domingo, 12 de abril de 2026

 

A VIRTUDE DA ALEGRIA NA VIDA ESPIRITUAL 

Dom Gilvan Francisco dos Santos, O.S.B 

Salvador, Bahia - 15 de março de 2026

Quanto mais dificuldades enfrentarmos com paciência, mais Deus nos presenteia com seus favores e dons. Portanto, tudo suportemos e façamos por amor a Ele.


(Dom Gilvan Francisco, O.S.B)

 

A alegria é uma virtude procurada, questionada e muito estudada desde os primórdios. Ela é destinada a todo homem, porém, poucos a encontraram de um modo perfeito. Diante dos grandes questionamentos em relação à felicidade, poucos cristãos encontram a virtude e gozam da verdadeira alegria, porque não sabem procurá-la onde ela se encontra, e deseja encontrá-la onde ela não está. Existe um provérbio hindu que diz: “Quanto mais vazio o tambor, mais alto ele soa.” Portanto, é comum pensarmos que para sermos alegres deveremos permanecer sempre sorrindo ou ficarmos sempre naqueles momentos bons da nossa vida. Numa festa, por exemplo, rindo com os amigos, na fartura, ter muito dinheiro, propriedades, descanso etc. Para nós cristãos a virtude da perfeita alegria transcende a tudo isso.

O homem sempre desejou a felicidade absoluta e, consequentemente, o de eternidade. Mas o que fazer para encontrar a felicidade e conseguir a eternidade? Para a felicidade é que o homem vive. Sem ela, o homem esmorece e a vida perece. Portanto, o desejo da eternidade está ligado a virtude da felicidade.

Nos escritos I Fioretti, capítulo oitavo, São Francisco de Assis caminhando com Frei Leão para o convento de Santa Maria, exaustos, com frio e com fome, ensina a seu companheiro e a nós, como deveremos buscar a perfeita alegria. Segundo o santo, essa alegria perfeita se encontra se permanecermos serenos e na paz diante das grandes dificuldades apresentadas a nós, e até das humilhações sofrida com paciência por amor a Cristo. Para São Francisco é pela Cruz de Cristo que teremos a perfeita alegria.

Diz o Santo: “Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, ensopados de chuva, congelados de frio e cheios de fome, e formos rejeitados pelo porteiro como farsantes, e expulsos a pancadas, se sustentarmos sem murmuração essas injúrias, teremos a perfeita alegria. Escreve, Frei Leão, é nisto que está a verdadeira alegria: de bom grado, por amor de Cristo, suportar as penas e injúrias, os opróbrios e transtornos.” (I Fioretti, cap. 8).

São Francisco, está plenamente em conformidade com o que nos ensina a carta aos Romanos. “Penso, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se em nós.” (Rm 8,18). Se nós cristãos não possuímos esse pensamento da glória, ou seja, do céu, não alcançaremos a alegria espiritual e tão pouco seremos verdadeiros cristãos. Pois os que são de Cristo, devem segui-lo em tudo e permanecer olhando sempre em direção a ele, porque Jesus Cristo é o centro de tudo para nós. Todos os cristãos devem conhecer os mistérios de Cristo, já que ele é o centro das nossas vidas. (Cf. Fl 3,10 – Conhecimento de Cristo e o poder da sua ressurreição. Sl 32,10-11 – A alegria nos tormentos. Sl 33,12-15 – Feliz a nação cujo Deus é Iahweh).

Nós cristãos temos dificuldades em alcançar a virtude da alegria espiritual por diversas razões e situações diárias. Aqui poderemos citar algumas delas.

- A falta de coerência na vida 

São Bento nos dirá: “Consideremos, pois, de que maneira cumpre estar na presença da Divindade e de seus anjos; e tal seja a nossa presença na salmodia, que a nossa mente concorde com nossa voz.” (RB 19,6).

- A falsa alegria

São Bento ainda dirá: “Não conservar a falsidade no coração.” E “Não conceder paz simulada.” (RB 4,24.25).

- A oração vazia que gera um vazio espiritual

A acídia (preguiça espiritual) o mais perigoso dos pecados, segundo os antigos monges, porque ela nos distancia de Deus.

- O exibicionismo religioso excessivo. “E saibamos que seremos ouvidos, não com o muito falar, mas com a pureza do coração e a compunção das lágrimas. Por isso, a oração deve ser breve e pura, a não ser que, porventura, venha a prolongar-se por um afeto de inspiração da graça divina.” (RB 20,3).

Um bom método para não cairmos nesses embaraços espirituais ou em outros pecados é a oração constante. O exorcista Pe. Gabriele Amorth nos diz: “Existem momentos de oração que nos ajudam a perseverar. A oração da manhã e da tarde, ao menos o sinal da cruz nas refeições. E ainda a missa, ou ao menos uma visita à igreja. Pode também ter um momento para o Rosário ou para a adoração eucarística. Devemos nos ocupar de Deus, pois de outro modo, como faremos para O conhecer e amar? Por isso é preciso rezar durante o dia, mesmo sozinho e por várias vezes.” (AMORTH. O sinal do exorcista, 2013). Sabemos que Jesus é o nosso modelo de oração. Ele reza dia e noite e recebe do seu Pai a força para fazer sempre a sua vontade. Portanto, peçamos sempre ao nosso mestre Jesus que nos ensine a orar. “Senhor, ensina-nos a orar” (cf. Lc 11,1-4).

Outro método eficiente é sermos coerentes e prudentes em tudo o que empreendermos diariamente (RB 4,24.25.28). Citando a Regra, podemos ver que São Bento no capítulo quarto da Regra para os mosteiros nos ensina um caminho prático e eficaz para o nosso crescimento espiritual. Esse capítulo é uma compilação de preceitos, chamados de instrumentos da arte espiritual que nos traz 74 itens, os quais se forem postos em prática progrediremos na caminhada espiritual. No entanto, para isso exige-se esforço para definirmos objetivos claros na caminha, termos resiliência para planejarmos ações conscientes e saímos da nossa zona de conforto.

A Igreja como mãe e educadora tem um vasto tesouro tradicional e moderno, oral e escrito, que nos ajudará na caminha dos mistérios da nossa fé. Basta irmos em busca do que desejamos e precisamos para o nosso trabalho espiritual em direção ao céu. Alcançar a virtude da alegria na vida espiritual, pode ser um caminho fácil ou difícil, isso vai depender da busca e dos métodos de cada indivíduo. Há quem tenha mais dificuldades em encontrar a felicidade e outros nem tanto. Mas, por que isso acontece? Em relação a isso há diversos fatores educacionais, espirituais, psicológicos, sociais, entre outros.

Como a felicidade é o desejo de todo homem, aquele que alcançar a virtude da alegria espiritual, encontrou um grande tesouro espiritual, ou seja, alcançou Deus.


REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

ENOUT, Evangelista João. A Regra de São Bento. Latim-português. Tradução D. João Evangelista Enout, O.S.B – Rio de Janeiro: LUMEM CHRIST, 1992.

O SINAL DO EXORCISTA: Minha última batalha contra satanás. Gabriele Amorth e Paolo Rodari. 1ª edição – novembro de 2013 – CEDET – Eclesiae.

SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Escritos e biografias de São Francisco de Assis. Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano. 9ª edição – Editora Vozes, Petrópolis, 2000. 

Ut In Omnibus Glorificetur Deus. (RB 57,9)

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