Fariseus: “Ouvi e entendei! Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mais o que sai da boca, isso sim o torna impuro” (Mt 15, 10-11). Pelo que pude constatar, muitos pensam que o homem torna-se mal e impuro por causa das coisas que o rodeia. Não é assim! Jesus, nesta passagem, nos responde de maneira impressionante. A mudança deve ser de dentro de nós mesmos e não devemos ficar esperando a mudança do mundo sem um compromisso de nossa parte. Uma mudança interior é preciso e do mais profundo do nosso ser. Ouçamos mais uma vez a Jesus: “Não entendeis que tudo o que entra pela boca vai para o ventre e daí para a fossa? Mas o que sai da boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro. Com efeito, é do coração que procedem más intenções, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações” (Mt 15, 17-19). Daí a beleza dessa frase musical: “Saber, que mudar por dentro pode ser o melhor”. E digo com toda a certeza: É o melhor.

Fazer
Sem esperar nada em troca
(Já foi comentado acima)

Vencer
É recomeçar
Quando o sol chegar
Quando o céu se abrir
Saiba que estarei aqui
Aqui posso ver a alegria da conquista muitas vezes tão dolorida. Vencemos muitas vezes, mas, sempre haverá um recomeço porque não podemos cruzar os nossos braços na vitória e, sim, seguir enfrente em outras batalhas que virão sem dúvida. O recomeço faz-se necessário em nossa vida enquanto vivermos aqui neste mundo. Alegria plena só quando estivermos na presença do bom Deus. Enquanto vivermos neste mundo, veremos chegar o sol e o céu se abrir, isto é, as alegrias e, sabemos também que não estaremos sozinhos, mas, com outros irmãos que estão e estarão sempre ao nosso lado.

Vamos amar no presente
Vamos cuidar mais da gente
Vamos pensar diferente, porque
Daqui só se leva o amor” (bis)
Pensemos sim no passado, mas não fiquemos presos nele. Façamos planos para o futuro, no entanto, não nos preocupemos demasiado com ele. Tudo ao seu tempo! Vivamos o presente porque o passado se faz do presente; bem como o futuro depende do tempo presente. Portanto, vivamos intensamente o momento presente. Amemos, nos doemos, nos alegremos, pois passados estes momentos, eles não mais retornarão. Isso é cuidar mais da gente. Dessa maneira, cuidaremos também dos nossos semelhantes. E finalizo dizendo com o compositor e com os santos citados acima: Daqui só se leva o amor. 


REFERÊNCIAS
Artista: Jota Quest
Álbum: Pancadélico
Data de lançamento: 2015
Gênero: Pop
Compositor: Rogério Flausino
© Sony/ATV Music Publishing LLC

Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 59,7)


sábado, 10 de fevereiro de 2018

BIOGRAFIA DE SANTA ESCOLÁSTICA, ABADESSA (480-547) IRMÃ GÊMEA DE SÃO BENTO DE NÚRSIA, ABADE (480-547)


Festa de Santa Escolástica para os monges e Solenidade para as monjas. 

Os santos irmãos São Bento, Abade e Santa Escolástica, Abadessa.

Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B
(Monge Beneditino)
Salvador, Bahia – 10 de fevereiro de 2018

INTRODUÇÃO 

Hoje, a Santa virgem Escolástica, qual uma pomba, subiu jubilosa aos céus; hoje, com seu irmão, goza para sempre as alegrias da vida celeste. (Liturgia das Horas-Rito Monástico).

A virgem prudente entrou para as bodas e vive com Cristo na glória celeste. Como o sol, ela brilha entre os coros das virgens (Liturgia das Horas).

Temos na Santa Igreja, alguns santos que estão intimamente ligados a outros santos. Por isso, ao escrevermos ou falarmos espontaneamente de suas vidas, somos quase que obrigados a falar também das figuras que os acompanharam na sua caminhada cristã ou por serem ligados por laços biológicos como no caso de São Bento e Santa Escolástica, São Cirilo (826-869) e São Metódio (815-885), São Cosme e São Damião, etc. Há Também aqueles que foram unidos pelos mesmos ideais de vida consagrada a Deus no seguimento de Cristo num laço puramente espiritual como: São Francisco de Assis (1181-1226) e Santa Clara de Assis (1194-1253), Santa Teresa d’Ávila (1515-1582) e São João da Cruz (1542-1591), São Francisco de Sales (1567-1622) e Santa Joana Francisca de Chantal (1572-1641), e tantos outros.

