quinta-feira, 21 de maio de 2026

TRIGÉSIMO DIA DO FALECIMENTO DO MEU PAI SENHOR GENÉSIO FRANCISCO DOS SANTOS - Dia do falecimento – 21.04.2026 Trigésimo dia – 21.05.2026.

 

Dom Gilvan Francisco dos Santos, OSB

(Monge Beneditino)

Salvador, Bahia – 21 de maio de 2026

Hoje, dia 21 de maio, completou-se um mês (trigésimo dia) que meu querido Pai o senhor Genésio Francisco dos Santos (1947 - 2026), deixou esse mundo, e voltou para a casa de Deus. Ele sempre nos dizia que não temia a morte, o que temia era os sofrimentos da morte, e assim sempre pedia a Deus e a Nossa Senhora, que naquele momento decisivo, não sofresse tanto, e que eles, os socorresse sem demora. E assim aconteceu. Com a minha mãe não foi diferente. Ambos eram amantes da oração, da caridade e da verdade. Pois, as duas últimas virtudes é o lema de nossa Família. Meus pais eram muitos devotos de Nossa Senhora, dos anjos, e dos santos, por isso, conseguiram o que tanto pediam, ou seja, uma morte rápida, tranquila e santa. Assim, diz as Escrituras: "Acima de tudo, cultivai, com todo o ardor, o amor mútuo, porque o amor (caridade) cobre uma multidão de pecados." (1Pd 4,8).

Quanto a esse primeiro ciclo do luto em que a minha família se encontra, ou seja, o trigésimo dia da morte do nosso querido pai, vejamos um pouco esse assunto de suma importância para todos nós.

O Santo Sacrifício Eucarístico (a Missa) é o ato por excelência para a salvação de todos aqueles que morreram, pois, ele é o grande Sacrifício de Cristo nosso Senhor e Salvador. Nenhuma forma de devoção substitui a Santa Missa, que é o Sacrifício Redentor de Cristo, o Cordeiro Imaculado de Deus Pai. Portanto, quando celebramos a missa de sétimo dia, e do trigésimo dia, ou seja, missa de um mês, como é mais conhecida, estamos cumprindo uma antiga tradição religiosa e cultural católica, a qual tem o objetivo de dirigir sufrágios pela alma do fiel falecido pedindo a Deus sua salvação eterna.

Por essa celebração, também se oferece o conforto aos seus familiares, marcando assim o primeiro ciclo de luto e ausência do falecido. O cristão que fez a sua passagem desta vida para a outra, não tem mais necessidade das coisas deste mundo, exceto das nossas orações pelo seu eterno descanso, porque nós cremos na ressurreição dos mortos e na vida eterna junto de Deus. Jesus nos ensinou: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisso?” (Jo 11,25-26). Por isso, pedimos a Deus a sua luz perpétua para os nossos irmãos que nos precederam na morte.

Essa prática vem das antigas tradições espirituais. Por causa do primeiro mês ser um dos períodos mais difíceis para os enlutados, a Santa Missa de sétimo, trigésimo dia, ou outras, sufraga em favor dos falecidos e pela sua salvação eterna no céu. A celebração eucarística tem também o objetivo de encontro, de apoio, ajudando, assim, os familiares a transformarem as suas dores em saudades, dando, com isso, início a uma aceitação da morte do seu ente querido.

Por essa razão, a missa de sétimo dia ou do trigésimo dia, pelo falecido, tem a finalidade de sufrágios pela sua alma, buscando o seu descanso eterno, e também proporciona a ajuda divina para a família do falecido que aqui ficaram. Portanto, tem eficácia e dá alívio para ambos os lados. Após o trigésimo dia, (um mês), são celebradas as missas de um ano, e assim sucessivamente, em memória do ente querido. E qualquer outra celebração ou homenagem feita ao falecido, sempre deve colocar a inscrição: in memoriam. Uma expressão latina que significa: “em memória”, “em lembrança”.

Em outra conotação social, tanto a Missa, como outras celebrações dirigida aos falecidos, elas tem o objetivo de reunir as pessoas, principalmente os familiares e os amigos, os quais, não puderam comparecer ao funeral ou ao sepultamento, devido às distâncias ou outros impedimentos; portanto, essas despedidas, ou seja, missa de sétimo dia, ou trigésimo dia da morte, tem a finalidade de uma homenagem mais ampla.

Requiescat in pace


ORAÇÃO PELOS MORTOS

Ó Deus, que perdoais e salvais os homens, suplicamos vossa clemência, em favor de (N… e dos outros) nossos irmãos, parentes, amigos e benfeitores que partiram desta vida, para que alcancem, graças à intercessão da Virgem Maria e de todos os vossos Santos, participar da vida eterna. Por Cristo nosso Senhor.

