quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O PRÓXIMO DISTANTE E O DISTANTE QUE SE TORNOU PRÓXIMO.

  

Dom Gilvan Francisco dos Santos, OSB

(Monge Beneditino)

Salvador, Bahia – 30 de setembro de 2026

"Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Ele respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”. (Mt 22,36-40).

Por que esse tema, um pouco estranho, é de extrema importância atualmente? Por que o próximo se encontra tão distante? Por que o distante parece estar tão próximo de muitos? Tentaremos responder de forma rápida e direta a estas perguntas.

Deixo claro que a conotação de próximo, aqui, se refere as pessoas com quem convivemos aquelas com quem convivemos, principalmente os familiares, ou seja, o próximo no sentido estrito da palavra. Aqueles que caminham lado a lado conosco.

Para os povos e as culturas antigas, o distanciamento e as guerras se davam entre países ou culturas diferentes das suas. Eles guerreavam por conquistas de terras, por divergirem de religião ou por outros fatores de extrema importância para aquele povo ou cultura. No mais, os povos mantinham-se unidos nos seus clãs, prezando pelas suas relações familiares e amistosas do clã. Porém, neste século atual, está ocorrendo um fenômeno, o qual poderá comprometer o futuro da humanidade, ou seja, o distanciamento daqueles que vivem sobre o mesmo teto, na religião, na mesma cultura, aqueles que vivem próximos uns dos outros.

Nos inícios do século XX já davam sinais desse distanciamento uns dos outros, mas, esse fenômeno foi percebido acentuadamente com a pandemia da covid 2019, diante do lockdown ocorrido em todo o mundo, o qual obrigou as pessoas a ficarem nas suas residências, durante dias e meses, e isso acarretou sérios problemas familiares e sociais. Muitos não conseguiram conviver lado a lado, havendo brigas, homicídios, e muitos problemas psicológicos; e para muitos, a convivência diária, com seu próximo, tornou-se algo insuportável. É bastante claro vermos em todos os ambientes, nos setores de trabalho, nos consultórios, nos salões de beleza, nas igrejas, nos hospitais, nos postos de saúde, etc., as pessoas distantes uma das outras. Elas chegam, se sentam em um local, e mesmo lado a lado, pegam das suas bolsas ou dos seus bolsos os seus celulares e ali se tornam indiferentes a todos os que estão a volta. Nesses ambientes é difícil vermos uma comunicação verbal, como outrora víamos, isso está se tornando algo raro na sociedade atual. Cada um ingressam no seu mundo digital, resolvendo apenas os seus problemas. Outros brigando nos seus celulares, outros brincando no entretenimento com suas redes sociais, outros ainda trabalhando, e assim por diante. E a comunicação pessoa a pessoa fica comprometida cada um em seu mundo. Com a observação desses atos sociais, nasceu esse tema sobre o próximo que se tornou distante e aqueles que estão distante, tornou-se próximo pelas redes sociais e outros meios de comunicação social. De certa forma, percebemos, que nisso, há uma fuga das responsabilidades com o outro que está ao seu lado diariamente; uma fuga dos problemas, mas que cria outros bem maiores. Pois, com aquele que se encontra distante de certa forma não há um compromisso tão sério, quanto aquele que está ao nosso lado.

Na virada do século XX para o XXI, sabemos que houve uma mudança brusca no convívio familiar e fraterno social. Ainda no contexto do século XX, as coisas eram bem mais lenta em relação às mudanças sociais, bem como nas relações amistosas e em outros âmbitos de convívio pessoa a pessoa. A conversa em família, a tradição oral, tinha extrema importância na educação e desenvolvimento da pessoa, do grupo, etc., mas, com o passar dos anos, com o avanço das tecnologias digitais, da Tv e outros avanços sociais, as relações humanas foram tomando direções diversas, sem dúvidas proveitosas, mas também desastrosas, no tocante a sobrevivência humana. Com isso, houve o relaxamento nas amizades, o desprezo familiar em forma de abandono, e outros problemas sociais graves. Diante disso, aconteceu o distanciamento daqueles que se encontram a nossa volta, ou seja, se tornaram distantes de nós. Também isso acarretou muitos, a busca de um preenchimento do vazio pessoal interno, e aqueles que fugiram do seu próximo, fez o caminho oposto, ou seja, os que estão distantes do nós, se tornaram próximo a nós. Isso é um fenômeno que a cada dia toma uma forma e uma força assustadora na sociedade atual.

O mundo aos poucos está se transformando com uma rapidez que impressiona a todos. Aquela vida de proximidade familiar, de conversas, de respeito mútuo entre parentes e amigos, numa comunidade instituída, estão desaparecendo a cada ano que passa. Está acontecendo entre os membros familiar e as pessoas próximas, o distanciamento um dos outros. Não dizemos que outrora não houvesse isso. O que assusta é a rapidez e a escala crescente dos problemas que isso acarreta numa família e na sociedade mundial. Dos anos 90 em diante, com o advento da internet, esse problema acelerou de um modo assustador. A era digital tem as suas vantagens, mas também seus grandes perigos e desvantagens. Um dos grandes perigos é, que a grande maioria das pessoas não sabem mais conviver com o seu próximo, pois aqueles que estão ao seu lado, com os meios digitais, e outros meios de comunicação social, o próximo tornou-se distante, e aqueles que estão distantes, aos quais nos comunicamos por uma tela de celular, do computador ou de TV, achamos ser o nosso próximo; e com isso, muitas vezes, caímos em uma cilada perigosa; pois por, causa do vazio, muitas pessoas adquirem doenças mentais, psicossomáticas, espirituais, e vário distúrbios psicológicos.

Se voltarmos as décadas anteriores a 1990, poderemos perceber que havia mais união entre as famílias, os amigos, os vizinhos, entre as comunidades eclesiais, nos setores de trabalhos, e na sociedade em geral. Quase todos, senão todos, sabiam conviver uns com os outros, mesmo com as suas diferenças, num elo de amor e amizade entre si; isso era que tornava a sociedade mais justa, mais elegante e boa para se viver; o que atualmente é muito difícil esse tipo de convívio. A má educação levou grande parte para um isolamento familiar e social, e outro problemas sérios, colocando-os à beira de um precipício. Portanto, a correção fraterna tornou-se uma ameaça para muitos, que ver num conselho fraterno, dado diante de uma situação perigosa, algo sem nenhum valor algum.

Sabemos bem, que, o aqueles se encontram distante de nós, tem sim o seu valor na amizade, e merece todo o nosso respeito, mas, o que se encontra do nosso lado, jamais deveria estar distante. Atualmente nos isolamos daqueles que habitam conosco, e nos aproximamos das pessoas que se encontram distantes como se tivessem do nosso lado. Isso é um erro humano absurdo. E, o que é bem pior, fazemos da máquina tecnológica, a IA (inteligência artificial) o nosso mais íntimo amigo.

Atualmente aquele que está próximo fisicamente geralmente tornou-se um estorvo, um perigo, um incômodo, uma pedra no caminho. E o distante que se tem como próximo torna-se o amigo fiel, o salvador, etc. Pensemos bem nisso! 

Ut In Omnibus Glorificetur Deus. (RB 57,9)

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