Aqui deixo aos meus leitores um pouco da vida da grande Abadessa Santa Escolástica e do nosso grande Patriarca São Bento, pois seria impossível falar de Santa Escolástica e não citar irmão São Bento. Eles sempre estiveram unidos desde o ventre materno pois eram irmãos gêmeos e até unidos no túmulo. Pois, morrendo Santa Escolástica, no dia 10 de fevereiro do ano de 547, São Bento pede aos monges que busque o corpo da irmã e a enterra em seu próprio túmulo no Mosteiro de Montecassino. Morrendo também ele 40 dias depois em 21 de março. O primeiro e grande Papa Beneditino São Gregório Magno (540-604), escreveu em seus Diálogos estas belas palavras referentes a São Bento e sua Santa irmã Escolástica: Desse modo, aconteceu que aqueles cujo espírito sempre fora um só em Deus, também os corpos não foram separados pela sepultura (Gregório Magno- Diálogos cap. 34).

Santa Escolástica e nosso Pai São Bento estão no céu na presença de Deus, de Jesus Cristo, da sua Santíssima Mãe a Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos todos, intercedendo por seus filhos monges e monjas e por todos aqueles que invocam a sua poderosa intercessão.

Boa leitura!


DADOS BIOGRÁFICOS:

- Nascimento:  No ano de 480 d.C., em Nórcia, Úmbria - Itália.
- Pais: Anicius Eupropius e Cláudia Abondantia Reguardati.
- Irmão: São Bento de Núrsia, Abade.
- Falecimento: Em 10 de fevereiro de 547 d.C., Montecassino, Cassino, Itália.
- Padroeira: Das crianças com convulsões; das monjas; e invocada contra chuvas e tempestades.

BIOGRAFIA DE SANTA ESCOLÁSTICA
ABADESSA
Duas crianças unidas no ventre materno, unidas na vida, unidas no túmulo, e unidas no céu. Assim, dou início a vida de Santa Escolástica. O Nosso Santo Patriarca São Bento. Nasceu na cidade de Nórcia, província de Perugia, na Itália, no ano de 480 e tinha uma irmã gêmea chamada Escolástica; a grande Abadessa Santa Escolástica (480-547), que foi a primeira monja beneditina. Fundadora do ramo feminino da Ordem de São Bento. Eles pertenciam à influente e nobre família Anícia. Segundo a tradição seus pais chamavam-se Anicius Eupropius e Cláudia Abondantia Reguardati. A mãe veio a falecer no parto ficando o seu pai em grande sofrimento pela perda da esposa. No entanto, não faltou às crianças esmerada e sólida educação, principalmente na fé cristã. Tal foi a educação cristã que Santa Escolástica fez a sua consagração a Deus vivendo em castidade perfeita ainda muito jovem muito antes do seu irmão Bento.

Certamente, Santa Escolástica possuía desde a sua infância um espírito elevado a Deus, uma vida de espiritualidade e penitência bastante séria, pois neste período do início do Monaquismo cristão no Ocidente, as pessoas que se entregavam a Deus, levavam uma vida de grande seriedade na oração e na penitência.

Santa Escolástica amava tanto seu irmão Bento, que quando este sai da casa paterna para estudar retórica em Roma, ela o segue. Certamente, ela consagrou sua vida a Deus antes mesmo do seu irmão Bento. Pelos poucos relatos que possuímos de sua santa vida, podemos perceber que ela sempre foi ligada ao irmão pelo ideal de consagração a Deus. O ideal de consagração que Santa Escolástica desejava possuir, creio que ela desejava algo bem mais relacionado a uma vida de entrega com uma organização bem mais estruturada. Por isso, a vemos seguir o seu irmão São Bento na vivência de sua Santa Regra para os Mosteiros. Assim, Santa Escolástica foi a primeira Abadessa das monjas beneditinas (ramo feminino da Ordem de São Bento) por seguir o ideal monástico de seu querido irmão o Patriarca São Bento.

A Regra que São Bento escreveu era tudo aquilo que Santa Escolástica desejava seguir. Ela ficou fascinada com a forma de vida escrita por Bento. Esta era uma verdadeira inspiração do Espírito Santo para o seguimento de Jesus Cristo, pois a Regra Beneditina é, toda ela, um escrito Cristológico. Com isso, Santa Escolástica deixa tudo e decide viver num Mosteiro com um pequeno grupo de moças que a acompanha no seu ideal de vida monástica. Aí ingressam muitas outras jovens fascinadas pelo ideal do seguimento do Cristo; dirigidas estimuladas por Santa Escolástica a viverem a sua consagração total ao Deus todo-poderoso, na ORAÇÃO, no TRABALHO (Ora et Labora), no ESTUDO e na VIDA EM COMUNIDADE, ajudando, e suportando umas às outras com caridade e amor fraternal. Daí em diante, cresce e, se desenvolve, com a graça de Deus, o ramo monástico cenobítico beneditino feminino. O Mosteiro do qual Santa Escolástica era Abadessa, foi o Mosteiro de Primarola, que ficava a poucos quilômetros de distância de Montecassino onde residia o seu caro irmão Bento.