(Diretório Litúrgico da Congregação Beneditina do Brasil)


- Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso a todas as almas, entre os esplenderes da luz perpétua. Que elas descansem em paz. Amém.



Brasões e Bandeiras da Família
Desenhos e montagem de Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B

Momentos de alegrias

Com seus seus filhos e um sobrinho

Eu só tenho o que agradecer a Deus o pai que me concedeu. 
Amo demais

REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

Ut In Omnibus Glorificetur Deus. (RB 57,9)

 


sexta-feira, 1 de maio de 2026

 

O SIGNIFICADO DA CELA MONÁSTICA

Dom Gilvan Francisco dos Santos, OSB

(Monge Beneditino)

Salvador, Bahia – 1º de maio de 2026

Muitos que visitam e se hospedam nos mosteiros, estranham quando os monges e as monjas se referem aos seus quartos, chamando-os de celas. Eles quase que assustados, dizem: “Celas?” Ou perguntam: “Por que são celas?” Ou: “Vocês ficam presos e não podem sair?” E, fazem várias perguntas sobre o mesmo assunto. Por isso, explicarei aqui, alguns pontos relevantes em relação as celas dos mosteiros. Uma nomenclatura usada no mundo monástico.

Essa nomenclatura é tipicamente monástica, pois nos mosteiros cristãos, os quartos dos monges e das monjas, são chamados celas. Mas, por que esses espaços trazem esse nome? Eles não foram denominados assim por um acaso. Pois, essa palavra vem da língua latina cella, que significa pequeno espaço, lugar de retirar-se, de abrigar-se. Portanto, na vida monástica esse ambiente tem uma importância ímpar para os monges e as monjas, porque a cela monástica não é um lugar de isolamento como vemos nas prisões espalhadas pelo mundo, onde, nelas, são isolados os indivíduos, por causa de um crime, uma infração de lei, ou outros atos nocivos a sociedade. Nos mosteiros, as celas, jamais tem ou terá esse propósito. A cela monástica, portanto, é um lugar sagrado onde os monges e monjas buscam e entram na intimidade com Deus, e com Filho Jesus Cristo. É nesse espaço sagrado do mosteiro, que o silêncio fala àqueles que o habitam. Onde o coração se abre às inspirações de Deus, e as necessidades dos irmãos, e a alma aprende a não antepor nada ao amor de Cristo, como ensina a Regra do Patriarca dos monges do Ocidente São Bento, Abade (480-547), que ensina: “Nada antepor ao amor de Cristo.” (RB 4,21).

Como foi dito, as celas monásticas são ambientes sagrados, tanto quanto os oratórios (igrejas) dos mosteiros. Nesse lugar de encontro com Deus, e consigo mesmo, os monges e as monjas encontram as forças necessárias para si, e para os outros que lhes procuram em suas necessidades. Aí eles rezam, trabalham, choram, se alegram, e descansam. Portanto, é um espaço sagrado, onde eles se encontram com o seu Deus.  Na cela, os monges e monjas, fazem o que ensina São Bento na Regra para os mosteiros quando diz: “Vigiar a toda hora os atos da sua vida.” (RB 4,48). E, ainda: “Saber como certo que Deus o vê em todo lugar.” (RB 4,49).

Diante do que foi exposto, saibamos que a oração coral comunitária, o Ofício Divino (na igreja do mosteiro) os monges e as monjas devem estar em comunhão e em conformidade, com as orações feitas nas suas celas, pois o Patriarca dos monges nos ensina: “Dar-se frequentemente à oração.” (RB 4,56), ou seja, eles devem viver sempre na oração em todo lugar e em todo trabalho que fizerem, porque apenas a oração coral do Ofício Divino, na igreja do mosteiro, não sustentará a vocação monástica. Os monges e as monjas que sempre estão fugindo de suas celas, e da oração, mostram que isso é um sinal de que as suas vidas e a sua vocação monástica não estão indo bem. A vida dos monges e das monjas, para ser eficaz e autêntica, tem que ter uma ligação profunda com a oração coral comunitária, e a oração silenciosa em suas celas; bem como nos outros ambientes do mosteiro. Estes momentos de encontro com Deus, e consigo mesmo, são de grande importância para o sustento da vocação monástica, principalmente a oração silenciosa feitas em suas celas. Por essa causa, Jesus o Mestre de oração, ensina os seus discípulos a orar em segredo, dizendo: “E quando orardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de fazer oração pondo-se em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará.” (Mt 6,5-6). Lembremos que essa porta a que Jesus se refere nessa passagem do Evangelho, não é apenas a porta material do quarto, mas o entrar em si mesmo. E, em seguida a essa bela passagem, ele nos ensina a oração por excelência, ou seja, a oração do Pai-nosso, dizendo: “Portanto, orai desta maneira: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu Nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade na terra, como no céu. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos submetas à tentação, mas livra-nos do Maligno.” (Mt 6,9-13). Cf. (Lc 11,1-4).

Os mosteiros têm uma grande importância para a vida da Igreja e para a História Universal, porque a vida monástica criou e moldou partes importantíssimas da grande História do mundo com as suas criações e inovações, através da Oração do Trabalho dos seus monges e das monjas, que no silêncio de suas celas buscam a Deus na discrição de suas vidas. Enquanto o mundo sempre buscou o conforto e as distrações, principalmente nos tempos atuais, com tantos meios fáceis nas redes sociais e outros mecanismos de entretenimentos, os monges e as monjas buscam o recolhimento e a escuta da Palavra de Deus nas pequenas celas dos seus mosteiros. Mas, nem assim eles estão isolados do mundo, estão, sem dúvidas, sempre em sintonia com todos, ajudando-os com as suas orações e trabalhos sociais e outros variados meios de apostolados da Igreja. “Portanto, a cela monástica é mais que um espaço físico – é um santuário de oração e vigilância interior. Então quando ouvires falar ou veres uma cela monástica, lembra-te: ‘é lá dentro dela que os monges e as monjas travam uma das batalhas mais sagradas da vida...’ Aquela entre eles e Deus.” Porém, essa batalha sendo sagrada não deixa de ser renhida, porque o habitar consigo mesmo dos monges e das monjas, exige grandes sacrifícios na sua caminhada vocacional e para o seu crescimento espiritual. Portanto, quando ouvires falar ou veres uma cela monástica, lembra-te que esse espaço do mosteiro é a sagrada morada dos monges e das mojas, onde dali sobem a Deus as orações pelo mundo, os trabalhos, as lágrimas, as alegrias, e o descanso.

O Patriarca São Bento nos dirá no capítulo sétimo da sua Regra para os mosteiros: “Aquele que perseverar até o fim será salvo. E também: “Que se revigore o teu coração e suporta o Senhor.” E a fim de mostrar que o que é fiel deve suportar todas as coisas, mesmo as adversas, pelo senhor, diz a Escritura, na pessoa dos que sofrem: “Por vós, somos entregues todos os dias à morte; somos considerados como ovelhas a serem sacrificadas. Seguros na esperança da retribuição divina, prosseguem alegres dizendo: “Mas superamos tudo por causa daquele que nos amou.” Também, em outro lugar, diz a Escritura: “Ó Deus, provaste-nos, experimentaste-nos no fogo, como no fogo é provada a prata: induzistes-nos a cair no laço, impusestes tribulações sobre os nossos ombros”. (RB 7,36-40). 

Temos na Regra de São Bento outras passagens que se referem as celas monásticas. 

- RB 1,10 - As celas; 

- RB 22,4-8 - Os dormitórios dos monges;

- RB 36,7 - As celas dos irmãos enfermos;

- RB 58,4 - As celas do noviços;

- RB 66,2 - A cela do porteiro. 


APOFTEGMA SOBRE A CELA

Apoftegma: Abade Poimém

“Em certa ocasião Paésio, o irmão do Abade Poimém, tinha colóquios com alguém fora da cela. O Abade Poimém não queria isto; levantou-se, pois e fugiu para junto do Abade Amonas, dizendo a este: “Paésio, meu irmão, tem colóquios com alguém e, em consequência, eu não sossego”. Perguntou-lhe o Abade Amonas: “Poimém, ainda vives? Vai, senta-te em tua cela e coloca em teu coração a ideia de que já há um ano que jazes no sepulcro”.

(Informativo: Abadia da Ressurreição / fevereiro - 2013)


Apoftegma: Abade Antão

Ao Abade Amonas profetizou o Abade Antão, dizendo: “Hás de fazer progresso no amor de Deus”. E, levando-o para fora da cela, mostrou-lhe uma pedra e mandou-lhe: “Dize injúria a esta pedra e bate-a”. Ele assim fez. Perguntou-lhe então o Abade Antão: “Por acaso a pedra falou?” Respondeu: “Não”. Acrescentou o Abade Antão: “Assim também tu hás de chegar a esta medida”. De fato, isto aconteceu:  o Abade Amonas fez tantos progressos que, de tanta bondade, não mais conhecia a maldade.

(Informativo: Abadia da Ressurreição / dezembro - 2012)

 

REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

ENOUT, Evangelista João. A Regra de São Bento. Latim-português. Tradução D. João Evangelista Enout, O.S.B – Rio de Janeiro: LUMEM CHRIST, 1992. 

Ut In Omnibus Glorificetur Deus. (RB 57,9)