Para uma vivência monástica feminina, Santa Escolástica recebeu grande ajuda do irmão na organização da vida das monjas com as adaptações da Santa Regra que era dirigida para os Mosteiros dos monges. Como já sabemos o sexo feminino tem suas singularidades bem como o sexo masculino. Portanto, eram necessárias certas mudanças em alguns pontos da Regra, principalmente neste século VI em que o Ocidente se encontrava em grande caos por ocasiões das guerras etc. Era necessário um certo rigor nas normas estabelecidas para aqueles que procuravam a vida de perfeição no seguimento de Jesus Cristo no Mosteiro. Por causa disso vemos na Regra Beneditina o bloco que trata das penas, às vezes, muito severas para os monges que incorriam em faltas na observância monástica. Estas normas estão redigidas nos capítulos 23º ao 30º, nestes, está todo o código penal da Regra Beneditina. Portanto, a necessidade de adaptações para as monjas que sem dúvidas eram mais frágeis que os monges.

Outrora, a nossa Ordem Beneditina era dirigida apenas pela Regra de nosso Pai São Bento; Porém, nos dias atuais somos dirigidos pela Santa Regra e pelas Constituições da Congregação Beneditina Brasileira. (confira a lista das várias Congregações da nossa Sagrada Ordem Beneditina, no link: Os-Reverendissimos-Abades-Primazes-da-Confederação-da-Ordem-de-São-Bento.). Estas Constituições são direcionadas aos monges e outra direcionadas às monjas (Constituições das monjas), cada uma com suas peculiaridades. É claro que, ambas são fundamentadas principalmente, na vida em comunidade e no princípio ORA ET LABORA (Oração e Trabalho) criado por nosso Patriarca São Bento.

Santa Escolástica apesar de se encontrar com seu irmão Bento apenas uma vez por ano, devido às regras dos Mosteiros, eles sempre foram muito ligados um ao outro não só pelos laços sanguíneo mais principalmente na vida de espiritualidade. Ouçamos com atenção o grande Papa São Gregório Magno (540-604) onde nos deixou em seus Diálogos dois capítulos referentes a essa união de São Bento e Santa Escolástica ao relatar o milagre da Santa e a sua santa morte. Assim nos diz São Gregório:

A sua irmã que se chamava Escolástica, consagrada desde a infância a Deus onipotente, costumava visitá-lo uma vez por ano. O homem de Deus descia para vê-la numa casa pertencente ao mosteiro, não muito distante do mesmo. Como de costume ela chegou e, na companhia de alguns discípulos, o seu venerável irmão foi encontrá-la. Passaram o dia inteiro louvando ao Senhor, em santos colóquios e, quando já estava anoitecendo, comeram juntos. Sentados à mesa, conversaram acerca de de temas sagrados, até que se fez bastante tarde. Foi então que a sua devota irmã implorou-lhe que ficasse, dizendo: Peço-te que esta noite não te vás, para podermos falar das alegrias da vida celeste até ao amanhecer. Ele respondeu: “O que dizes, irmã? Não posso absolutamente pernoitar fora do mosteiro”. Naquele momento o céu estava sereno e não se via nem mesmo uma nuvem. Ao escutar a recusa do irmão, Escolástica cruzou as mãos sobre a mesa e nela pousou a cabeça para rezar a Deus todo-poderoso. Assim que levantou a cabeça, irromperam relâmpagos e trovões, acontecendo um tal dilúvio que nem o venerável Bento, nem os monges que estavam com ele puderam colocar os pés fora da porta. A santa monja, reclinando a cabeça sobre as mãos, havia derramado na mesa um rio de lágrimas, com as quais transformara em chuva o azul do céu. Entre a oração e o temporal não se passou sequer um instante, pois de tal modo foram simultâneas a oração e a chuva que enquanto ela erguia a cabeça já ressoavam os primeiros trovões. A elevação da cabeça e a precipitação da chuva ocorreram num só e único momento. O homem de Deus, vendo que não podia retornar ao mosteiro em meio a todos aqueles relâmpagos e trovões e àquela espantosa tempestade, pôs-se a lamentar, dizendo: “Que Deus onipotente te perdoe, irmã! O que fizeste?” E ela respondeu: “Eu te pedi e não me quiseste escutar. Pedi ao meu Senhor e ele me atendeu. Agora sai, se puderes, deixa-me e retorna ao mosteiro”. Impossibilitado de sair, Bento foi obrigado a permanecer ali, contrariado, onde não havia desejado ficar por sua espontânea vontade. Assim, passaram toda a noite em vigília e saciaram-se com santas conversas, comungando suas experiências de vida espiritual (Diálogos cap. 33).

Em seguida, prossegue São Gregório Magno com outro belo relato da sobre a Santa, agora referente a sua santa morte, a qual foi vista a certa distância por São Bento que se encontrava no Mosteiro de Montecassino em sua cela. Este fato ocorreu três dias após aquele belo encontro dos dois irmãos. Ouçamos São Gregório:

No dia seguinte, Escolástica e Bento retornaram aos seus respectivos mosteiros. Três dias depois, o homem de Deus estava em sua cela quando, ao erguer os olhos ao céu, viu a alma da irmã, saída do corpo, penetrar nas profundezas do céu, sobre a forma de pomba. Repleto de alegria pelo grande triunfo da irmã, agradeceu a Deus todo-poderoso com hinos de louvor e deu a notícia a seus monges, ou melhor, ordenou a alguns deles que pegassem o corpo de Escolástica e o transportassem ao mosteiro, para que fosse enterrado na sepultura que ele havia preparado para si (Diálogos cap. 34).

Vejamos a beleza nesta frase de São Gregório:viu a alma da irmã, saída do corpo, penetrar nas profundezas do céu, sobre a forma de pomba. É por causa desse relato de São Gregório que Santa Escolástica Normalmente é representada com uma pomba. Também existem outras representações tanto na arte escultórica (escultura) como na pictórica (pintura), da Santa, várias outras representações como o báculo pastoral abacial, o livro da Regra ou o Evangelho, o menino Jesus, chuva, raios, etc.

De grande beleza é o término deste capítulo quando São Gregório diz: Desse modo, aconteceu que aqueles cujo espírito sempre fora um só em Deus, também os corpos não foram separados pela sepultura (Diálogos cap. 34).

Todos os fatos relatados por São Gregório Magno da vida de São Bento e Santa Escolástica foram coletados anos mais tarde pelos seus discípulos que foram testemunhas oculares dos fatos narrados em seus Diálogos. Nos diz São Gregório:

Não conheço todos os episódios da vida e o pouco que estou para narrar, aprendi-o com os seus quatro discípulos: Constantino, homem digno de grande veneração, que o sucedeu no governo do Mosteiro; Valentiniano, que por muitos anos foi o superior do Mosteiro de Latrão; Simplício, que foi o terceiro a governar a sua comunidade e, por fim, Honorato, que ainda hoje dirige o Mosteiro em que Bento viveu no início de sua vida monástica (Diálogos, Prólogo).

O Abade Constantino foi o primeiro sucessor de São Bento em Montecassino bem como o Abade Simplício o segundo sucessor de São Bento em Montecassino. Era sacerdote. A ele se deve a 1ª edição da Santa Regra.

Quarenta dias após a morte da sua cara irmã Santa Escolástica, também subia ao céu o Servo de Deus, nosso grande Patriarca São Bento, no dia 21 de março do ano de 547, no Mosteiro de Montecassino que fundara no ano de 529 e onde escreveu a Santa Regra para os monges e monjas, na região de Cassino, Itália.

Hoje, podemos ver claramente, que a mensagem e o grande legado que nos deixaram as santas de vidas de nosso Pai São Bento e da grande Santa Escolástica, legado este, que impulsionou todo o Ocidente cristão, formando a civilização de toda a Europa cristã. Por este motivo, São Bento foi declarado o Patrono principal de toda a Europa pelo Sumo Pontífice Beato Paulo VI no ano de 1964.

Portanto, invoquemos sempre Santa Escolástica e, seu irmão, nosso Patriarca São Bento. Peçamos a eles que interceda por todos nós junto a Deus e sua Santíssima Mãe a Virgem Maria, dos santos monges e monjas e de todos os Anjos. Assim, não seremos jamais confundidos. 

ORAÇÕES A SANTA ESCOLÁSTICA

Celebrando a festa de Santa Escolástica, nós vos pedimos, ó Deus, a graça de imitá-la, servindo-vos com caridade perfeita e alegrando-nos com os sinais do vosso amor. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém. (Liturgia das Horas)

ORAÇÃO A SANTA ESCOLÁSTICA

Ó Deus, que de modo admirável ornastes Santa Escolástica com a luz da inocência, dai-nos sempre agradar-vos pela pureza da vida, a fim de vos louvarmos com o coro das virgens na alegria do céu. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. (Missal). 

Intercessão dos santos irmãos São Bento e Santa Escolástica 

Festa de Santa Escolástica, Abadessa














REFERÊNCIAS

GREGÓRIO MAGNO, São. São Bento: Vida e Milagres / São Gregório Magno; Dom Gregório Paixão, OSB. Salvador: Edições São Bento, 2002.


Ut In Omnibus Glorificetur Deus (RB 57,9)